Adagas e aranhas

Um mundo em que pessoas mortas permanecessem mortas seria bom demais para ser verdade, pensava Jolan cada vez que partia em uma missão. Em seu íntimo, porém, ainda se agarrava a um tênue fio de esperança: reencontrar os pais uma vez mais.

O fantasma puro que a Tropa interrogou nos limites da cidade assim que desembarcou dos carroções não era um deles, infelizmente. Jolan não suportava a ideia de que os pais tivessem se tornado fantasmas corrompidos.

― Jolan, não olhe agora, mas o comandante está vindo para cá e parece ter os olhos fixos em você.

Desperto do transe costumeiro, Jolan ignorou a recomendação de Bavazu e fez contato visual com o único touro do mundo que andava sobre duas pernas, vestia armadura e empunhava uma espada do tamanho de uma porta.

― Jolan Calistra, o que faz aqui? ― perguntou o comandante imediatamente ao parar, de súbito, a poucos centímetros de distância.

Jolan achou que seria atropelado e pisoteado, mas a aura que emanava do inexorável comandante Druwain era por si só pressão suficiente para fazê-lo vacilar.

Ainda assim, momentos depois, após uma tentativa de abrir a boca e falar só para tornar a fechá-la sem articular palavra, conseguiu reunir coragem, recompor-se e perguntar de volta:

― O que quer dizer, senhor?

― Dei-lhe ordens explícitas para não participar desta missão. Ainda é um recruta novato, e já prevíamos que a situação aqui era grave.

Jolan estava genuinamente confuso. Falou a verdade.

― Pensei que fosse apenas uma licença que eu tinha o direito de recusar. Eu quero participar desta missão. De todas as missões. Julgo que tive bom desempenho nas anteriores e posso melhorar. Não sou só um novato inexperiente.

Talvez houvesse falado demais e revelado insolência demais, mas o que estava feito, estava feito.

Qual não foi sua surpresa ao perceber que quem vacilava agora era o comandante, emudecido, olhando-o de cima a baixo com um semblante insólito de incerteza e, mais absurdo ainda de cogitar, possivelmente de preocupação.

― Sei muito bem qual é a sua motivação ― disse por fim o comandante, num tom quase brando, irreconhecível ―, mas lembre-se de que ela é uma espada de dois gumes.

Rodou nos calcanhares, fazendo a capa esvoaçar, e retornou ao grupo formado pelo fantasma, membros veteranos da Tropa, o prefeito da cidade e alguns de seus auxiliares.

Bavazu pousou um braço no ombro de Jolan e sorriu seu sorriso manhoso.

― O velho tem razão, sabe? Às vezes tenho a impressão de que você não valoriza muito a única vida de carne e osso que tem.

Emiko pousou uma mão no outro ombro de Jolan e sorriu seu sorriso enternecido.

― Já eu compreendo sua angústia e o que está tentando fazer. Você sabe que também tive um passado difícil envolvendo fantasmas. A maioria de nós teve. Só não quero que se esqueça de quem está vivo. Estamos do seu lado.

Era a vez de Jolan sorrir seu próprio sorriso — quase imperceptível, demonstrando gratidão, mas também colorindo sua dor e insatisfação. As nódoas da culpa em sua alma o impulsionavam, e não se permitiria descansar enquanto não as lavasse.

Assim que convocou todos os caçadores a se reunirem, o comandante Druwain deu início ao briefing detalhado da missão.

― Um nicho ectoplásmico manifestou-se em um solar localizado no coração da floresta deste lado da cidade. Desde então não houve nenhum contato com a família que reside lá. Presume-se que tenham sido possuídos.

Sempre havia vítimas. Jamais chegavam a tempo.

O comandante voltou-se para o fantasma que pairava alguns centímetros acima do chão com uma sutil aura azul emanando da parte inferior de seu corpo branco. Era uma jovem que não devia ser mais velha do que Jolan, quando viva.

― Obrigado por sua cooperação. ― O comandante puxou a imensa espada da bainha atada às costas e a apoiou com a lâmina para baixo à sua frente por um momento, em respeito. ― Que você tenha uma passagem tranquila para o outro lado.

O comandante virou a espada para cima com as duas mãos e estendeu-a de forma que a ponta quase tocasse a testa do fantasma. Então, num movimento ágil, deu um passo à frente, dobrando o joelho, elevou a espada e desceu-a em uma longa curva.

Jolan prendeu a respiração e só expirou o ar quando a aura azul que o fantasma deixara se esvaiu completamente. Não conseguia se acostumar com aquilo nem deixar de pensar que era como matar uma pessoa pela segunda vez.

Era, apesar de tudo, um ato de clemência. Fantasmas puros podiam ser corrompidos a qualquer instante contra sua vontade, uma desgraça tanto para eles quanto para os mortais. Não pertenciam ao mundo dos vivos.

O comandante Druwain podia ser ranzinza e exigente quando lidava com seus caçadores, mas entendia de justiça e lisura quando a situação o exigia.

