O Fantasma do Abandono

Com um ano de idade, meus pais se divorciaram. Eu, minha irmã de seis anos, meu irmão de sete e minha mãe, ficamos em Brasília, enquanto meu pai foi morar em Manaus com a mulher que foi motivo da separação.
Não me lembro de nada desta época. Claro, eu era apenas um bebê. Sei que logo depois nos mudamos para Belo Horizonte, onde mora toda a família da minha mãe. Fomos morar na rua dos meus avós, que ajudaram muito minha mãe a passar por essa barra de criar três crianças sozinha.
Não foi um divórcio comum, daqueles em que o pai faz questão de participar, de ser presente, de ajudar na criação dos filhos.
Lembro da primeira vez que percebi que tinha alguma coisa fora do lugar. Foi em uma festa de dia dos pais na escola. Todos os meus colegas estavam sentados com seus pais em um campo de futebol de salão coberto. Piso verde de cimento. Confetes. Serpentinas. Cheiro de algodão doce. Música. Pareciam muito felizes. Quem foi comigo foi minha mãe. A única.
Mais ou menos na mesma época fomos, eu e meus irmãos, passar férias com meu pai, em Manaus. Não foi ele quem quis, foi minha mãe quem impôs essa rotina, fez disso uma obrigação. Ela ainda era nova, aproximadamente da idade que tenho agora, criando três filhos sozinha. Precisava de férias, de tempo para cuidar de si mesma.
Lembro destas férias. Casa grande com piscina. Gente estranha. Cheiro estranho. Chuva o tempo todo. Ar úmido. Eu devia ter três ou quatro anos. Passei as mãos sujas de manga na parede beje clara e levei um esporro da empregada. Fomos ao cinema ver King Kong. Não me lembro do meu pai na ocasião, do rosto dele, de nada dele. Talvez tenha apenas esquecido. Talvez seja porque, como fui descobrir posteriormente em outras férias que passamos juntos, ele nunca estava lá. Estava sempre trabalhando.
Depois disso virou rotina. Férias do meio e do final de ano eram com meu pai. Não era ruim, exceto pela saudade esmagadora que sentia ao me separar da minha querida mãe. Depois de Manaus meu pai se separou novamente e foi morar em São Luiz. Era legal. Tinha praia.
Meus irmãos cuidavam muito bem de mim. Eram muito carinhosos. Sinto saudade deste sentimento. Essas coisas são engraçadas; Se a gente se esforçar, fechar e apertar bem os olhos, é capaz de voltar um pouquinho no tempo, de sentir o aroma distante das coisas boas que sentimos no passado. Éramos muito unidos, meus irmãos e eu. Hoje não mais.
Íamos juntos à praia, nadávamos na piscina, víamos televisão a tarde toda quando estávamos entediados. Meu pai saía logo cedo para trabalhar. Voltava ao meio dia. Almoçava. Cochilava. Retornava ao trabalho. Ao final da tarde, chegava em casa. Lanchávamos juntos, depois ele via televisão, vidrado no telejornal. Falava pouco, depois dormia. Era assim sempre, vinte, trinta dias, exceto nos finais de semana, quando íamos à praia todos juntos. Às noites, deixava a gente escolher um restaurante. Eu sempre escolhia pizza.
Quando acabavam as férias voltávamos para Belo Horizonte e começava tudo de novo. Todo ano, no colégio, havia festa de dia dos pais. Ele nunca foi em nenhuma. Comecei a sentir vergonha da minha mãe ir comigo e a partir daí meu avô tomou seu lugar. Ele era um homem bravo, rígido, mas era um homem de família; era como se a palavra responsabilidade estivesse encarnado em formato de um homem forte, firme, de mãos calejadas e cabelos brancos. Responsabilidade; palavra forte. Quase tão forte quanto Verdade, a campeã.
