O Papel da Rede para a 3a geração do Ensino à Distância — Modelo Conectivista.

15 de março, 2016 | Rafael Pinho

"No contexto atual de evolução tecnológica dentro da sociedade e seus desdobramentos nas relações, torna praticamente infinito o volume de conteúdo gerado através da colaboração dos indivíduos. Por isso, a inteligência coletiva evolui em tempo real sem restrição ou limite" (Pinho, 2015).

Resumo:

A importância da rede no processo de aprendizagem se torna fundamental para a nova geração de jovens que busca o novo na educação.

A sociedade atravessa uma grande evolução em seu processo de aprendizagem por meio da inclusão da tecnologia. Processo que deixa de ter o professor como centro do conhecimento mas traz o aprendiz como centro do processo de aprendizagem.

Cresce a educação informal por conta da rede e o conhecimento deixa de ser apenas local (presente no indivíduo) mas passa a ser externo, disponível na própria rede.

A competência em buscar conteúdo com maior assertividade é de extrema importância para a rapidez em encontrar a informação com qualidade.

Os conhecimentos passam a ser perecíveis e ao mesmo tempo orgânico, exigindo um processo de atualização contínuo.

O conectivismo surge sobre a plataforma da rede como solução para agregar pessoas no processo contínuo de aprendizagem. Mas exigindo maior autonomia, engajamento por parte do aprendiz e clareza das regras do curso por parte da instituição de ensino para obtenção de melhores resultados por parte destes indivíduos.

A tecnologia e a rede que ao mesmo tempo suportam o conectivismo nesse processo de aprendizagem, passam a ser fundamentais na incorporação na formação e atualização de docentes, que nos dias de hoje são o maior gargalo do sistema educacional.

Abstract

The importance of network in the learning process becomes critical for the new generation of young people who search for new education.

The society is going through a major evolution in their learning process by including technology. Process that became the learner as the center of knowledge but no more the teacher during the learning process.

Growing informal education due to the network and knowledge ceases to be merely local (present in the individual) but becomes external, available in the network itself.

The competence to seek content with greater assertiveness is of utmost importance for quickly finding the information quality.

The knowledge become perishable and at the same time organic, requiring a continuous upgrade process.

Connectivism appears on the network platform as a solution to bring people together in the continuous process of learning. But demanding greater autonomy, engagement by the learner and clarity of the current rules by the educational institution to obtain better results from these individuals.

Technology and network at the same time support connectivism this learning process, become fundamental in incorporating the training and updating of teachers, which today are the biggest bottleneck in the education system.

PALAVRAS-CHAVE: ensino a distância; aprendizagem on-line; conectivismo; sociedade em rede; ensino informal.

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Introdução

O mundo conspira um novo modelo de educação. Modelo este, mais inclusivo, conectado, colaborativo e cada vez mais tecnológico.

As exigências das novas gerações sedentas por modelos educacionais disruptivos, colocam em cheque tudo que vimos de mais tradicional nas escolas e em universidades.

Essa revolução começou em 1990, com a criação da World Wide Web por Timothy John Berners-Lee com ajuda de Robert Cailliau, quando a internet entra no cenário global com grande protagonismo dentro da sociedade.

Sua influência sobre o comportamento nas relações humanas, a torna uma grande ferramenta aberta de alto impacto para as infinitas atividades exercidas pelas pessoas.

E não é diferente quando se trata de educação e sua aplicabilidade no processo de evolução da aprendizagem. Pessoas acessam a internet para buscar informações, tirar suas dúvidas e até mesmo consolidar determinado conhecimento.

A rede e seu valor para a sociedade

A comunicação evolui e se torna mais fluida com o suporte a internet. A rapidez em encontrar pessoas para se comunicar e construir relações em grupo, por meio de comunidades, é uma realidade. Isso é sociedade em rede.

O grande autor do livro Cibercultura, Pierre Levy, aborda com maestria as definições sobre ciberspaço e cibercultura e sua influência para a sociedade.

"O ciberespaço (que também chamarei de “rede”) é o novo meio de comunicação que surge da interconexão mundial dos computadores. O termo especifica não apenas a infra-estrutura material da comunicação digital, mas também o universo oceânico de informações que ela abriga, assim como os seres humanos que navegam e alimentam esse universo. Quanto ao neologismo “cibercultura”, especifica aqui o conjunto de técnicas (materiais e intelectuais), de práticas, de atitudes, de modos de pensamento e de valores que se desenvolvem juntamente com o crescimento do ciberespaço." (LÉVY, 1999, p.17).

