Por que pedi demissão de um emprego público para empreender

Escrevi esse texto há mais de 2 anos e é bom relembrar os motivos, decisões e analisar que olhando em retrospecto, sempre existem grandes divisores de água na sua trajetória de vida…


Em Setembro de 2013, a quase um ano e meio atrás, eu pedi demissão dos meus 6 anos de estável emprego numa das maiores organizações públicas de TI do mundo, e muitas pessoas ainda me perguntam por que tomei esta decisão. Tentar dar uma resposta simples ou rápida sempre gera reações como “só por causa disso?”, “todo mundo lida com isso.” ou “eu conseguiria conviver com isso…”.

Na prática não foi uma decisão fácil, tão pouco tomada por impulso. Tratou-se de um longo processo, que durou mais de 3 anos, em que se somaram diversos eventos e elementos, culminando numa das decisões mais importantes que já tomei em minha vida, e que vou relatar aqui.

O início do processo

Olhando para trás é interessante perceber que já compartilhei aqui algumas das principais etapas deste processo, que começou em Agosto de 2010 quando fui ao evento Dev In Rio. Na época, escrevi o seguinte relato: O que vi no Dev In Rio 2010: Rebeldia!

Lá conheci pessoas fantásticas como o Vinicius Teles, Henrique Bastos, Rafael Lima, Sylvestre Mergulhão, Juan Bernabó e muitos outros. Ter sentido a energia e empolgação que literalmente emanava dos poros deles foi, definitivamente, um divisor de águas para mim.

O primeiro passo

As experiências que tive naquele evento foram tão profundas, e a minha inquietação acumulada era tão grande, que 4 meses depois eu dei o meu primeiro passo: entreguei o cargo gerencial que eu possuia. Tambem compartilhei aqui, em um post bastante extenso: Por que abri mão de um cargo de chefia em uma empresa pública.

Naquele relato descrevi de forma detalhada (e cheia de emoção) todo o histórico que vivenciei, bem como os motivos que me levaram a tomar aquela decisão:

  • Influência negativa da Política no andamento dos projetos, gerando retrabalho, frustrações e alto esforço de justificativas em cadeia;
  • Lentidão e burocracia exageradas, impedindo que os que querem ser produtivos, consigam ser;
  • Síndrome do Funcionário Público, ou “Cultura da Não Melhoria Contínua”;
  • Ações inócuas do corpo gerencial (eu incluso), em que todos fingiam que acreditavam que elas iriam funcionar;
  • Sensação de “esmagamento” por ser a média gerência, em que você não atende expectativas dos funcionários nem da alta gestão;
  • Ciclo vicioso interminável de problemas e falta de tempo, impedindo que alguma melhoria efetiva seja feita;
  • Intolerância à falhas e experimentações, fazendo com que todos se mantenham nos mesmos lugares, sempre;

Se você tiver curiosidade para saber os detalhes destes itens, as reações que enfrentei ao sair do cargo, bem como a repercusão que houve nos quase 70 comentários, sugiro você ir lá conferir. :)

Os passos seguintes

Após a saída do cargo eu queria apenas voltar a ser um analista, abaixar a minha cabeça, bater o meu cartão e fazer coisas legais fora da empresa. Me juntei ao Grupo LinguÁgil, ajudei na organização de eventos, fui à diversos eventos nacionais, lí dezenas de livros, palestrei bastante fiz inúmeros cursos presenciais e on-line, abri um curso de Cultura Ágil e conheci pessoas fantásticas. Foi uma evolução intensa, e bastante significativa, para a minha carreira.

Felizmente, durante esta nova fase, pude estar ao lado de excelentes colegas de trabalho, que toparam construir um barco para navegar em mudanças culturais profundas dentro do Governo Federal. Compartilhei aqui também, em Novembro de 2012, os inúmeros feitos que o melhor time com o qual já trabalhei realizou, no post e slides: Semando uma cultura ágil.

Lá falei dos inúmeros desafios que enfrentamos, diversos erros que cometemos e principais aprendizados e sucessos que tivemos. Fico muito feliz em saber de antigos colegas que as sementes que plantamos anos atrás hoje estão germinando de forma aparentemente sustentável.

Os mesmos motivos novamente

Confesso que eu estava muito empolgado com o que estávamos fazendo na época. Eu me sentia dentro de uma startup, dentro do Governo. Estávamos colhendo resultados expressivos: indicadores de produtividade e qualidade muito melhores do que o restante da empresa, satisfação do cliente nas alturas, com muito mais felicidade e empolgação do time. Parecia um sonho.

Acontece que muito suor e sangue estava sendo derramado para conseguirmos estas coisas. Apesar dos excelentes resultados, o Sistema numa grande empresa é muito complexo, e faz de tudo para voltar ao estado anterior. Política, ciclos viciosos, disputas de egos, rivalidade entre áreas, inimigos, e mais Política, faziam com que a cada 10 passos para frente, voltássemos 9 para trás (quando não 11).

