O Terno lança ‘Melhor do que parece’ para zerar 2016

Assim como Elza Soares marcou o ano de 2015 com o disco “Mulher do Fim do Mundo”, a banda paulistana O Terno chegou com força para marcar 2016, com o lançamento do terceiro disco da carreira, “Melhor do que Parece”, no fim de agosto.

Com menos de 30 anos de idade cada, os músicos da banda estão deixando sua marca com um som contemporâneo, inspirado em orquestrações da bossa nova, tropicalismo e rock psicodélico das décadas de 1960 e 1970, uso de harpa e muita inventividade e experimentação.

Auto intitulados como “power-trio de canção-rocknroll-pop-experimental”, Tim Bernardes (guitarra e vocal), Guilherme D’Almeida (baixo) e Gabriel Basile (bateria) reinventam a novíssima música brasileira a cada disco. Primeiro com “66” (2012), depois com “O Terno” (2014) e agora com o “Melhor do que Parece”. Patrocinado pela Natura Musical, o trabalho contém doze faixas que transitam entre Nelson Cavaquinho, Alabama Shakes, Mac DeMarco e Rogério Duprat.

Em entrevista, por telefone, Tim Bernardes contou um pouco sobre influências, o novo ciclo da banda, shows e algumas maluquices mais.

Apesar de serem catalogados como banda de rock, vocês nunca se prenderam muito ao gênero, mas agora parece que foi desprendimento total. Quais as principais influências para esse disco?
Realmente os discos anteriores não são exclusivamente de rock e estão cada vez mais abertos. Acho que a gente não deixa as influências do rock, mas a gente vai expandindo para acrescentar mais coisas. Depende muito também de como as pessoas catalogam as coisas. Por exemplo, para mim, o “Sgt. Pepper’s” (disco “Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band, dos Beatles) é o disco de rock, mas há músicas ali que tem orquestra e voz, não é necessariamente uma banda com guitarra, baixo e bateria que faz o rock.Os gêneros e catalogações são meio furadas. A gente faz música do jeito que a gente quer, sem se preocupar com que gênero vai ser. O tema é livre. A questão da influência acaba ficando dissolvida, porque as canções não são todas de uma mesma época, têm composições desde a época do segundo disco até canções que eu terminei no estúdio. Mas uma coisa que talvez tenha em comum é a onda da Capitol e da Motown, dos anos 1960, um pop mais orquestrado, como Pet Sounds (Beach Boys) ou Mac DeMarco. Uma coisa que é maluca, mas, ao mesmo tempo, pop. Por ter sido lançado pela Natura Musical, nesse disco a gente conseguiu ficar mais tempo no estúdio e chamar parceiros, explorar com mais liberdade. Então, vai desde trabalhos do (Rogério) Duprat, até George Martin, ou mesmo bandas dos anos 1960, que tem orquestra com pop. Além de maluquices livres, que não são necessariamente referência, como o uso da harpa. A gente tinha a harpa no estúdio e resolveu dar uma pirada em cima.

Em entrevista ao Estadão, comenta que o disco é uma “virada de fase”. O que seria essa virada?
Acho que seria mais que uma virada de fase, é um retrato de uma fase da banda. As coisas andam muito em ciclo. Por mais que a gente vai andando para frente, existem ciclos da vibe da coisa. Existe um contraste entre o disco anterior (“O Terno”, 2014) e esse, no sentido do anterior ser mais lírico e cinzento e esse ser mais aberto, mais solar, de abrir e experimentar coisas novas.

Acho que o Tom Zé já influenciava vocês desde o começo, mas a parceria com ele nos últimos tempos deve ter influenciado mais ainda. O que esse disco tem de influências de Tom Zé?
Quando a gente trabalhou com o Tom Zé, ele dava muita liberdade da gente pegar as músicas dele e fazer o arranjo do jeito que a gente quisesse. Mesmo as composições que eu fiz com ele, eu fazia dentro do tema que ele sugeriu e ele só dava uma lapidada junto comigo. Eu acho que não tem uma influência direta do Tom Zé neste disco, estaria mais nele como um todo, na inventividade. Isso é o que eu mais admiro nele, está com quase 80 anos e não se acomodou, ele segue inventando.

