Conexão Perdida

Olá estranho. Desculpa te chamar assim, mas é exatamente como me sinto, mesmo tendo passado este último mês praticamente ao seu lado. Acho engraçado a forma como nos apaixonamos a distância, justamente quando você resolveu viajar para o Canadá. Até então, era só o menino do fundo da sala, que eu nunca havia conversado. Me lembro das madrugadas que passamos no chat, conversando sobre tantos assuntos e vivendo uma das relações mais gostosas que pude experimentar na vida. Por que ao seu lado me sinto mais distante hoje do que quando estávamos 9304 km separados? Não sei dizer.

Nesta madrugada, uma menina se jogou do 8º andar do prédio, deixou uma carta dizendo que estava desistindo desta ilusão que ela chamava de vida. Uma jovem de 25 anos que não suportou a traição do noivo por quem era apaixonada desde os 15. A traição, nem aconteceu de fato, ela encontrou no celular dele algumas mensagens trocadas com uma mulher mais nova, de outro estado. Era recente, nem haviam se encontrado, mas as palavras que ele dizia para ela soaram como uma faca no coração dela. Coisas que ela nunca teria ouvido dele. O corpo dela caiu em cima dos fios da internet, causando comoção geral. Não sei se a maioria dos moradores estava mais preocupada com a morte da pobre moça ou se estavam querendo saber quando a internet seria reestabelecida. Prioridade dos dias de hoje.

A morte dela estava atrapalhando a conexão das pessoas com relacionamentos tão ocos e artificiais quanto o nosso. Talvez por isso tive o estalo de te escrever, e me libertar desse sentimento de derrota e apatia. Sinto que poderia ficar um dia inteiro na cama morto, que você não perceberia. Não faria falta. Mas bastasse alguns segundos sem o sinal do wifi de casa e você prontamente procuraria saber o que há de errado. Quisera eu que essa preocupação se estendesse com a forma como nos conectamos. Sua indiferença me mata mais que um salto do 8º andar do prédio.

Tentei lembrar da última vez que tive um orgasmo. Provavelmente foi com alguma nude que me enviou antes de voltar. Porque aqui, nesta cama, nossos corpos nunca se encaixaram. Não no sentido físico, porque transamos muitas vezes. Mas eu nunca me senti desejado por você. Nunca senti que você tinha por mim o mesmo prazer que eu tinha (ou queria ter) por você. Foi gostoso ser seu boneco inflável por uns tempos, me dando a gana de querer te conquistar cada dia mais. Só que cansei. Cansei porque malho todos os dias da semana pra estar com o corpo dos garotos que você fica curtindo no instagram. Cansei porque todos os livros que li para ter assunto com você foram em vão, já que você prefere discutir isso com seus amigos do Canadá pelo facetime. Cansei porque todos os filmes que tentei assistir ao seu lado passaram despercebidos, enquanto você dividia a atenção entre a tv e o seu whatsapp. Cansei porque sempre pedi pra você sair pra caminhar comigo e você nunca quis, mas bastou sair o Pokemón Go e você andou quase 10km em um só dia pela vizinhança. Cansei porque não sou seu celular e não posso oferecer o entretenimento que você se acostumou.

A minha carta de alforria é pra ver se você tira os olhos dessa tela e descobre que exitem olhos para ser olhado. É pra descobrir que a minha pele é tão touch screen quanto esse seu modelo de última geração. É pra dizer que eu não tenho como processar esse seu jeito sem me sentir uma lataria. É pra dizer que minha memória está lotada dessa sua insensatez. É pra dizer que as cores da minha resolução estão cada vez mais pálidas, pela sombra que você trouxe pro meu apartamento. Poderia ter dito tudo isso pessoalmente, mas acho que você não escutaria. Preferi deixar assim, em uma mensagem de email, pra deixar registrada a notificação na sua caixa e, quem sabe assim, você note que tem alguma coisa errada.

Não, eu não quero me sentir o último lançamento da Apple, eu só queria o mínimo de atenção. Em breve, você será apenas mais um contato perdido na minha agenda, um amigo que só vou lembrar quando o Facebook avisar que está fazendo aniversário. Mas por enquanto, a dor é crônica. Estou desfazendo nossa relação pra evitar que a imagem que você tem de mim defina quem eu vejo no espelho. Posso perder meu roteador, meu sinal de 4g, mas nunca vou me desconectar das coisas que acredito. E eu acredito em mim. Eu sou mais que um dado perdido na nuvem. Você pode não ter percebido, mas eu sou real e quando seu celular apitar com essa mensagem, talvez você se toque.

One clap, two clap, three clap, forty?

By clapping more or less, you can signal to us which stories really stand out.