Tenho desencontrâncias com os sentimentos.

Todos dão supervalores ao que sentem

Eu sou um analfabeto de sensações

Prefiro o mundo cartesiano das realidades palpáveis

Mas os poetas e toda gente querem me provar que a vida só vale pelas emoções que proporciona

Não descarto a importância delas

Descarto o supervalor que se dá a elas.

Opto conscientemente — racionalmente — pelo amor cartesiano às formas

Escolhi livremente viver da razão à emoção

Não me comovo embasbacado diante do sentir.

Tomam-me, pela preferência, por insensível

Dou-me, pela escolha, por sensato

Tenho olhos de ver, e vejo

Não sou dado a metáforas

Gosto das palavras que são entendidas na primeira leitura

Dos sentidos que não coram ao aparecer ao leitor (e correm de novo à caixa dos significados e ali trocam de roupa)

Gosto da matéria da vida em seu estado mais bruto

carne, sangue, suor e lágrimas.

Gosto sobretudo de gente, não da sinestesia da gente.

Tudo mais são floreios úteis à alma, um remédio contra o desespero

De quem acha insuportável o sentido primeiro

e único de todas as coisas: o de serem todas as coisas aquilo que são. E só.

As pessoas têm um medo patológico do só.