Haviam também os aniversários. Já acordava pensando no bolo e nos presentes, que eram poucos naquela época. Talvez isso os tornasse ainda mais valiosos aos olhos de uma criança. Nestas datas especiais minha mãe me permitia dormir tarde. Ficava esperando meu pai ligar até pegar no sono, de pijama. Camisa e calça compridas com estampas de bolinhas coloridas. Ele nunca ligava. Com o tempo passei a não gostar de aniversários.
Também haviam os Natais.Toda a família reunida. Tios, tias, primos, famílias completas, sólidas, belas. Todo mundo feliz. Meu pai nunca estava lá. Às vezes enviava um dinheiro para comprarmos presentes, mas era raro. Tomei aversão.
Nestas datas sinto pânico. Dor de verdade. A expectativa de receber um pouco de afeto, de atenção, de cuidado, de alguém que de acordo com a ordem natural das coisas vivas deveria te amar, foi feita e desfeita tantas vezes que deixou uma ferida que até hoje não curou. A gente pensa que essas coisas passam com a idade…Ingenuidade.
A vida foi seguindo seu curso. Raramente meu pai vinha nos visitar. Pensando bem, na verdade nunca veio com este propósito. Reunião de negócios. Festa de parentes. Nós em segundo plano, sempre.
Também não pagava a pensão alimentícia. Quero dizer, às vezes pagava, às vezes não. As contas não esperam, no entanto. Meu avô, o Homem-Responsabilidade, vinha ao socorro. Era um homem com o qual sempre podíamos contar.
A esta altura meu pai havia formado outra família em São Luiz. Tiveram um filho, dez anos mais novo do que eu. Ganhava bem. Ostentava uma vida de alto padrão. Para nós sempre estava duro, quebrado, sem dinheiro.
Promessas? Mil. Só não cumpria. Nunca cumpriu.
Lembro de quando quis fazer intercâmbio. Escolhi o Canadá. Sempre fui estudioso, bom aluno. Merecia. Ele disse: Pode procurar.
Por meses pesquisei agências, cidades, orçamentos. Estudei. Fiz provas de Inglês. Muito bem meu filho, ele disse.
Um sonho de adolescente, que nunca se realizou. Sempre tem mais espaço na caixa de promessas quebradas, ao que parece, mas aperta…
Aperta.
Aos vinte e três me deu um carro. Um gol azul, usado, surrado. Carro de obra que sobrava em sua empresa. Ele e sua família em mansões, carros de luxo e viagens pelo mundo. Tenho o carro até hoje. Me identifico com ele. Surrado, machucado, duro, mas com caráter.
Caráter eu aprendi a ter. Sigo valores rígidos. Tenho responsabilidade. Muitas pessoas terminam copiando os erros de seus pais, ao invés de aprender com eles. Eu não. Nunca.
No entanto, tenho medo de ter filhos. Para os outros dou desculpa de que o mundo não está legal, que já tem muita gente, que não tenho vontade. É mentira. Tenho medo. Fico pensando se vale a pena trazer uma vida ao mundo se for para sofrer como eu sofri, como sofro.
É um estado permanente, como uma dor que está sempre presente e a gente vai se acostumando. O abandono, o descaso, a ausência e a indiferença parecem ter se infiltrado em meus poros e se alojado em meus músculos e ossos. Um aperto constante no peito.
Durmo e acordo pensando nisso.
Durmo e acordo pensando nisso.
Durmo e acordo pensando nisso.
O fantasma do abandono me assombra, de noite e de dia. Dia após dia. Todo dia. Puxei o lençol que o cobria, como em um desenho animado. Por debaixo era meu pai, indiferente, ausente, frio como um cadáver. Assustado, o encobri com o lençol novamente.
Como é difícil aceitar que a morte vem aos poucos, vestida como um amor que nunca chega, mesmo que você precise dele como precisa do ar, e faz com que a respiração do coração nunca seja plena, pois quem te trouxe ao mundo parece não ter capacidade de amar. Mesmo assim, o amo.
Gosto de viver, mas dói demais da conta.