Era um homem vivido, de cabelo e barba branquíssimos, com força e disposição que não eram esperados de alguém com praticamente o quádruplo da idade de Jolan.

O jovem recruta respeitava-o, admirava-o e confiava-lhe a própria vida. Tinha a certeza de nunca ser traído.

― Jolan, se me permite perguntar… qual é exatamente a história de seus pais?

A caminhada pela floresta de abetos já durava vários minutos, e Bavazu não era o tipo de pessoa capaz de ficar mais que vários segundos sem papear. Criara-se em uma tribo longínqua de famílias grandes e barulhentas, dissera uma vez.

Jolan olhou para Emiko, que embora o olhasse de volta em silêncio, civilizada demais para exibir qualquer comportamento de cunho invasivo, parecia ter um quê de curiosidade nos olhos negros e amendoados.

― Eu sempre os admirei muito. Desde bem pequeno eu entendia o que faziam e queria ser como eles. Formavam uma dupla e tanto. E ainda tinham tempo para mim quando não estavam em uma missão.

“Eu ficava com minha avó, mas nunca tinha medo, porque tinha certeza de que voltariam. Só que houve um dia… um dia em que por anos desejei que eles não tivessem voltado.

“Abri os olhos no meio da noite, ouvindo minha avó gritar. O escuro do meu quarto havia dado lugar a um mundo de ectoplasma que escorria pelas paredes e ondulava pelo ar.

“Mas as aranhas… as aranhas por todos os lados eram o que mais me davam pavor. Nem sei como encontrei coragem para correr até a sala. Eu sabia que fantasmas corrompidos possuíam pessoas, é por isso que a Tropa existe, mas não sabia como acontecia.

“É compreensível que se poupe a uma criança de sete anos esses detalhes. E pela primeira vez, vi isso acontecer na minha frente.

“Uma coisa grotesca que mais parecia um monstro do que um fantasma como eu os imaginava sugava a alma de minha avó. Quando terminou, virou-se para mim, parecendo ainda mais sedenta.

“Tinha sido uma mulher, algum dia, mas na ocasião… era outra coisa. Mencionou uma vingança, mas não entendi nada. Lembro-me de meus pais chegando logo depois. Houve um confronto, algum diálogo, e eu só assistia, em transe.

“Mas quando tudo acabou, um som metálico me trouxe de volta à realidade. O fantasma sumia, a casa voltava ao normal, mas… as adagas de meus pais jaziam no chão, ao lado de seus corpos.”

Por mais de uma dezena de metros, só se ouviu o restolhar de folhas no chão fofo de terra da trilha e o leve ranger de botas conforme a Tropa avançava em caravana.

Quando Jolan pressentiu que Bavazu faria algum comentário, o comandante Druwain, à frente da companhia, ergueu o punho à altura da cabeça, um sinal para que os caçadores parassem.

Uma luz fraca e cinza-azulada penetrava na floresta pela abertura entre as árvores perto da qual o comandante se encontrava. Então ecoou um som.

Jolan concentrou-se na audição, como fora ensinado, e captou o que a princípio lhe parecia o sussurro da brisa florestal se intensificando, mas não — eram vozes, uma ululação coletiva peculiar a manifestações ectoplásmicas.

O comandante Druwain fez novos sinais com os dedos, enviando pequenos grupos de caçadores à área descoberta adiante, enquanto desembainhava a espada.

Jolan prosseguiu a meia corrida junto a Bavazu e Emiko, como de praxe, obedecendo às ordens gestuais. Suas mãos se fecharam em torno dos cabos das duas adagas presas às costas, cruzadas na altura do quadril.

Desembocaram em um amplo relvado a céu aberto onde a luz que haviam visto na floresta era suficientemente forte para transformar a noite em uma alvorada artificial que dispensava as lanternas que certos caçadores levavam.

Jolan deu mais alguns passos à frente pelo caminho de pedra que a trilha da floresta se tornara, detendo-se aos poucos, e fitou o solar.

A monstruosidade arquitetônica já era imponente e intimidadora por si só. Envolta por uma capa de aura ectoplásmica e emitindo sons fantasmagóricos, era uma indicação clara de que absolutamente ninguém deveria se aproximar.

Mas a Tropa dos Caçadores Prateados existia para isso.

Era a primeira vez que Jolan se deparava com uma manifestação ectoplásmica tão intensa, mas estava decidido a jamais fugir, jamais ficar parado, impotente, como uma criancinha, sem nada fazer outra vez.

― Jolan!

O grito sussurrado de Emiko o fez despertar de mais um de seus transes, e ele voltou a acompanhar os amigos pelo caminho de pedra, enquanto outros membros da Tropa se espalhavam pelo enorme jardim selvagem.

À medida que se acercavam do solar, marcas de habitação como flores ornamentais e estátuas angelicais tornavam-se mais presentes em ambos os lados do caminho.

― Não queria dizer nada, mas estou com um pressentimento muito ruim.

