Destino
Saiu em busca de um destino. Já não sentia mais seu peso, nem o dos anos, nem o dos dias ou das horas. Estava só e agora sabia que sempre estivera. “Viagem sem volta.”, pensou. Tomara o trem da vida errado, numa estação à qual já não se podia mais voltar.
Entrou naquele lugar sem pensar. Talvez não devesse parar ali, mas de qualquer maneira, ali era para onde o acaso lhe trouxera depois de horas a caminhar sem direção. “Será isso a liberdade?”, perguntou-se. Passara o dia em rota errática, e ao final, qualquer lugar era de serventia, já que não havia mais para onde ir.
Olhou para os lados, sentou-se. Não se fez notar. Era alguém qualquer, vestindo uma roupa comum, de rosto idem. E sentia-se por um ínfimo momento feliz, sendo exatamente como todos os outros ali. “Talvez fosse a hora de voltar…”, era o que se dizia. Mas por quê? Ou melhor, para quê? Aniquilara sem dó nem piedade. Sem chance de argumentar, e o que quer que se argumentasse não faria sentido. E se fizesse, seria só mais do mesmo na coleção de lógicas desconexas e estéreis.
Alguém se aproximou e perguntou, “O que é que manda?”. Gostaria de ter dito que mandaria Deus e o mundo para o inferno, mas aquele não era, como sempre não havia sido, momento para explosões de frustração. Não se permitia explodir; ao contrário, deixava que tudo se colapsasse dentro de si, universo de desgostos. O mais difícil já fora feito com a única certeza que tivera em toda vida. “Tem guaraná?”, perguntou. Não se lembrava mais do tempo em que se dava ao luxo de tomar um simples guaraná. Esquecera o que era dar-se qualquer luxo. “Como pude me negar prazeres por tanto tempo?”, questionou-se. Negar-se era o que sempre fizera.
Enquanto esperava, olhava para a mesa ao lado. Casais. Também tivera seu par. Lembrava-se do encontro de amigos, da confraternização de fim de ano. Surpreendeu-se com o alvo na mira. Um olhar mais demorado, a dança do acasalamento em torno da mesa, perguntas bobas, resposta prolixamente vazias e de uma doçura ímpar. Então o toque, a descarga elétrica, o arrepio, o calafrio. O desejo. Depois o convite, a felicidade certa. “Acho que finalmente entendo o que é química.”, havia pensado. Nunca uma noite fora tão longa e tão curta, nem a festa dos corpos tão celebrada. Encontro de meias-luas. Não poderia adivinhar que uma era crescente, enquanto a outra minguante. Da lembrança se fez sentir uma dor no peito, pressão do sofrimento de anos a fio. “Ainda pulsa, inútil.”, concluiu.
Beijava-se, o casal. Saliva. Já não mais sentia a sua na boca seca. Nem a de mais ninguém. Entregara-se a quem decididamente acreditara ser o que sempre buscara. O ideal em carne, osso e gozo. Via-se. Espelhava-se. A pedra filosofal. E assim viveu de pedras, delas tirou o leite, delas se alimentou e nelas se amparou. Cada uma que lhe abriu uma ferida também foi consolo, pois sabia que das pedras sempre se tira um ensinamento. Sempre acreditara enxergar-se em sua alma gêmea, e por fim um dia recebeu o ensinamento final das pedras. O espelho se partiu.
Voltou a pessoa, já com a garrafa e o copo. Líquido derramado. Bolhas. Imaginou-se como uma delas. Percebeu-se incolor, sentindo seu interior vazio, mísera esfera que finalmente sobe à superfície e estoura. Foram bolhas desde o princípio, quando decidiram seguir o mesmo rumo. De mesmo volume, mas pesos diferentes; uma confiantemente cheia, a outra desesperadamente vazia. “Reles com todo o vácuo que tomou conta dentro de mim.”, concluiu. Agora entendia seu destino. Subira à superfície, só lhe faltava a explosão. E assim soube o que devia fazer.
Não pensou duas vezes. Da porta viu os vultos multicoloridos que corriam em direções opostas intermitentemente, todos seguindo seus destinos. E quaisquer que fossem todos lhe serviriam. Moveu-se sem vacilo algum. Havia naquele instante um desígnio, um sentido, um lugar onde chegar. Encontrou-se na plenitude de uma decisão que acreditou ser acertada. Correu no ritmo da pulsação que lhe colocou o coração na boca, entregou-se ao prazer de sentir o vento que lhe correu a pele, absorveu do sol que lhe queimou a face, dissolveu-se nos sons e deslizou através do espaço e do tempo. Lançou-se para dentro do fluxo veloz.
E então colidiu. Explodiu. Cessaram-se os sentidos.
Chegada.
