George Harrison dando autógrafos, 1964.

Por mais descrença com as receitas de sucesso

Já me equivoquei muito sobre como medir o quão bem sucedido um artista é.

Isso porque os critérios da nossa sociedade atual para avaliar o grau de sucesso de alguém são um tanto quanto suspeitos (apesar de soarem como se fossem verdades únicas).

Fala-se muito de fama, de fortuna, de idolatria, do número de seguidores nas redes sociais. E a maioria de nós crê que esses índices são o verdadeiro objetivo a ser buscado.

É como se a cauda ficasse mais em evidência que o cachorro.

Confesso que já caí nessa arapuca, já acreditei muito nessas estatísticas do sucesso. Boa parte dos artistas, jovens ou não, costumam embarcar fácil nessa ideia quantitativa, baseada em números (financeiros ou de popularidade).

Quanto mais o capitalismo “incha” e toma conta das relações humanas, fica mais claro que o valor das coisas em nossa sociedade se dá na medida em que essas mesmas coisas podem ser convertidas em números. Sonhos só são especiais se puderem se tornar produtos. Assim, nossas vidas são invadidas por somas, multiplicações, e equações variadas.

Boa parte dos artistas atuais tem que lidar sozinhos com várias exigências quantitativas. Na verdade, é cada vez mais complicado ficar bancando o mendigo hiponga inspirado: temos que visar um lucro mínimo, para não morrer de fome ou mesmo para não entrarmos em falência entre uma ideia e outra.

Alguns são obrigados a se tornar seus próprios tesoureiros, produtores, ou até mesmo empresários. Já foi o tempo em que um mecenas cuidava dos assuntos externos, enquanto os solitários poetas permaneciam ruminando seus próprios arabescos.

Nessa tarefa dupla de criar e administrar, vejo com frequência alguns paradoxos bem comuns. Vários artistas tem obras maduras e ricas, mas não sabem traduzir de maneira simples qual é a sua onda, ou são inábeis em dialogar com um público interessado. Enquanto outros são ainda imaturos esteticamente, mas se mostram extremamente competentes para circular sua obra.

Sem contar aqueles que, ao se auto-gerenciar, descobrem que a administração é que é o barato. Paula Lavigne, por exemplo, tentou se lançar como atriz, até descobrir que ela era mais bem sucedida se auto-empresariando do que atuando. Daí, passou a empresariar outras pessoas de maneira brilhante. Para ela, a gestão era a arte.

Mas e a arte, arte mesmo? Depois de tanta contabilidade e números na agenda que precisam de atenção, que tempo sobra para o ofício que deveria ser o ponto crucial de toda essa novela? O que deve ser o foco?

Existe uma conhecida frase bíblica que, para mim, revela muito sobre essa questão. Ela diz: “Buscai primeiro o reino de Deus, e tudo o mais lhe será acrescentado” (Mt 6, 24–34). O reino de Deus, nesse caso, seria a arte. Aprimorá-la, encontrar minha voz e minha verdade: esse provavelmente é o meu norte. E tudo o mais será acrescentado.

Não foi sempre assim para mim. Eu já acreditei que deveria ser aplaudido por qualquer porcaria que eu fizesse, dado o fato de que era, vejam só, um artista. Como se tudo fosse válido, cada esboço fosse uma obra-prima, e cada gema bruta estivesse lapidada mesmo com suas ranhuras. E no aspecto da gestão, ora, isso lá é coisa para alguém como eu se preocupar?

Só com o tempo, fui percebendo a enorme quantidade de suor e trabalho por trás de cada célebre história pessoal. Cada “não” recebido, cada porta fechada. E mesmo alguns gigantes, como Kafka, Van Gogh ou Stieg Larsson, nunca vieram a se tornar isso que conhecemos como “celebridade”. Morreram pobres e desconhecidos. Isso sem contar os fantasmas sem nome, sobre os quais não sabemos, e que nunca verão nada mais luminoso do que a própria gaveta.

Não fico mais me preocupando com os louros, e até penso que o excesso de exposição pode não só se tornar algo chato, mas também ofuscar a própria mensagem da arte que você faz. O que importa são os desafios do dia a dia, e eles envolvem a grande dificuldade de equilibrar o necessário tempo para gerir a carreira, o tempo de absorção de outras obras, e o tempo de produção da arte em si (e não nos esqueçamos que existe também uma vida para ser vivida, um dia nascendo para além de nossas paranoias).

Também não se trata de abraçar dois extremos perigosos: desprezar o sucesso, ou, por outro lado, mitificá-lo. Deixar de lado qualquer esforço no sentido de administrar a própria carreira é tão nocivo quanto acreditar que o objetivo maior está na fama e na riqueza.

Eu tenho priorizado o fazer artístico, simplesmente porque o tempo é escasso e não tenho pretensões (creio que nem talento) para trabalhar como um gestor. Meu foco envolve cada vez mais o domínio de alguns recursos técnicos adequados, para conseguir materializar com eficiência os vislumbres de beleza que me assaltam a consciência. Tornar-me um melhor ourives, não importa se com ouro ou lata. Nas questões práticas, algumas são mais urgentes: ir até o correio para enviar os livros e HQs vendidos pela internet. E, no tempo que sobra, faço a manutenção do meu site, blog, coisas assim.

Cada vez mais me convenço de que se quiser fazer algo pelo mundo, devo mesmo é cuidar da minha casa. Se estiver tudo bem com o meu jardim, os pássaros e o pólen das flores daqui irão irradiar por todos os hectares da vizinhança.

Não sei se esse texto contém respostas. Se houver, são as minhas, ou pelo menos as que encontrei até agora. Talvez esses insights sirvam para todos aqueles que buscam novas formas de criar e recriar a sua própria vida, ou o seu jardim, uma planilha, ou os versos em branco de um poema inacabado.

Tenho perseguido uma noção de sucesso dentro do próprio fazer artístico. Espero cada vez mais que esse exercício se retroalimente, se justifique por si só. Se vierem aplausos e reconhecimento, serão tão bem vindos quanto algum dinheiro. Porém, voltando à metáfora do cachorro e da cauda citada lá no alto, correr atrás do próprio rabo é útil apenas para se cansar com o próprio narcisismo. Sucesso é ser feliz, e perseguir ilusões não é a maneira mais sábia de alcançar essa condição.