Vindo de Bavazu, era melhor que isso não tivesse sido dito mesmo. Em momento nenhum durante as missões passadas (ou na vida em geral) ele exibira a mais vaga sugestão de pessimismo.

Fantasmas acima!

O aviso veio de um dos caçadores mais próximos do solar, e prontamente os arqueiros e besteiros que faziam parte da companhia, incluindo Bavazu, voltaram as armas para o alto com um sincronismo que aparentava ser ensaiado.

Dos resíduos de emanação ectoplásmica proveniente do solar que permeavam o ar a mais de dez metros do chão, figuras com vulto humanoide transtornado acabavam de nascer.

Suas bocas semelhantes a buracos ovais expediam um som plangente.

Seus corpos de baixo nível ectoplásmico, voláteis como vapor, faziam-se e desfaziam-se com igual rapidez.

Seus olhos que coruscavam um terror vermelho ressuscitavam por um breve instante o medo da criança que ainda vivia dentro do caçador novato.

Fantasmas desceram, flechas e setas subiram.

Armas e munições convencionais não teriam qualquer efeito sobre substâncias ectoplásmicas, atravessando-as como objetos sólidos atravessam fumaça, mas a Tropa dos Caçadores Prateados não era nem um pouco convencional, tanto quanto os materiais que compunham seu arsenal.

Cada arma ou munição possuía ao menos um componente de prata, um dos poucos materiais conhecidos aos quais os fantasmas eram vulneráveis, e também o mais comum.

Não que fosse barato, mas o governo de qualquer país estava disposto a arcar com os custos da Tropa local se isso significasse ver-se livre de entidades tão insidiosas.

Diversas flechas e setas de ponta prateada acertaram seus alvos e provocaram o rompimento do tecido ectoplásmico, alguns dos quais chegaram a rebentar.

Além dos erros esperados, porém, o número de fantasmas parecia superior ao número de caçadores de longa distância. Enquanto os últimos recarregavam suas armas, Jolan, Emiko e os outros lutadores de estilo similar entraram em ação.

Emiko, ágil e letal ao manejar sua espada vinda do Oriente que ela chamava de katana, eliminou um fantasma com um desembainhar da arma imediatamente seguido de um embainhar, perfazendo um golpe quase invisível de tão veloz.

Jolan, por sua vez, não podia se gabar de sua rapidez, mas com um par de adagas como opção pessoal (bastante pessoal) de ataque, era tão preciso a curta distância quanto Bavazu o era a longa.

Não podia se dar ao luxo de ser descuidado quando sua forma de lutar permitia que o inimigo se aproximasse tanto.

Girou, desviando-se da investida de um fantasma, ao mesmo tempo que passava suas lâminas pelo efêmero ectoplasma, deixando cortes silenciosos.

Em adição a sua precisão, havia na Tropa quem achasse sua técnica graciosa. Não por acaso fora apelidado de “Dançarino das Adagas Gêmeas”. Todos o estimavam e achavam que tinha futuro como um grande caçador.

Exceto…

O comandante Druwain varreu da existência três fantasmas de uma só vez com sua espada gigante. Vendo aquilo, e sabendo que ele era capaz de muito mais, Jolan não pôde evitar conceder-lhe nem que fossem segundos de admiração.

E indagar a si mesmo por que a recíproca parecia nunca se cumprir.

Não importava quão bom caçador Jolan se mostrava, os resultados que obtinha nas missões, os elogios que colhia dentre os companheiros. Perante o olhar crítico do comandante, sentia-se reduzido a um moleque medíocre, canhestro, indesejado.

― Comandante! A porta está trancada!

Um par de caçadores estava postado junto às suntuosas portas duplas da entrada do solar, no topo de uma pequena série de degraus largos.

O comandante Druwain deu um passo atrás, apartando as pernas, flexionando os joelhos e recuando a espada ao nível da cintura. Mesmo a sua voz mais calma trovejava com sua soberania inerente.

― Afastem-se.

Os caçadores diante da porta hesitaram por um momento, confusos e com cara de bobos. Então se deram conta do que o comandante pretendia, entreolharam-se assustados e pularam cada um na cama de plantas floridas que havia em cada lado da escadinha.

A luminescência branca que despontava e envolvia o comandante não combinava com ele — o aspecto era por demais puro e angelical. No fundo, entretanto, talvez ele fosse a pessoa que tal luz traduzia.

Tão no fundo, vinda de uma fonte tão vital e quase inacessível, que não era à toa que o poder místico que ela expressava causava espanto em quem ainda estivesse aprendendo as artes do espírito.

Quando o esplendor gerado reuniu-se ao longo da espada do comandante, ele pôs à frente o pé que antes estava atrás e fez movimento de corte em forma de meia-lua, na horizontal.

Um turbilhão luminoso irrompeu da lâmina e cruzou o ar até a porta. Estraçalhou-a completamente e juntamente com parte das paredes externas do solar, deixando em seu caminho um grande buraco informe. O estrondo até fez Jolan retrair-se por instinto.

Outra característica do comandante era ser um pouquinho exagerado.

