Sobre o preço do iPhone e o capitalismo exclusivista
Na última sexta-feira (14) foi lançado oficialmente o iPhone 6 no Brasil. E são muitas as vozes indignadas pelo preço do aparelho no país.
Sim, o Brasil tem o iPhone mais caro do mundo.
Dedos indicadores são rápidos ao apontar e condenar os impostos, o Estado castrador sufocando os desejos da classe média isolada pelo autoritarismo e pelo atraso à caminho de Cuba.
Mas será mesmo?
O modelo de consumo no capitalismo brasileiro é exclusivista por formação. Após centenas de anos de contribuição primária ao mundo e usufruto de produtos industrializados importados restritos à finíssima nata da sociedade, a história de como nós, brasileiros, aprendemos a consumir atravessa décadas de uma realidade industrial tecnicamente limitada por um lado e blindada da concorrência internacional por outro. Foi assim que as primeiras explosões do bombardeio midiático da publicidade eletrônica confundiram o ato de irmos às compras com uma expressão de requinte e sofisticação.
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É por isso que sempre que compramos algo levamos em consideração se nossos vizinhos enxergam naquele bem um símbolo de status.
Esse é um traço comum aos países da periferia ocidental. Além do prazer comum, imediato e descartável, nosso consumo carrega também todo um sentido exibicionista, uma declaração de pertencimento cosmopolita em sintonia com os movimentos de Nova York, Londres, Paris.
Consumir no Brasil sempre foi um luxo. Mesmo os bens de consumo mais básicos como casa, saneamento ou até comida, encaramos como privilégios. Enquanto isso, o direito à terra, por exemplo, foi a pedra de toque da colonização dos Estados Unidos.
Mas o desenvolvimento do nosso país depende com urgência de uma revisão cultural da forma em que compreendemos, sustentamos e expandimos o sistema capitalista em nosso território.
O sistema capitalista possui três pontas : capital, produção e consumo.
Sem uma delas, ele não flui, emperra.
A realidade do país nesse fim de 2014 se difere de toda a nossa tradição e história. Nós agora formamos uma massa de consumo interno com imensa relevância, e sua ascenção serviu como uma das alavancas para o crescimento da economia mundial na última década. Longe estão os dias em que aquilo que aqui se extraia ou produzia era dedicado quase que exclusivamente a moradores de outros países.
É uma mudança que vem gerando impactos profundos por todo o sistema. Para os detentores do grande capital, prejudica um modelo de negócios consolidado já na época do Brasil-colônia, em seu esquema arcaico de investir em um país de matéria-prima e mão de obra barata para multiplicar fortunas inteiras à partir do trânsito de produtos para os mercados consumidores de países com massa de consumo. Desta forma, garantindo lucros gigantescos e imediatos com o grande volume de vendas de unidades à preço de banana.
Pense em um produto qualquer. Em um país com alta demanda de consumo, com uma magem de lucro de R$ 20 ele poderá terminar o dia rendendo mais do que em um país sem demanda em que custe R$ 100.
Isso também ajuda a ilustrar um fenômeno contra-intuitivo que ocorre na economia: em países ricos, paga-se menos pela aquisição de produtos, e não o contrário.
De onde veio a massa de consumo do nosso país?
Para desenvolver uma massa de consumo, o Governo Federal do Brasil precisou retirar o foco até então concentrado inteiramente na produção, e reposicioná-lo para o consumo. Isso foi feito através das políticas de inclusão social redistributivas. Nunca se tratou de “receber dinheiro sem trabalhar”, mas sim de impulsionar o consumo e criar demanda produtiva, gerando empregos e desenvolvendo a economia.
É uma teoria extremamente básica, e foi com ela que os EUA superaram a grande depressão dos anos 30 e a Europa pôde ser reconstruída depois da II Guerra Mundial. Não se trata de genialidade ou salvação mágica da economia, mas a simples instauração de um sistema consagrado pela social-democracia mundial antes desta ser engolida pelo neoliberalismo. Mas aí já estamos entrando em outro campo.
O fato é que a massa de consumo brasileira hoje continua repetindo os hábitos e costumes de uma era em que poucos tinham acesso à produtos industrializados. Com isso, artigos de luxo estão sendo consumidos como se fossem produtos básicos, e produtos básicos, virando artigos de luxo.
Assim, o iPhone custa muito caro no Brasil. O aparelho que a Apple comercializa como multifuncional e de luxo precisa ser distribuído de forma maciça em todos os seus pontos de venda, e mercados precisam ser priorizados. Ora, se o lucro de um aparelho em um ponto é o mesmo do que o de dez aparelhos em outro lugar, ela pode alcançar uma gama maior de consumidores levando mais para outros pólos.
Deixamos de ser um país da periferia do consumo para nos tornarmos um destino concorrente em um sistema que prioriza o volume de consumo ao lucro unitário. Mas ainda carregamos orgulho por sermos os únicos com um produto no bairro.
É por isso que é preciso nos engajarmos na consolidação do desenvolvimento dessa massa de consumo no Brasil. Precisamos nos livrar da visão de escassez como primordial para o consumo e, se não pudermos inventar um capitalismo solidário, que ele seja ao menos universal e comunitário. Se não fizermos isso, ficaremos restritos ao nosso pequeno mundinho gourmet, sonhando com os Outlets de Miami e acordando com os tiros na calçada lá em baixo.
Há visões concorrentes ao desenvolvimentismo do país, e que questionam o modelo do consumo como sinal de progresso. Esse é um outro debate que deve ser feito, em vistas do preocupante panorama ambiental e dos perversos sub-produtos residuais da indústria. Mas um debate não pode anular o outro. Abdicar do desenvolvimento industrial para nosso país significa apenas esperar que outros povos dominem nossos recursos e potencialidades para dar cabo ao Planeta da sua forma e ritmo.