Pseudodoxia Epidemica Tropical

Em 1646, Sir Thomas Browne publicou seu livro “Enquiries into the very many preconceived tenets and commonly presumed truths”, ou simplesmente Pseudodoxia Epidemica, que pode ser traduzido como “epidemia de meias verdades”. Se tratava de um tomo com sete volumes gigantescos que iam atacando várias das “verdades populares” da época que na verdade se tratavam de erros vulgares. Embora controverso, os livros se espalharam pela a Europa e ajudaram a derrubar muitos dos mitos antigos e influênciaram na explosão da Revolução Científica.

Teoricamente muito distante desse tempo e espaço do ultimo parágrafo, estou eu, Rafael, estudando economia num dos peíodos mais conturbados na história do país. Um governo das mais sinistras intenções coloca em debate algumas reformas econômicas modernizadoras, que por sua vez encontram resistência e louvor por alguns núcleos na balbúrdia nacional.

Ambos os lados se armam de suas meias verdades autobeatificadas, e defendem-se dos seus altos muros de dogmas erguidos pela Monopólio da Moral LTDA. Na verdade, são tão altos e antigos, que se tem pouca ideia do que se passa do lado de fora da cidadela. Já não saem a tanto tempo dessas, que suas armas estão cegas, e soam como pau e pedra quando comparadas ao nível de embate em outras nações mais avançadas. Olhando de longe, parecemos uma ilha parada no tempo, habitada por selvagens cegos e surdos, e também não faria muita diferença se fossem mudos. Não à toa, em seu mais novo livro “Juros, Moeda e Ortodoxia”, André Lara Resende abre com uma discussão que houve nos anos de 1940 entre dois grandes economistas brasileiros, Simonsen e Gudin, que soa estranhamente contemporânea entre o desenvolvimentismo e liberalismo econômico. Já fazem 70 anos que não vislumbramos o futuro. Algum avanço aqui e alí, mas prosseguimos a passo de burro trôpego num mundo de computadores quânticos.

Enquanto o debate brasileiro não se desvincilhar de seus mitos antigos, abandonar seus filtros e enxergar a realidade, estaremos fadados a querelas fúteis e charlatões salvacionistas. E isso só será cumprido quando todos estiverem dispostos a sair de suas bolhas de conforto para confrontar os “outros lados da verdade”, sem preconceitos e mesquinhez.

Cabe a nós.

Roberto Simonsen e Eugênio Gudin, Fonte: Arquivo Grupo BBM
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