Ao pôr-se ereto, sua voz tonante reverberou por todo o jardim.

Avancem.

Os caçadores voltaram a se unir em grupos destacados e afluíram solar adentro com um equilíbrio de pressa e cuidado. Jolan não mais guardou suas adagas.

Quando pisou o interior do edifício, acometeu-o a forte impressão de que adentrava uma dimensão paralela, onde tudo ao seu redor uma vez fora normal, mas agora se apresentava distorcido… instável, como se fosse mera ilusão.

Paredes, estantes, cadeiras, mesas, quadros, lampadários, escadas — todo e qualquer objeto tremulava sob o influxo da névoa de ectoplasma azulada que empestava o salão.

Não bastasse isso, Jolan teve uma terrível sensação de déjà vu. Do pior tipo: do tipo que era precisamente como um evento de que se lembrava vagamente, mas tentava esquecer. Fosse meramente uma noção esquisita, não teria ficado paralisado como ficou.

Voltou a ser a criança indefesa e medrosa que habitava seu âmago e gostava de sair de vez em quando, reconhecendo o ectoplasma de textura pegajosa e cor arroxeada que escorria pelas paredes.

― Dividam-se e encontrem o nicho!

A voz do comandante Druwain fez Jolan pestanejar e cair em si. Parado diante da magnífica escada no centro do salão, o comandante distribuiu suas ordens.

― Décima, décima primeira, décima segunda e décima terceira esquadras, vasculhem a ala direita do terraço. Sexta, sétima, oitava e nona esquadras, a ala esquerda. O restante, comigo!

E deu meia-volta daquele jeito que fazia a capa esvoaçar, subindo a escada. Pelo menos 15 caçadores o seguiram.

Bavazu olhou para Emiko e Jolan e sorriu. Um sorriso que não era de seu feitio. Um sorriso nervoso. Um sorriso forçado. Isso era o mais grave.

― Bem… vocês ouviram o comandante. Talvez a ala esquerda tenha um lindo pomar com uma cascata natural e formosas damas para nos servir maçãs e pêssegos cortados em divãs almofadados.

Quando a resposta que obteve foi um pesado silêncio tanto de Jolan quanto de Emiko (que já era indiferente a toda piada que Bavazu fazia), meio sério, meio ainda na brincadeira, disse:

― Não?

Progrediram por um corredor extenso, alto e largo junto às sexta, sétima e nona esquadras. À medida que ganhavam terreno, dobrando incontáveis esquinas e percorrendo corredores intermináveis, crescia em Jolan a sensação de que…

― Parece que estamos em um labirinto. ― Por um segundo Jolan achou que tivesse pensado alto, mas era Emiko verbalizando exatamente o que ele buscava definir. ― O solar é grande, mas é tão grande assim?

A percepção de Jolan de que eles estavam em outra dimensão só aumentava. Bem como sua apreensão.

O líder da sexta esquadra, que encabeçava o grande grupo constituído por todas as quatro, volveu-se para trás para encarar Jolan e sugeriu:

― Talvez devêssemos voltar.

Jolan chegou a abrir a boca, mas não a dar uma resposta. Não havia mais ninguém para ouvi-la, de qualquer forma.

A parte emocional e iludida de seu cérebro não quis aceitar o que registrava, mas a parte lógica e racional enviou um sinal de alerta máximo para todo o seu corpo: Não fique parado, senão morremos.

O fantasma cujos pedaços haviam jorrado das paredes, chão e teto e se fundido acima do líder da sexta companhia terminou de ingerir seu alimento, despregou as extensas asas de morcego e soltou um grito estridente com sua boca de caveira.

O corpo sem vida e sem alma do caçador tombou para a frente, ensejando a um Jolan ainda vacilante um salto para trás.

Prevendo uma retaliação de seus companheiros, agachou-se, no instante em que flechas e setas voaram em direção ao fantasma.

Jolan ficou embasbacado ao vê-lo fechar as asas em frente ao corpo como um escudo, receber a rajada e tornar a abrir as asas para rechaçar todos os projéteis.

Nenhum dano, nenhuma alteração visível em seu teor de ectoplasma, nada. Gritou novamente antes de arrojar-se contra os caçadores, ignorando e sobrevoando Jolan.

Emiko ajudou-o a ficar de pé, mas Jolan teria preferido não ter dado nem uma espiada sequer por cima do ombro.

Um espetáculo de horrores desdobrava-se diante de seus olhos arregalados. Outros dois fantasmas de aparência idêntica ao primeiro acompanhavam-no em sua colheita de almas, arrancando berros e motivando fugas.

As armas e munições não mais surtiam efeito algum, as cotas de prata não mais agiam como repelentes. Os caçadores com equipamentos inúteis eram agora como as pessoas acuadas que tanto requisitavam seus serviços.

Alguém segurou o braço de Jolan com força, e apesar do susto, Jolan sentiu um alívio imediato ao ver que se tratava de Bavazu. Com a fisionomia mais perturbada que já vira.

― Temos de sair daqui, agora.