Também em relação a influências, qual o papel que as loucuras de seu pai (Mauricio Pereira, dos “Mulheres Negras”) tem na sua carreira musical?
Eu tenho mais influências do modo de pensar do que de fato musical. Embora com pontos em comum, a gente ouve coisas bem diferentes. E teve um movimento meu de buscar diferenciar dele, justamente por ser filho. Mas uma coisa em comum que tenho com ele é escrever como se fala, mais simples.

Como costuma acontecer as composições na banda?
As composições do disco são minhas e eu componho cada uma de um jeito, cada uma sai de um jeito e eu componho sempre sozinho e depois vou mostrando para o Gabriel e para o Guilherme. Juntos a gente decide qual quer mexer e tocar e, a partir daí, é outro processo de arranjos e tal. Nesse disco teve uma coisa nova que foi compor músicas com letras menos mirabolantes e malucas, mas utilizar da simplicidade e fazer coisas tão boas quanto. Foi um desafio, mas casou com o clima do disco, por ter a simplicidade, mas a atração estar no todo.

A música “Minas Gerais” é quase que uma crônica de viagem. Como surgiu a letra? Existiu realmente essa viagem por Minas Gerais?
Existiu sim. Talvez ela seja uma compilação de muitas viagens. Inclusive a gente criou uma banda uma vez, em uma viagem para Diamantina, que eramos nós e o André Vac, do Charlie e os Marretas. A gente foi e falou com o pessoal do bar e foi muito doido, porque a gente fez sete shows sem nunca ter ensaiado antes. Minas Gerais e suas cidades históricas têm uma atmosfera muito mágica e aí vem o clima nostálgico.

Existe algum plano de tocar no interior do Paraná com a turnê desse disco novo?
A ideia é que, a cada disco, a gente consiga chegar em mais cidades que ainda não fomos. A gente tem essa necessidade de tocar por aí, até porque Londrina e Maringá são duas cidades que a gente vê bastante nas mídias sociais da banda, as pessoas chamando. Na primeira oportunidade, a gente vai correr para cima! Mas acho que desse disco não passa, acho que a gente vai chegar aí.

Qual a sensação de tocar em um festival como o Psicodália?
O Psicodália é um festival muito legal, porque ele tem a vibe boa da filosofia hippie, só que de uma maneira muito organizada. Não é “vamos tomar um doce e fazer qualquer coisa”, é muito focado para tudo dar certo. Eles entregam uma referência muito boa para quem vai lá passar os dias, a estrutura de som e palco é boa, parte prática de Van e tudo é impecável. Além do conceito e curadoria muito legais. Psicodália é um belo de um festival brasileiro.

Uma curiosidade: por que as capas de chuvas amarelas?
A primeira vez foi no Psicodália, inclusive. Estava chovendo muito e tinha um monte de gente com capa amarela e parecia o “Rock and Roll Circus”, dos Rolling Stones. A gente pediu umas capas para o pessoal da plateia e depois no Lollapalooza a gente se empolgou de descolar umas capas para tocar.

Muitos instrumentos foram usados nas gravações. Como vocês farão ao vivo?
Eu acho que tem a coisa de reproduzir o disco ou inventar arranjos novos. A gente está meio entre essas duas coisas, o Biel (baterista) dispara algumas gravações de orquestra no pad eletrônico dele e a gente toca em cima, mas sem engessar o show e dar jeito de ter a orquestração. A ideia é a gente inventar e dar jeito das músicas ficarem bacanas com nós três criando ideias ou utilizando recursos para soar como no disco.

POP-EXPERIMENTAIS. Guilherme, Tim e Gabriel são a cara da novíssima música brasileira. Foto: Divulgação

Entrevista publicada originalmente no jornal O Diário do Norte do Paraná, Maringá (PR), no dia 5 de setembro de 2016.