Carta aberta em nome do Orgulho

O dia de Parada do Orgulho LGBT aqui na minha cidade aconteceu em uma semana marcada de fortes emoções e reviravoltas em minha vida.

No fim de semana que antecedeu, estava em uma festa, rolou umas bads e eu apertei o foda-se e cai de boca no corotinho. Cheguei em casa beudo, cai no quarto a hora que fui tirar a calça, bati as costas na porta, minha cachorra assustou e me mordeu, enfim.. um regáço. Minha mãe acordou ~óbvio~ e me perguntou o que tinha acontecido. Na hora não consegui falar nada e num surto doido, eu, caprica coraçãozinho gelado, comecei a chorar descontroladamente no colo dela. Ela pedia pelo amor de Deus pra dizer o que tinha acontecido, mas eu não conseguia falar nada. Só queria ficar alí.

No outro dia, minha ressaca moral me fez repensar muita coisa em minha vida. Antes de me descobrir, namorei duas meninas. Foram relacionamentos intensos onde pude descobrir muita coisa e amadurecer esta decisão e procurar aquilo que me faria plenamente feliz. Tenho 31 anos e sempre pensei que iria me assumir para minha mãe quando tivesse encontrado a sorte de um amor tranquilo com sabor de fruta mordida, como diz o Cazuza. Mas, as coisas não aconteceram assim. Na noite do mesmo dia, escrevi uma carta pra ela tirando o peso que carregava há algum tempo. Eu chamei ela no quarto, sentei do lado e entreguei. Na carta, eu disse que sabia que não era algo que uma mãe gostaria de ouvir, mas que eu era GAY. Todo mundo fala que mãe sempre sabe das coisas, mas eu senti que ela chocou um pouco, pois deu uma respirada funda quando leu esta parte e eu não tinha noção de qual seria a reação dela a partir dali. Bastou mais duas linhas pra ela soltar uma mão da carta e pegar na minha. Assim foi… ela leu a carta toda segurando na minha mão com aquela ternura que só mãe tem. Na carta eu disse que não gostaria de ser uma pessoa frustrada, namorando uma menina e fazendo ela infeliz ou um cara que tem um casamento de aparência e sai com homens escondido. Disse que durante muito tempo me senti culpado por isso, sobretudo com Deus, por ter uma formação religiosa muito forte e muitas vezes colocar Ele no papel de um carrasco acusador e esquecer todo o amor incondicional que é capaz de ter. Disse que tive medo de um dia acontecer algo e sei lá, eu morresse, ela nunca teria a oportunidade de me conhecer de verdade. Também falei que tive receio de não ser um bom exemplo para minha sobrinha, mas fiquei feliz quando minha irmã, que já sabia que eu era gay, me convidou para ser o padrinho dela. Por fim, disse que a coisa que mais temia era perder esse amor dela, que me ajuda a ser forte e é o maior exemplo de amor e doação que já vi na vida.
Ela terminou a carta, me abraçou e disse que isso não mudaria nada, que eu seria pra sempre o filho dela. Pediu pra eu tomar cuidado e que tem medo dos comentários venenosos das pessoas, porque assiste no trabalho dela uma marcação com um rapaz que é gay. Falou que sonhava sim que eu tivesse uma família tradicional e desse a ela um ~Rafinha~ pra ela cuidar. Depois, ela ficou repetindo te amo, te amo, te amo. E só fez um pedido: pra eu não sair de casa por isso. Nessa hora eu vi a sorte que tenho de ter uma pessoa que poderia me expulsar de casa, mas pede justamente o contrário. Minha irmã estava viajando quando isto aconteceu, e quando contei pra ela, ela me mandou uma mensagem que só estou compartilhando porque acredito que muitas pessoas daqui mereciam ouvir/ler a mesma coisa. É triste ver pessoas que não podem fazer o mesmo que fiz, porque não tem o apoio da família. Pessoas que convivo e que tem tantos motivos pra orgulhar os pais, mas sentem medo deste detalhe tão pequeno, manchar todas as coisas boas que já fez na vida. Pra dividir um pouco desse amor, as palavras dela:

“Isso tudo acontecendo e eu aqui tão longe. Eu queria abraçar você forte. Muito forte. Te dizer o quão orgulhosa sou por ser sua irmã e amiga. Eu tenho certeza que a Melina vai sentir por você um amor ainda maior do que eu sinto. Sou feliz eu sou por você ser referência de gente do bem pra ela. Eu jamais vou permitir que você se sinta diminuindo ou menos amado por isso. Quando você me escreveu aquela carta abrindo sua alma eu por muitas vezes briguei com Deus... comigo mesma e com você ... não por suas escolhas ou preferências mas por esse mundo tão cheio de mal... por você e sentir menor menos que outras pessoas por se sentir anormal ou não parte de algo. Queria que por um instante pudesse se enxergar por meus olhos para poder mensurar o cara incrível que você é. Ninguém merece migalha de amor. Você é merecedor de toda felicidade que é capaz de conquistar. Queria poder matar seus leões por você… Poder vestir minha armadura e enfrentar todas as tuas guerras. O quanto me sinto impotente por não ser capaz de afastar os teus medos e fantasmas. Eu te amo tanto que só a Melina é capaz que vencer tal amor. Só quero que saiba que tenho orgulho demais de você. E que não vou permitir que você se sinta menos que ninguém. Se um dia você quiser ter um Rafinha. .. Quando encontrar o cara pra dividir sua vida eu vou amar ser barriga de aluguel. Deus sabe de tudo o tempo todo. Confie e fique mais próximo dele. É só isso que te peço. Te amo muito.”

Bom, é isso. Posso me arrepender por estar expondo tanto assim, posso. Mas eu acordei e separei algumas músicas pra tocar no trio da Parada e percebi que estamos vivendo uma fase muito importante nesta luta contra o preconceito e a homofobia. A palavra ORGULHO teve um peso imenso nessa Parada porque ela marca um sentimento de quem quer viver a vida de cabeça erguida e ser feliz. É como diz a música do Johnny Hooker:


🎵 Ninguém vai poder querer nos dizer como amar...
Um novo tempo há de vencer
Pra que a gente possa florescer
E babe amar, amar sem temer. 🎵


Vamo ser viado pra sempre. <3

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