Como assim? Ir embora? Abandonar seus companheiros? Era Bavazu sugerindo isso ou Jolan estava ficando maluco? Talvez não, pois mal teve tempo de dizer “Não podemos” e Emiko também o puxava para longe dos caçadores que sucumbiam.

Jolan levou algo em torno de um minuto para perceber que só haviam restado ele, Bavazu e Emiko, e que vinha correndo atrás dos amigos de modo automático, em estado de choque. Não tinha ideia de aonde se dirigiam.

Chegaram, inesperadamente, ao salão de entrada do solar, mas de alguma maneira vindos da ala direita.

Poucos segundos depois de pararem para recuperar o fôlego, Jolan disse:

― Temos de voltar.

Ao que Bavazu logo em seguida respondeu:

― Eles se foram, meu amigo. Todos eles. E nada do que fazemos funciona contra aqueles fantasmas. Temos é de encontrar o comandante e os outros e recuar por ora.

Jolan queria contestar, insistir, brigar se fosse preciso, mas reparou em algo que o obrigou a deixar seu intento para mais tarde.

Deu alguns passos à frente, em direção ao centro do salão, e conforme o fazia, o que não queria confirmar tornava-se cada vez mais evidente.

Caiu de joelhos, entorpecido, em frente ao primeiro de muitos corpos que jaziam espalhados pelo piso encerado e pelos degraus inferiores da escadaria. Recusava-se a crer no que seus olhos viam.

Não sabia quanto tempo havia se passado, mas num dado momento Emiko abaixou-se ao seu lado e tocou-lhe o ombro.

― Jolan, os fantasmas que fizeram isso podem ainda estar por aqui. Por uma vez, Bavazu tem razão: precisamos encontrar o comandante e os outros. Eles ainda podem estar vivos.

“Por uma vez.” Jolan teria rido se Emiko não tivesse escolhido a pior hora para fazer a primeira brincadeira de sua vida.

Mas o que sentiu de repente foi… muita, muita, MUITA raiva.

Jolan pôs-se de pé num salto e pôs-se a correr escada acima.

Bavazu e Emiko o chamaram, é claro que o chamaram, mas Jolan tinha agora um objetivo sólido — uma meta a ser alcançada, uma vingança a ser realizada. Não permitiria que aquela situação funesta se prolongasse.

Subiu até não poder mais, dando voltas e voltas, e deu por si parado diante de uma conspícua porta que mais se assemelhava ao portão de um palácio.

Tinha proporções gigantescas, com longas maçanetas verticais, e era feita de mármore púrpura com lavores de ouro. O mármore parecia levemente transparente, e seu padrão parecia oscilar, alterando-se como se tivesse vida própria.

Tudo naquele maldito lugar era governado por energia ectoplásmica, e Jolan não via a hora de eliminar sua fonte. Algo lhe dizia que encontraria o que procurava atrás daquela porta.

Puxou as duas metades, devagar, sem nenhuma dificuldade, abrindo-as quase sem fazer barulho algum.

Adentrou uma sala comprida, com pouco mais que um tapete que se estendia até o fundo e lustres pendurados no teto. As paredes tinha um tom de roxo mais profundo do que as dos andares inferiores, suscitando-lhe um déjà vu ainda mais terrível.

As aranhas… as aranhas eram tão grandes quanto se lembrava de dez anos atrás, senão maiores.

Na outra ponta da sala, em uma plataforma a meio metro do chão à qual se ascendia por meio de quatro ou cinco degraus, havia uma coisa praticamente indescritível assentada com uma majestade sombria.

Oito patas gigantes de diferentes cores, quatro para cada lado, estavam suspensas no ar, ligadas a um corpo bojudo no meio, cuja metade traseira encontrava-se diante de um portal que girava morosamente.

Projetado para fora da parte superior do corpo central, via-se um rosto feminino adormecido. Um rosto que, mesmo de longe, era familiar além da conta.

Por mais incrível que pudesse parecer, entretanto, isso não era o que realmente perturbava Jolan.

Os corpos de caçadores no chão, sim.

O comandante Druwain em meio a eles, sim.

A indiferença que aparentava possuir, sim.

A raiva de Jolan transformou-se subitamente em confusão. Queria respostas, precisava fazer perguntas, mas não encontrava a própria voz.

― C… comandante… o que…? ― foi o melhor que conseguiu após alguns segundos mais de esforço.

O comandante Druwain virou-se para ele e passou a exibir um cariz de espanto — um leve espanto.

― Jolan… O que faz aqui? Não deveria…

― Ah, senhor comandante, mas é uma visita tão bem-vinda. ― O tom de voz melodioso ecoou do fundo da sala. ― Deixe estar. Ele será meu convidado especial.

Um surto de lucidez perpassou pelo corpo e a mente de Jolan como um raio, e ele ergueu as adagas, assumindo uma posição de luta, tornando a ficar vigilante.

E irado, com olhos faiscando.

Você.

