A missão.

Rafael Maia
Aug 31, 2018 · 3 min read

Cansado de minha fidelidade ao fracasso em todas as vezes que tentei colocar algumas ideias no papel, resolvi tratar o assunto à ferro e fogo. Estava decidido. Desta vez, conseguiria furar bloqueios, romper padrões e debochar da maneira mediúnica que psicografava meus parcos escritos. Desprezei o medo e me matriculei num workshop com um autor de talento reconhecido, de quem gosto muito.

Estava empolgado. Saí do primeiro encontro andando pela Av.São Luis com um brilho nos olhos de calouro de faculdade. A avenida, que sempre achei barulhenta, ganhou certo romantismo. Os prédios descobriam novas cores e curvas. As pessoas caminhando pareciam que ali estavam a contribuir com o lirismo na minha cabeça. Me senti bem vestido, mais que confortável. Eu flutuava. Era um drone num vôo rasante que subitamente parava no ar. E olhava para um poste de luz como um beija flor encara um girassol. Todo aquele momento lisérgico foi intensificado quando em casa, de frente para o computador, preparei o mise en scene : xícara de café, uma garrafa de Carmenére que trouxe do Chile, o abajur que meu avô usava para trabalhar suas fotos, lápis e papel. Apesar da moleza tecnológica, ainda não consegui prescindir do grafite e da folhinha branca.

Não posso dizer que foi uma surpresa mas, ao preparar o ritual, ao me cercar de uma atmosfera propícia para o exercício, invoquei, involuntariamente, a entidade temida por todo escriba: o “Branco”. Nada vinha à cabeça. Minha mente foi para a quinta dimensão. Se me perguntassem meu nome do meio, não saberia responder. O trauma gritava. A vergonha de falhar causava um bolo na garganta. Sentia minhas mãos geladas. Corria uma gota de suor atrás da orelha e posso jurar que no meu silêncio ouvi mais alguns pelos brancos nascerem na barba. Achei tudo aquilo muito ridículo e decidi deitar para descansar a mente. Quem sabe se, ao dormir, as idéias poderiam se encaixar de forma mais clara. Terminei meu papo com Dionísio e apelei à Morfeu que me desse uma forcinha com seu cálido beijo noturno, para que na manhã seguinte, de cuca fresca, pudesse continuar minha missão.

Se acordado não tinha controle das sensações, foi cair no sono para que elas se materializassem na minha mente. No meu transe, tentava terminar uma crônica antiga, mas era interrompido frequentemente. Ouvia minha mãe chamando para o almoço — sob ameaça de violência física , coisa que nunca sofri. A campainha da casa tocava, não o estrondo de sempre, mas alguma música irritante, um sertanejo-pancadão-universitário-sofrência que me fazia levantar da escrivaninha para desligar a chave geral. Ao voltar da porta, reparei que havia chovido em cima das folhas e o computador não estava mais lá. De repente, uma ventania jogou meus pés para o teto enquanto agarrava-me a cadeira num esforço patético para me manter ali, firme no dever. Num momento de lucidez senti orgulho da minha devoção cabodaciolana. Glorianossosenhorjesuscristo. Já havia conseguido voltar ao chão, e me escondi em baixo da escrivaninha, com uma folha de papel dentro das calças e o lápis em riste. Foi quando ouvi, vindo de longe, um barulho que a princípio parecia o do filtro de barro pingando umas gotinhas na pia de mármore. O barulho aos poucos foi se intensificando e pensei que o filtro não poderia pingar água com tanta força. Só quando estiquei o pescoço e virei a cabeça, vi a cara do meu professor transmutado em uma coruja, de pé na cabeceira da cama, observando a vara de javalis que passava me atropelando e carregando pra fora do quarto. Era o fim, pelo menos naquela noite, das minhas pretensões literárias. Ao contrário do que previa, acordei com uma dor de cabeça dos diabos, exausto, e sem nenhuma idéia, além do sonho sem sentido. Observei a garrafa de vinho vazia. Não deveria ter queimado meus cartuchos com dois deuses em uma tarefa tão mundana. Eles têm mais o que fazer. Na próxima noite, vou deixar a crônica de lado e sair por aí só com Dionísio atrás de relações não espirituais com as filhas do belo sexo.

    Rafael Maia

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    Actor and pretense chronicler.

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