A clareza que Levy aborda esse grande repositório de informações, que é a rede, com suas atualizações frequentes, feitas por pessoas que já tem como cultura o compartilhamento de informações, mostra o quão é infinito esse mundo de informações disponíveis em ambiente virtual.

Estão lá e disponíveis para qualquer pessoa acessar e buscar as informações para construção de conhecimento.

A rede e sua importância para a educação

Olhando para algumas das principais tendências da educação são destacadas a importância da educação informal para o processo de aprendizagem, a aprendizagem como forma orgânica e contínua, e o suporte de grupos e indivíduos como forma de construção conjunta do conhecimento.

Em uma passagem no livro, Aprendendo sempre: estratégias para sobreviver num mundo em permanente, Peter Vaill destaca como a aprendizagem se torna algo orgânico, fluido e presentes em todos os lugares.

“a aprendizagem deve ser um modo de ser — um conjunto usual de atitudes e ações que pessoas e grupos empregam para tentar se manter a par dos eventos surpreendentes, novos, confusos, perturbadores que aparecem sempre…” (Vaill, 1996, p.42).

A evolução no modelo de educação, só pode ser discutida por conta do ecossitema tecnológico desenvolvido e que está enrraigado à sociedade.

Siemens (2004), ressalta esta questão em uma passagem. “a tecnologia reorganizou o modo como vivemos, como nos comunicamos e como aprendemos”.

Fica clara a importância e a utilização da rede no processo de aprendizagem do indivíduo, sendo de extrema importância na construção do conhecimento , por meio de conteúdos disponíveis e de autoria de outros indivíduos.

Pode-se dizer que é um processo recorrente de co-criação de conhecimento.

O conectivismo e a rede

A evolução das gerações de ensino tem como modelo o indivíduo no centro da aprendizagem. O professor deixa de ter o papel de provedor do conhecimento e passa a ser um facilitador do processo educacional.

Isso se deve, além da evolução tecnológica, a busca pela independência e autonomia por parte dos jovens para a construção de sua aprendizagem. O sistema educacional, a cada ano que passa, vem deixando de ser linear e dando menos importância aos métodos cognitivos, aplicados desde os primórdios, e com isso, surge com força o desenvolvimento dos indivíduos por metodologias de co-criação.

Nesse contexto, o conectivismo passa a fazer parte dessa nova realidade de modelo educacional pautado no indivíduo como agente da busca pela informação, a rede como fonte de recursos que alimenta a busca do indivíduo e a curadoria como parte do processo do indivíduo que se apóia em diversos posicionamentos sobre o assunto para a construção de seu próprio conhecimento.

Siemens aborda o conhecimento formado e construído sobre determinado posicionamento de um indivíduo da seguinte forma:

"A tomada de decisão é, por si só, um processo de aprendizagem. Escolher o que aprender e o significado das informações que chegam é enxergar através das lentes de uma realidade em mudança. Apesar de haver uma resposta certa agora, ela pode ser errada amanhã devido a mudanças nas condições que cercam a informação e que afetam a decisão." (Siemens, 2004).

A competência em se manter atualizado e a habilidade em buscar as informações mais relevantes para a construção do conhecimento, tem grande relevância no processo de aprendizagem, onde as informações são cada vez mais perecíveis.

Outros princípios destacados por Siemens (2004), pode ser visto abaixo.

"• Aprendizagem e conhecimento apoiam-se na diversidade de opiniões.
• Aprendizagem é um processo de conectar nós especializados ou fontes de informação.
• Aprendizagem pode residir em dispositivos não humanos.
• A capacidade de saber mais é mais crítica do que aquilo que é conhecido atualmente.
• É necessário cultivar e manter conexões para facilitar a aprendizagem contínua.
• A habilidade de enxergar conexões entre áreas, idéias e conceitos é uma habilidade fundamental.
• Atualização (“currency” — conhecimento acurado e em dia) é a intenção de todas as atividades de aprendizagem conectivistas."(Siemens, 2004).

Em outro trecho, Siemens (2004) define o conectivismo da seguinte forma:

"Conectivismo é a integração de princípios explorados pelo caos, rede, e teorias da complexidade e auto-organização. A aprendizagem é um processo que ocorre dentro de ambientes nebulosos onde os elementos centrais estão em mudança — não inteiramente sob o controle das pessoas. A aprendizagem (definida como conhecimento acionável) pode residir fora de nós mesmos (dentro de uma organização ou base de dados), é focada em conectar conjuntos de informações especializados, Página 5 de 8 e as conexões que nos capacitam a aprender mais são mais importantes que nosso estado atual de conhecimento." (Siemens, 2004).