A voz afetada pronunciou-se em resposta:

― Ora, sim, eu, Kalamaya, a Imperatriz Venenosa, e futura governante do mundo dos mortos e dos vivos. Há quanto tempo não nos vemos, não é, jovem Calistra?

― Jolan!

Era Bavazu, entrando no recinto junto com Emiko, para então parar ao lado de Jolan com a mesma reação de assombro que ele tivera.

― Mas o que está acontecendo aqui!? ― Era raro Bavazu se exaltar, mas a conjuntura o preceituava.

Emiko limitou-se a perguntar:

― Comandante?

O comandante Druwain baixou o rosto, visivelmente consternado, e fitou o chão durante os segundos mais demorados que Jolan já teve de aguardar.

― Foi uma troca. Eu ofereceria as almas fortes de caçadores bem-treinados, e Kalamaya não retornaria por duzentos anos.

Jolan já tinha ouvido demais. Não queria acreditar em nada daquilo. Só podia ser um sonho. Queria acordar. E se não fosse um sonho, queria morrer. Qualquer coisa para escapar daquela realidade perversa.

― Ah, seu mentiroso ― disse Kalamaya no tom mais mavioso e irritante até então. ― Conte-lhes o trato completo. Conte-lhes o que você de fato deseja de mim. Senão, nada feito.

Jolan chegou a pensar que o comandante fosse ceder, podia enxergar a luta interna que o velho travava — mas então, num rompante, o robusto caçador virou-se para Kalamaya de espada em riste, enfezado.

Cale-se! Você não tem o direito de me chantagear. E também não fará nada a Jolan e aos outros.

― Ah, meu querido comandante… Eu faço o que quero e quando quero. Sou um fantasma agora, esqueceu?

― Sua…!!

O comandante Druwain acometeu, com uma bravura que pertencia só a ele, mas que nem por isso deixava Jolan mais tranquilo.

No início tudo parecia sob controle. Jolan até pensou em ajudar Druwain só para garantir a vitória, afinal o comandante era invencível. Mas então tudo degringolou quando o primeiro golpe foi dado.

Uma barreira purpúrea conjurada a partir de ectoplasma surgiu na metade dos vinte centímetros que separavam a lâmina do comandante do rosto da jovem adormecida.

O comandante tentou forçar a passagem, grunhindo, mas a barreira mostrava-se intransponível.

Foi aí que Kalamaya contra-atacou, expelindo uma teia negra da abertura sob seu corpo ereto que fluiu pelo chão e subiu pelo corpo do comandante, enroscando-o.

Druwain largou a espada, que produziu um retinir pesado ao bater nos degraus abaixo.

Kalamaya soltou alguns muxoxos de desaprovação e disse:

― Comandante… o senhor está velho. Gostaria de um conselho? Que tal morrer? Assim poderá manter para sempre o pouco de viço que ainda lhe resta.

Duas das patas da aranha gigante — uma amarela pintalgada de verde e uma roxa cheia de pelos — fecharam-se até tocarem as têmporas do comandante.

Olhando mais de perto, percebia-se que havia pequeninos ovos ao longo do corpo da aranha, inclusive em suas patas. Várias aranhas de diversas espécies começaram a eclodir dos ovos, e caminharam pelas patas na direção de Druwain.

― Comandante!! ― Bavazu ergueu o arco, mirou e lançou uma flecha.

Ela atingiu Kalamaya no conjunto de olhos aracnídeos abaixo do rosto humano e lá ficou cravada, mas não houve nenhuma reação de dor vinda do fantasma aracnídeo.

Pelo contrário. Depois de uma risada, Kalamaya ironizou:

Prata. Acham mesmo que eu e meus fantasmas mais poderosos seremos vencidos por um artifício tão primitivo? E nosso querido comandante aqui levou seus caçadores diretamente para a armadilha. Todos amamos nosso comandante!

O comandante Druwain gritou enquanto as aranhas infestavam sua cabeça, de modo que não era mais possível ver nem sua pele nem seu cabelo. Bavazu e Emiko também gritavam, “Comandante!”, mas Jolan não conseguia vencer o estupor tremendo que o abatia.

As patas que premiam o comandante então o levantaram ao ar, rasgando a parte da teia que o colava ao chão, e o atiraram para longe, para perto de onde Jolan e os amigos estavam.

Num acesso de diligência, Jolan rompeu a inércia e foi o primeiro a acudi-lo.

― Vovô!!

Deteve-se, deslizando, e pôs-se de joelhos ao lado do comandante.

Druwain estava deitado de lado, mole, imóvel, com as pálpebras fechadas parcialmente e olhos vazios. Um véu branco e azul tremulava em torno de seu corpo. Era sua alma se desprendendo.

A resposta veio fraca, mas audível:

― Já não lhe disse que não me chamasse assim…?

Jolan ouviu os passos de Bavazu e Emiko se aproximando atrás de si. Perguntou:

― Vovô… por quê…?

