
Entre Estar e Ser.
Aos 16 anos, decidi não seguir o caminho imaginado pela minha familia pra mim. Apesar do bom rendimento escolar e uma considerável chance de ingressar na universidade pública pra cursar Direito, decidi seguir uma intuição nova e marquei um importante código que há tempos não lembrava: 12B. Marcava o curso de Publicidade na Universidade Federal do Ceará. Uma escolha que mudou planos, caminhos, meu destino e de várias outras pessoas. Como toda mudança de rota, incertezas, medo e apreensão caíram sobre mim e minha família. Ninguém sabia como me guiar, passar contatos, ou mesmo ajudar a entender o que fazer ou como fazer o que eu queria. Na verdade, eu não sabia o que queria fazer mas tinha certeza do que não queria: uma vida monótona interpretando leis. É claro que o Direito não é isso, é palavra viva, capaz de salvar milhões, atuante e pulsante. Mas não era como eu imaginava o meu caminho.
Apesar da inexperiência dos que me ajudavam, um conselho prevaleceu e se mostra imutável todos os dias: seja você e conte sua história da melhor forma possível. Costumava acreditar que isso me levaria a encontrar uma fórmula, uma maneira específica que retratasse minha essência que me faria comunicar como que através de um corpo imutável e de certa forma acabei percebendo que encara meu novo caminho como o que fora pensado e projetado há anos atrás, antes do 12B.
Entender quem somos nós é perceber que não somos, e sim estamos. Somos como o Direito, matéria viva, mutável, inconstante. Ao entender que somos o que quisermos, moldados por nossas escolhas, somos capazes de nos reinventarmos e transfiguramos a carcaça física compatibilizando com o impalpável interior. Assim, podemos estar sempre melhores, mais leves, mais fortes e cada vez mais aptos a mudar. Pra melhor.
Em um trabalho que produzi em São Paulo há pouco mais de um mês, tive a oportunidade de cruzar com um nome até então desconhecido. Diana Vreeland, ex-editora da Harper’s Bazaar e da Vogue, considerada a mais criativa editora de moda até então — de certo a mais cativante — e me foi recomendado assistir um documentário disponibilizado no Netflix chamado The Eye Has To Travel, de 2011, se não me engano. Uma frase mencionada pelo recomendador ficou em minha cabeça. Em determinado momento, em sua exótica coluna na Harper’s Why Don’t You…, Vreeland recomenda que os pais colem mapas do mundo todo nas paredes dos quartos de seus filhos para que os mesmos tenham consciência de que o mundo é imenso.
A Diana é atribuída a fantasia na moda. Aquela pessoa que levou o conceito de Estar ao invés de Ser. Sua paixão pela moda dos anos 20, assim como a de 60, vem pela possibilidade de reinvenção dos indivíduos, assumindo características individuais e explorando-se a seu próprio estilo, a total liberdade de hábitos e formas, a desburocratização e informalidade. O mundo é volátil, livre, sem forma ou regras.
Um dos grandes ensinamentos que assumi para a vida nesses 18 meses de São Paulo é de que não há categorias de pessoas mas sim pessoas que buscam cada vez mais expressarem suas almas e formas de viver. Não há um tipo de discurso certo, um molde capaz de englobar mais de uma pessoa. Essa fantasia da moda mostra apenas uma visão idealizada de como podemos contar histórias de formas diferentes, melhores e novos.
A compreensão de que estamos e não somos permite que mudemos sempre, trilhemos o caminho que quisermos e vivamos como bem entendermos. E se cada um vive uma fantasia, que esta não seja chata.