Restaurante & Bar Iolanda

Assim como estão os passarinhos em comunhão com as árvores estava Dona Iolanda em harmonia ao seu boteco. “Restaurante & Bar”, ela acrescentaria, ao se referir a baiúca que ostentava o seu nome. “Iolanda Com “I““ comprovado em seu castigado passaporte português. O imóvel ficava num ponto valorizado dos Jardins mas abraçava toda a sorte de gente. Percorriam aquela esquina vendedores, empresários, funcionários das obras do metrô e uma súcia de paus-d’água que se deliciavam com o PF bom, bonito e barato de Dona Iolanda, acompanhado de uma cervejinha gelada. Era um lugar democrático.
Éramos vizinhos de prédio. Soube pelo zelador, o informado Raimundo, que a lusitana descascava um abacaxi. Seu filho recebeu uma oferta tentadora, “irrecusável”, para vender o negócio. O Restaurante & Bar Iolanda seria posto à baixo para dar espaço a um novo empreendimento comercial. A portuguesa viu-se dividida entre a paixão pelo botequim e a iminência de uma aposentadoria confortável. Era viúva, os filhos já adultos, não haviam amarras. Quem sabe pudesse visitar a Lisboa de onde saiu jovem e também confusa por alternar medo e esperança. Estaria “livre para fazer o que quisesse da vida”, considerou o filho. Palavras transmitidas pelo atento Raimundo. Percebi certa apreensão em seu rosto. Não por acaso estava também preocupado com o destino do “Iolanda”, que considerava sua segunda casa.
Ao cabo, decidiram vender o consagrado. O alerta Raimundo nos interfonou convidando a contemplar a implosão. Em segundos, o antigo telhado romano de cerâmica beijou o chão. A poeira ascendia levando os risos e lágrimas da gente que ali passou. Numa caçamba de entulho iam amontoados os restos do medo e da esperança de Dona Iolanda, em direção a algum terreno baldio.
Aquela esquina nunca se recuperou da cirurgia. É um ligamento remendado. Mantém-se de pé sem vigor nem elasticidade. O Restaurante e Bar Iolanda cintilava, resplandecia até outras quadras. Era uma sereia sedutora de marujos sedentos. Tinha personalidade. Havia caráter naquela encruzilhada. Hoje, há só uma loja de biquinis, encravada na esquina rica de uma cidade sem praia.
Dona Iolanda, achando desnecessária a sua presença por ali depois de vender a alma ao diabo, ou por não saber o que fazer com tanta liberdade, entregou-se a indolência de sua cadeira de balanço. Seu filho, uma semana após a implosão do bar, a encontrou com um cigarro entre os dedos o qual pendia uma cinza parabólica. Cigarro que ela acendeu, “mas nem chegou a fumar” como me disse o vigilante Raimundo.