O comandante Druwain piscou, devagar, suspirou, levemente, e disse:

― Eu nunca me perdoei pelo que aconteceu com seus pais e sua avó. Mas Kalamaya é poderosa demais, movida por um rancor que cresce há muitos anos. Fui infeliz em achar que podia nos livrar dela com um acordo tão sórdido, e com isso também… trazer seus pais de volta.

Jolan sentia um nó na garganta que o impedia de falar, por mais que quisesse. Não era para ser assim… A missão deveria ter sido bem sucedida… Tudo o que ele presenciou e descobriu… um mero pesadelo.

― Jolan, me escute. Fantasmas não são nosso real problema. Eles são uma consequência de quem nós somos. Se eles se corrompem, é porque nós nos corrompemos. A luta, no final das contas, é contra nós mesmos. É nisso em que acredito.

Um calombo se formou repentinamente na superfície da espessa teia que o enrolava, e aumentava cada vez mais, até que a mão do comandante emergiu dele e tateou à procura da de Jolan. Segurou-a e continuou:

― Por isso, não perca. Não se entregue como eu me entreguei. Você tem um coração muito bom… É forte. E corajoso. Se por acaso me encontrar como um fantasma corrompido, sei que não hesitará em… fazer o certo.

Jolan não chorava havia dez anos, pensou que jamais fosse se permitir fazê-lo novamente, mas quem o tornava uma criancinha chorona nesse momento não era fantasma nenhum, e sim seu próprio avô.

O novato só observou enquanto o senhor comandante fechava os olhos e sua alma se elevava de seu corpo, para em seguida flutuar rumo ao portal atrás de Kalamaya.

Quando o atravessou, a aranha que se denominava imperatriz refestelou-se.

― Ah, que delícia! Quem diria que uma comida tão velha podia ter um sabor tão fresco. É claro que com um tempero de vingança ficou ainda melhor.

Jolan levantou-se com calma, mantendo a cabeça baixa, os olhos quase inteiramente cobertos pela franja louro-escura. Todo aquele tempo não soltou as adagas. E agora, sentindo o poder dentro de si em ressonância com o poder delas, só as soltaria morto.

― J-Jolan… ― chamou Bavazu com o tom de voz pouco acima de um murmúrio. Emiko certamente estava admirada da mesma forma, por mais impassível que fosse.

Não é que Jolan não estivesse tão impressionado quanto eles, mas havia algo importante a ser feito, e respostas a qualquer questão que eles tivessem só poderiam ser obtidas se continuassem vivos.

Virou-se e encarou os amigos. Olhou para seu próprio corpo e não soube explicar por que aquela profusão de fios de energia tão poderosa estava ali, em conexão com suas adagas, indo e vindo, azul e vermelha.

Emiko olhou das armas para Jolan e disse:

― As adagas de seus pais… são feitas de minérios mágicos, não são?

Kalamaya intrometeu-se na conversa:

― Ora, ora, então o jovem Calistra possui as famosas adagas do papai e da mamãe? Que bonitinho. Mas acha mesmo que só com o poder delas pode me ferir?

Jolan arrostou a aranha, com uma determinação crescente.

― Não só com o delas. Também com o meu… ― Boa parte dos fios que envolviam Jolan saltou para ambos os lados, mergulhando no arco de Bavazu e na katana de Emiko, energizando-os. ― …e com o dos meus companheiros.

Kalamaya deu uma gargalhada que destoava totalmente do tom aveludado em que vinha falando. Grasnante, com uma dose de loucura e, Jolan logo descobriu, uma fúria latente.

Companheiros. Quer saber de uma história engraçada, garoto? A história de uma caçadora dedicada que admirava muito um amigo de sua tropa, e acabou se apaixonando por ele. Ela também tinha uma amiga, uma grande amiga, com quem compartilhava sonhos e segredos.

“Os três passaram a fazer tudo juntos, lutavam juntos, e lutavam muito bem. Num belíssimo dia de massacre de almas, nossa protagonista descobriu, para sua infelicidade, que seus amigos estavam namorando escondidos.

“E quando ela e a jovem que considerava sua amiga leal estavam em perigo, adivinhe quem o príncipe encantado escolheu salvar? E quem ele deixou cair no abismo de fantasmas famintos? Isso meeeeeesmo!

“Portanto, a próxima vez que pensar no papai e na mamãe, lembre-se: papai foi um calhorda nojento, e mamãe foi uma VADIIIIIIIIIIAAAAA!!”

Jatos de teia negra verteram do buraco na parte ínfera do corpo de Kalamaya e percorreram toda a sala em direção a Jolan, Emiko e Bavazu.

Para sua surpresa, Jolan foi capaz de cortar a teia, usando um golpe aéreo e giratório, com os braços estendidos.

Vislumbrou Emiko lançando de sua katana energizada uma onda vertical que cindiu a teia em duas precisamente no meio.

A flecha disparada por Bavazu transformou-se em um projétil semelhante a um cometa, que perfurou e desintegrou a teia em sua totalidade.

Kalamaya voltou a se pronunciar.

― Pensaram que acabou? Eu tenho muito mais a oferecer! O que o faz acreditar que pode me vencer com as mesmas adagas que não garantiram a vida de seus pais, hein, garoto? VOCÊ É SÓ UM MOLEQUE!

