Julgamento

Estava na Praça da Sé, esperando um ônibus para voltar para casa. O céu estava nublado, ventava e fazia muito frio. Eram 16h e acho que a temperatura beirava os 15º. Mas com o vento forte a sensação térmica era bem menor. Todas as pessoas estavam bem agasalhadas. Eu mesma estava até ridícula de tanta roupa que usava. Blusa, luvas, lenço, 2 calças.

Até que vi uma cena que mexeu comigo. No meio do mar de gente e moradores de rua vi uma moça muito bonita. Magra, muito magra. Tão magra que as pernas passavam longe de encostar uma na outra. Alta também e, além disso, usava um salto meia pata de cerca de 10 centímetros, preto com brilhantes. Desse jeito, ela chegava a ter minha altura, mais ou menos 1,80. Tinha a pele negra, lábios carnudos e era bem bonita. Não sei quantos anos ela tinha, mas podia imaginar. Aparentava ser bem nova. Talvez não passasse dos 17 anos. Ela andava apressada e a roupa chamava a atenção. Além do salto, usava um shorts jeans bem curto, que cobria só o bumbum. E em cima, vestia uma regata, com um generoso decote. Percebi que ela não tinha seios fartos, mas o sutiã ajudava a dar algum volume. Por onde passava arrancava sons. Ora de assobios, ora de cantadas baratas. Também arrancava olhares. Não sei o que as pessoas pensavam ao vê-la passar, mas podia imaginar. Alguns olhares de desejo, outros de julgamento.

Um desses olhares foi o meu. Mas não era com nenhuma dessas intenções. Quando a vi foi inevitável não sentir pena. Não faço ideia do por quê ela estava vestida daquela forma, mas podia imaginar. Acho que ninguém se vestiria dessa forma, no frio que fazia, se não fosse obrigada. Ela andava apressada, com os braços junto ao corpo; esfregava as mãos e levava-as à boca, soprando e tentando produzir calor. Em vão. Não sei que força maior era essa que a fazia estar nesse local, com essa roupa, dessa forma. Mas podia imaginar.

A moça tinha os cabelos mau cuidados. Curtos, grossos e com volume. Presos de qualquer jeito, de modo que algumas mechas ficavam soltas e bagunçadas. Apesar disso, era firme no andar e não vacilava, mesmo num salto daquele tamanho. Poderia ser modelo, caso tivesse nascido num lar abastado. De dinheiro, amor ou valores. Claro que pode ser um julgamento meu. Não faço ideia do lar que ela tinha ou tem, mas podia imaginar.

Me deu pena de vê-la nesse frio. Quis conhecer sua história. Ouvir o que ela tinha a dizer. Queria saber se podia ajudá-la de algum modo. Dar uma roupa quente, algo de comer, caso ela tivesse fome. Mas isso em algum momento acabaria e, dependendo da sua necessidade, ela voltaria a estar vestida assim. Eu queria dar a ela algo que não acaba, não envelhece e não se perde. Queria ajuda-la a ser abastada de amor e valores. Não sabia a necessidade dela. Mas podia imaginar.

E isso tudo durou 1 minuto e meio. Até que ela atravessou a rua e desapareceu no mar de gente do centro urbano. Pude sentir um pouco do frio que ela sentia e acho que vou demorar a esquecer seu olhar vazio de abandono. Não sei se era isso que ela sentia. Mas podia imaginar.

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