As noites com ela

Um clichê do cotidiano


Chego ao local meio ansioso. Estou atrasado. Não tenho certeza se você ainda estará lá. Passo pela porta e subo correndo a pequena escada que me leva ao salão. Olho em volta e te vejo no bar, me esperando com uma serenidade única de quem não se deixa abalar por casualidades da vida.

Não, pelo contrário. Você sabe que a vida lá fora é um playground de glutões. Uma trama dramática adulta que os homens construíram para justificar suas incertezas, seus anseios, suas falhas, sua necessidade de amparo e de romance. Você sabe que homens em ternos são como crianças em suas fantasias de super-heróis. Assim que tiram suas roupas, percebem que nunca tiveram super-poderes, apenas um desvio temporário de percepção da realidade, que quando cessa mostra um mundo ainda mais caótico e inconstante do que antes.

É por saber de tudo isso que você fica pacífica com meu atraso. Sabe que existe lá fora pouco mais que possa se comparar ao conforto que você me traz. Sua segurança me inebria e me envolve. Desejo você antes mesmo de te ver.

Aceno para o barman, que com um leve sorriso percebe que era eu quem você estava esperando. Coloco minha mão em seu corpo e sinto as curvas perfeitas com as quais você me brinda. Levo minha boca à sua e ganho um beijo efervescente de alguém que me quer pela noite toda. E um pouco além.

Te levo para um passeio até a varanda. Reparo como os homens que me veem com você lançam um olhar de inveja no ar. Por um momento, eles se lembram do quanto estão sós, e como seria bom ter alguém como você. Alguns sofrem sua dor em silêncio, outros entendem isso como um chamado à ação, e partem em busca de seu mais novo objetivo. Tamanha determinação poderia colocar um exército ao chão.

Olho para o céu limpo, cheio de estrelas nessa noite quente de primavera. Olho ao redor, as pessoas conversando, rindo, mãos em movimento, pernas que passeiam tranquilamente pelo lugar. Olho para mim e vejo como estou sereno, feliz, vivo. E percebo que esse meu estado de espírito vem todo de você. Como é bom te ter por perto — eu penso — e que saudades eu estava de você nessas parcas horas do dia em que estivemos distantes. Diria até que tinha saudades de você antes mesmo de te conhecer.

E então, no passar da noite, beijo após beijo sinto você se esvair. Você se entregou para mim, eu sei. E eu te consumi fervorosamente. Mas sua energia se foi, sua temperatura mudou, e minhas mãos parecem escorregar ao tocar o seu corpo. Sinais que tento ignorar, mas sua estridência tem apelo à minha atenção. E o que me corrói é que não, nunca mais será como antes.

Na ansiedade do momento, te deixo dizendo que já volto. Mas nós sabemos que não será assim. Não teria como ser. Talvez um dia você recupere aquilo tudo que vi em você. Talvez não. Talvez um dia alguém te encontre e possa saborear a mesma felicidade que você me proporcionou. Talvez não. O que não posso é aceitar que tenhamos que continuar assim, eu te carregando por aí como um peso em minha vida. Se ainda eu soubesse como te preencher. Mas não, sei que ainda sou um glutão imaturo, sugando o mundo sem nada a te oferecer.

Em meu caminho avisto novamente o bar. E novamente aceno para o barman e com um leve sorriso ele percebe o que aconteceu. Com sua experiência, ele já sabia o desfecho. Não sou o primeiro e não serei o último a passar por ali. A sofrer por ali. E ele permanece lá, sempre, só para nos servir.

Sem nenhuma palavra ele me apresenta a ela. Aquela que veio para te substituir. Para me fazer esquecer do que foi e pensar no que será. Coloco minha mão em seu corpo e sinto as curvas perfeitas com as quais ela me brinda. Levo minha boca à dela e ganho um beijo efervescente de alguém que me quer pela noite toda. E um pouco além.

Não. Agora eu sei. Não será pela noite toda. Nem um pouco além. Será pela noite enquanto ela durar. E o pouco além será, talvez, com uma outra que virá em seu lugar.

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