O destaque dado à falta de linearidade sobre o modelo de aprendizado, a importância da rede no processo de educação e a baixa vida útil de determinadas informações, reforça a importância em saber buscar esse conhecimento que não estará disponível em sua memória, mas sim disponível em algum local na rede, comunidade ou repositório de informações externos.

A maturidade e o conectivismo

Moore (1993) destaca em seu artigo a questão sobre a relação entre autonomia do indivíduo e a frequência de diálogo e contato deste indivíduo com o professor.

"Uma vez que os alunos são atores de importância crucial na transação de ensino aprendizagem, a natureza do aluno — principalmente o potencial para assumir a responsabilidade de aprendizagem autônoma — pode ter um importante efeito sobre a distância transacional em qualquer programa educacional. Parece existir uma relação entre diálogo, estrutura e autonomia do aluno, pois quanto maior a estrutura e menor o diálogo em um programa, maior autonomia o aluno terá de exercer." (Moore, 1993).

Sobre esta abordagem feita por Moore (1993), mostra que o grau de maturidade, engajamento e autonomia do aluno está diretamente ligado à relação indivíduo e professor.

Quanto mais autônomo for o processo de aprendizagem mais clara deverão ser as regras do processo de formação para que não ocorra impacto no engajamento do indivíduo.

Desafios

Em uma sociedade conectada, onde o processo educacional é duramente questionado pela falta de efetividade e baixo engajamento por grande parte dos alunos, traz a tona a urgência na necessidade de mudança dos processos educacionais tradicionais.

Existe ainda um grande problema que potencializa essa questão, a falta de conhecimento por parte dos docentes na adaptação de um modelo educacional mais atualizado e aderente com as necessidades dessa nova sociedade tecnológica existente.

Muitos desses problemas estão ligados a não inclusão digital desses professores, a falta de atualização sobre novas metodologias de ensino e ainda, a questão do processo de formação desses professores não ter passado por uma reformulação, com objetivo de atualizar os modelos educacionais. O que gera desencontro entre o que a sociedade espera como solução e o que está sendo entregue por parte das instituições de ensino.

A resistência sobre a mudança de cultura no processo de formação dos docentes por parte das instituições de ensino, também acarreta o baixo comprometimento por parte desse público em praticar metodologias mais inovadoras.

Solução

Políticas públicas para estimular a melhoria do processo de aprendizagem na formação dos docentes.

Trabalho de gestão da mudança e co-criação desse modelo educacional novo, considerando todas as partes envolvidas como: docentes, alunos e instituições de ensino, com objetivo de engajar todos nesse processo de mudança para melhoria da educação.

Programas de formação de professores utilizando as metodologias inovadoras para que o docente tenha vivencia sobre aquela nova experiência ao qual o aluno estará inserido.

Conclusão

A evolução da tecnologia está diretamente correlacionada ao processo de aprendizagem. As pessoas estão mais autônomas para buscar seus conhecimentos graças a rede disponível com todo tipo de informação e das mais diversas qualidades possíveis.

O indivíduo como centro do processo de aprendizagem passa a ter um papel mais independente e que vai demandar maior conhecimento para buscar informações para compor seu conhecimento na rede.

O que vai importar cada vez mais não é o que você sabe sobre determinado conhecimento mas sim onde obtê-lo de forma mais rápida e atualizada.

A educação cada vez é mais fluida, orgânica e menos linear. A educação informal assume um papel importante no contexto educacional.

Os professores deixam de ser os "maestros" de sala de aula, onde passam o conteúdo para o aluno para se tornar um facilitador no processo de aprendizagem.

A rede assume seu grande papel de repositor de conteúdo infinito e seu acesso cresce vertiginosamente para obtenção de informações.

Problemas surgem em uma sociedade em que os jovens conectados são mais exigentes por uma educação mais inovadora. Por outro lado, os professores precisam muito do suporte da iniciativa privada e pública para ajudá-los nesse processo de atualização e desenvolvimento.

Existe um caminho grande a ser percorrido e que precisa ser priorizado desde já essa grande mudança no processo educacional. Só desta forma será possível ter melhorias no processo de ensino pensando nas próximas gerações.

Bibliografia

Lévy, P. Cibercultura. São Paulo: Editora 34, 1999.

Vaill, P. B., (1996). Learning as a Way of Being. San Francisco, CA, Jossey-Blass Inc.

Siemens, George (2004). Conectivismo: Uma teoria de Aprendizagem para a idade digital. Disponível em:
http://usuarios.upf.br/~teixeira/livros/conectivismo%5Bsiemens%5D.pdf. Acesso em 13/03/2016.

Moore, M. (1993) Theory of Transactional Distance. New York: Routledge, p. 23–25