A cada nova grande barreira que era colocada à nossa frente, eu ficava mais cansado. A cada novo retrocesso que nos era imposto, eu ficava mais frustrado. Por mais que você consiga hackear ou contornar o Sistema, ele vai minando as suas forças, pouco a pouco. Nós estávamos fazendo Ágil de Guerrilha, e numa ação deste tipo tudo se resume à sua capacidade de resistir. A quanta energia você tem para continuar resistindo. E, definitivamente, minha energia estava se esgotando.

Empreendendo projetos paralelos

Em paralelo à tudo isto eu estava tocando os meus projetos pessoais. Foram 4 anos de experimentos, tentativas, fracassos e aprendizandos. Produtos, serviços, sociedades, editais, outras sociedades, outros produtos… digitais ou não: o importante para mim era aprender o mais rápido possível, a maior quantidade de coisas possíveis.

Em Janeiro de 2013 comecei um novo projeto, pautado nos diversos aprendizados que tive anteriormente: a Felloway, com o produto MixPrintPaint. Estávamos realmente muito bem: validamos diversas hipóteses, cometemos novos erros e aprendemos bastante. Enquanto a minha energia no emprego público se esgotava, na Felloway e outros empreendimentos, ela só aumentava.

Assumindo riscos calculados

Para as pessoas mais próximas à mim, como minha esposa e meus melhores amigos, pedir demissão era uma questão de tempo. Os retrocessos e frustrações eram cada vez mais recorrentes e a energia negativa que algumas pessoas depositavam nas ações que fazíamos eram cada vez maiores. Era notório que eu não suportaria aquilo por muitos anos. Era notório que eu não estava feliz.

Pedir demissão de um emprego público, ainda mais para mim, que segui o padrão estabelecido esperado para uma pessoa parte da sociedade (fazer faculdade, casar, comprar carro, apartamento, ter filho, etc) significava um grande risco e gerava inúmeros medos: “o que as pessoas vão pensar?“, “e se eu não conseguir me re-colocar no mercado?”, “e se o dinheiro acabar?”, “o que será do meu casamento?”, “e os impactos disto tudo ao meu filho?”.

Neste contexto construi pouco a pouco o caminho que me levaria à decisão final. Investi na minha carreira, me atualizei profissionalmente e me organizei financeiramente para viver com menos do que ganhava. Além disto, ter (e cultivar) uma reserva financeira que garantiria mais segurança familiar foi fundamental. Ou seja: desde o primeiro passo em 2010, quando abri mão do cargo gerencial (e do seu bom salário), eu estava assumindo progressivamente riscos calculados.

O passo final

Em Junho de 2013 fui ao Agile Brazil e compartilhei aqui o meu relato de como foi o evento: O que encontrei no Agile Brazil 2013: o #IntraAgileBR. Foi indo às suas diversas edições que pude interagir com pessoas que agreram (e ainda agregam) muito à minha carreira e forma de pensar, como o Fabrício Buzeto, André Faria, Daniel Wildt, Renato Willi, Matheus Haddad, Manoel Pimentel, Alexandre Freire e muitos outros.

Assim como no Dev in Rio três anos antes, as experiências que tive no Agile Brazil mexeream profundamente comigo. Algumas das conversas que tive com o Henrique Bastos, Rafael Lima e Sylvestre Mergulhão durante o evento foram tão cruciais para mim, que, apenas 3 meses depois eu iria dar o passo final.

A famosa frase “sorte é estar preparado para a oportunidade quando ela aparece” não poderia ser mais verdade, e o excelente texto do Camilo Teles retrata muito bem isto. Em um dado momento o universo conspirou a meu favor e surgiu a oportunidade de transformar a Felloway na HE:mobile em conjunto com os fundadores da HE:labs. Para tanto eu deveria me dedicar 100% junto aos meus outros dois sócios, Roberto Morais e Raphael Ozawa, para criarmos a melhor empresa de desenvolvimento mobile do Brasil. :)

Ou seja, eu deveria abandonar a estabilidade, segurança e o bom salário do meu emprego público.

Foi aí, em Setembro de 2013, que finalmente pedi demissão para empreender. Foi neste momento, depois de mais de 3 anos de pequenos passos, que finalmente me dei a chance de ser mais feliz.


Hoje, anos depois, somos todos HE:labs! Unidos pelo propósito de ditar o estado da arte do desenvolvimento de produtos digitais no mundo, e só descansaremos quando todas as empresas estiverem efetivamente simplificando a vida dos seus clientes, por meio do Digital. E eu não poderia estar mais feliz com tudo isso! :)