Todas as oito patas de Kalamaya voltaram-se para a frente, e de centenas de ovos brotaram aranhas que rastejaram pelo chão, paredes e teto em direção a Jolan e seus amigos.

― Porque estamos preparados e conectados, e somos três desta vez ― respondeu Jolan, cruzando os braços ao peito, com as adagas ao nível do ombro. Semicerrou os olhos e emendou: ― Não… cinco.

Jolan inverteu a posição das adagas com um volteio, passando a segurá-las com a lâmina para cima, abriu os braços com ímpeto e propalou uma meia-lua gigante de energia do espírito, metade vermelha, metade azul.

Toda e cada aranha, senão quase isso, foi calcinada por inteiro, deixando só rastros de ectoplasma no ar que em segundos se esvaíram.

Mais uma vez, Kalamaya se manifestou. Jolan pescou um traço de insegurança em seu novo tom de voz.

― Tolo. Não consegue ver que essa sua confiança nos outros pode ser a sua perdição? O que o leva a confiar tanto nesses seus ditos companheiros? Um dia você será traído e acabará como eu.

Jolan piscou e franziu levemente a testa, estranhando a mudança no discurso. Estaria Kalamaya insinuando que ser como ela era algo ruim?

Aquela jovem adormecida no corpo monstruoso da aranha… parecia mais uma prisioneira de uma força maior do que a cabeça que comandava tudo.

― Eu vou te libertar ― pegou-se dizendo Jolan, sem refletir.

Passados segundos de silêncio, adveio então uma gargalhada ensurdecedora.

Como é? Quer me libertar? Eu sou livre! Sou o ser mais livre que jamais existiu! E mais poderoso! Posso fazer o que quiser! Você não pode fazer nada comigo, GAROTO!

As patas de Kalamaya inclinaram-se para a frente até pousarem no chão, provocando um estrondo, e assim enfim a própria Kalamaya entrou na luta.

Jolan só não esperava que ela saltasse. E voasse. Unindo as patas atrás do corpo, lembrando uma lula, ela se impulsionou pelo ar enquanto deixava cair esferas brilhantes e vermelho-escuras da abertura em sua traseira.

Ao colidirem com o chão, estouravam e deflagravam uma explosão de ectoplasma para todos os lados. Os três caçadores foram arremessados para longe.

Jolan, porém, conseguiu se recompor rápido, ao passo que Bavazu e Emiko pareciam debilitados, esforçando-se para se erguer. O elo de energia entre eles também havia se dissipado.

Kalamaya aterrissou próximo à porta e revolveu-se com um pulo para defrontar Jolan.

― Apenas morra, garoto ― cuspiu ela, como veneno, e arremeteu com passos céleres e pesados, abrindo suas presas.

Mais sereno do que talvez devesse estar, Jolan juntou as mãos ao lado do corpo, pondo as adagas em paralelo. A luz que as circulava recrudesceu, mais, mais e mais.

Então se alongou, adquirindo o formato de uma enorme lâmina que fulgia em um tom claro de violeta. Cinco metros de pura energia, resolução, condolência, tristeza e amor.

― De uns tempos para cá tenho ficado mais interessado nos vivos ― respondeu Jolan, antes de aplicar o derradeiro golpe.

O tempo passou.

Jolan não sabia quanto, mas foi o suficiente para concatenar e organizar os pensamentos, descansar o corpo e aceitar… começar a aceitar tudo o que tinha acontecido.

Bavazu veio até ele, sorriu, cruzou os braços e disse:

― Reforços estão vindo para nos ajudar a carregar nossos companheiros caídos para fora do solar. Como está se sentindo?

Jolan encolheu os ombros, fitando o chá dentro da xícara que tinha nas mãos.

― Pensativo. Ela… ela abriu os olhos e sorriu enquanto desaparecia, não foi?

― Quem? Kalamaya? Se você diz… Eu estava meio combalido, sabe? Mas talvez a teoria do comandante esteja certa. Kalamaya perdeu a luta contra si mesma, e a partir daí só estava pedindo ajuda… daquele jeito estranho dela.

Ao ser deixado a sós, Jolan tomou mais um pouco do chá, pôs a xícara ao seu lado e deslizou da borda do carroção para o chão. Andou um pouco e olhou na direção da entrada da floresta por onde a Tropa havia passado.

Talvez fosse a luz da alvorada incidindo de uma maneira característica à qual ele não estava acostumado, mas duas figuras de cor bem azulada, porventura cidadãos da cidade, estavam parados por ali, lado a lado.

Jolan aproximou-se mais alguns passos deles, mas logo quando teve a impressão de ver sorrisos estampados em suas faces, sumiram.

Deu meia-volta, perguntando a si mesmo se não estava vendo coisas, mas queria acreditar que não.

E sorriu.

A batalha fora vencida com energia, resolução, condolência, tristeza e amor.

Talvez estivesse faltando só… orgulho.