Tudo vai dar certo para os bem nascidos

“E se nada der certo”? Fosse na França do início do século XX, e uma pergunta dessas inspiraria Camus ou Sartre a escreverem belos tratados existencialistas. Mas no país do carnaval, da piada pronta e das castas sociais, a frase virou bordão de festa.

Não acho justo jogar pedra nos jovens do Marista, que apenas estão repetindo um padrão que aprenderam da sociedade. Estão apenas reforçando a crença depositada em cima deles, a de que o Brasil não costuma falhar com os bem nascidos. Exceto talvez se eles resolverem se enveredar por caminhos estranhos.

Veja o caso do bem nascido Darcy Ribeiro. Entre as décadas de 1930 e 1940, ele até começou a cursar Medicina, mas no meio do caminho pirou de se aventurar em umas utopias aí. Como, por exemplo, tentar alfabetizar as crianças brasileiras, ou salvar os índios, ou ainda fazer uma universidade séria, e até mesmo teve a pretensão de fazer o Brasil desenvolver-se autonomamente. No fim da vida, constatou: “Fracassei em tudo o que tentei na vida. (…) Mas os fracassos são minhas vitórias. Eu detestaria estar no lugar de quem me venceu.”

Darcy interpretou sua derrota como uma vitória. Mas a maioria dos que “não dão certo” não tem direito nem a isso. Porque se sentem presos a um dogma capitalista oposto à promessa de ouro dos bem nascidos: se você ocupa um serviço de pouca remuneração ou pouco prestígio, é porque não deu duro o suficiente. “Dar duro” aqui tem a ver com empreendedorismo. Os que não tem o talento para essa grande vocação capitalista de empreender (lembrando que “talento”, na antiga Mesopotâmia, era uma medida financeira, uma moeda) é obrigado a abraçar qualquer trabalho que lhe permita sobreviver.

Fico imaginando se, dentre os alunos festivos do Marista, estivesse algum aluno chato e reclamão como Álvaro de Campos (aka Fernando Pessoa), que em seu “Poema em Linha Reta”, lamentou: “Toda a gente que eu conheço e que fala comigo / Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho / Nunca foi senão príncipe — todos eles príncipes — na vida”…

Os jovens do Marista foram educados para ser os príncipes do poema. A pressão é para que sejam “campeões em tudo”. Mas, por mais improvável que seja, se nada der certo como no bordão, o risco é que cada um deles se torne uma pessoa tão vil quanto Pessoa, que se sentia “vil, literalmente vil / Vil no sentido mesquinho e infame da vileza”.

Espero que as coisas acabem dando certo para eles, não apenas profissionalmente, mas também no sentido de uma tomada de consciência sobre o seu papel em uma sociedade desigual como a brasileira. E se nada der certo mesmo, espero pelo menos que eles consigam produzir poemas como os de Pessoa sobre sua própria vileza (transformando-a, no mínimo, em beleza estética). Porque fora dessas saídas (da justiça ou da beleza), estaremos apenas dando corda na miséria existencial do nosso Brasil atual.