Os presentes dos gnomos

Um alfaiate e um ourives viajavam juntos. Certa noite, quando o sol acabava de se pôr atrás das montanhas, eles ouviram de longe o som de uma música que tornava-se mais clara a medida que eles se aproximavam. Era um som extraordinário, mas tão encantador que eles esqueceram todo o cansaço para se dirigir a passos largos a este lugar.

Fonte: Wikimedia Commons

A lua já estava alta quando eles chegaram a uma colina sobre a qual viram uma multidão de pequenos homens e de pequenas mulheres que dançavam em círculos com um ar alegre, e se prendiam pela mão; eles cantavam ao mesmo tempo de um modo adorável, e era essa música que os viajantes ouviram. No meio, postava-se um velho, um pouco maior que os outros, vestido com uma roupa colorida e possuía uma barba branca que lhe descia sobre o peito. Os dois companheiros permaneceram imóveis de atônitos que estavam ao assistir essa dança. O velho lhes fez sinal para entrar e os pequenos dançarinos abriram o círculo. O ourives entrou sem hesitar: ele tinha as costas um pouco arredondadas e era ousado como todos os corcundas. O alfaiate primeiro teve um pouco de medo e se manteve recuado; mas, quando viu que tudo se passava alegremente, tomou coragem e entrou também. Imediatamente o círculo se fechou, e os pequenos entes tornaram a cantar e a dançar, fazendo saltos prodigiosos; mas o velho segurava uma grande faca que estava pendurada em sua cintura, botou-se a afiá-la, e quando ficou pronta, virou-se para o lado dos estrangeiros. Eles ficaram congelados de medo; mas sua ansiedade não foi longa: o velho dominou o ourives, e num piscar de olhos raspou-lhe inteiramente os cabelos e a barba; em seguida fez o mesmo ao alfaiate. Quando terminou, tocou-lhes amigavelmente sobre o ombro, como para lhes dizer que fizeram bem ao se deixar raspar sem resistência, e seu medo se dissipou. Então mostrou-lhes com o dedo um monte de carvões que estava próximo dali e lhes fez sinal para completar seus bolsos. Ambos obedeceram sem saber para que os carvões lhes serviriam, e continuaram sua rota a fim de procurar um abrigo para passar a noite. Quando chegaram a um vale, o sino de um monastério vizinho soou meia-noite: nesse mesmo instante o canto se extinguiu completamente e eles viram apenas a colina deserta iluminada pela lua.

Os dois viajantes encontraram um albergue e dormiram sobre a palha completamente vestidos, mas a fadiga lhes fez esquecer de se livrar de seus carvões.

Um fardo inusitado que pesava sobre eles despertou-os mais cedo que o costume. Colocaram a mão nos bolsos e não queriam crer em seus olhos quando viram que eles estavam cheios, não de carvão, mas de pepitas de ouro puro. Suas barbas e seus cabelos estavam também maravilhosamente recolocados. Doravante eram ricos; embora o ourives, que, devido a sua natureza ávida, tinha melhor preenchido os bolsos, possuía o dobro do que o alfaiate.

Mas um homem ganancioso quer sempre ter mais do que já tem. O ourives propôs ao alfaiate esperar mais um dia e retornar à noite ao pé do velho para ganhar novos tesouros. O alfaiate recusou, dizendo: “Já tenho o suficiente e estou contente, quero apenas me tornar mestre no meu ofício e desposar minha adorável prenda (ele chamava assim a sua prometida), e serei um homem feliz.” Contudo para agradar ao outro, consentiu a permanecer mais um dia.

À noite, o ourives colocou dois sacos sobre os ombros para transportar uma boa carga, e se pôs na rota em direção à colina. Como na noite precedente, encontrou os pequenos homens cantando e dançando; o velho o raspou e lhe fez sinal para pegar os carvões. Não hesitou em encher seus bolsos e sacos, tanto quanto podiam aguentar, retornou alegre ao albergue e se deitou totalmente vestido. “Quando meu ouro começar a pesar, disse a si mesmo, o sentirei bem” e dormiu enfim na doce esperança de acordar na manhã do dia seguinte rico como um rei.

Assim que abriu os olhos, seu primeiro cuidado foi verificar seus bolsos; mas foi em vão, encontrou ali apenas carvões negros. “Ao menos, pensou ele, me resta o ouro que ganhei na noite anterior.” Ele foi vê-lo, mas ai! esse ouro também virou carvão. Levou sua mão enegrecida à testa e sentiu que sua cabeça estava raspada e lisa, assim como seu queixo. Porém não conhecia ainda todo o seu infortúnio: logo viu que à corcunda que levava atrás ajuntara-se outra a frente.

Ele sentiu então que recebeu o castigo por sua ganância e pôs-se a chorar e gemer. O bom alfaiate, acordado pelos gemidos, consolou-o com o seu melhor e lhe disse: “Nós somos companheiros, fizemos nossa viagem juntos; fique comigo, meu tesouro nos alimentará a ambos.”

Ele manteve a sua palavra, mas o ourives foi obrigado a levar por toda a vida suas duas corcundas e esconder sob um gorro sua cabeça despojada de cabelos.

FIM