Descobri que o meu melhor amigo de infância é um babaca

Essa não é uma coisa fácil de se escrever e muito menos de se compartilhar. Mas é necessário, porque outras pessoas por aí podem ter amigos de infância tão babacas quanto o meu e talvez ainda não tenham sacado o significado por trás disso.

É um assunto delicado e muito importante, principalmente porque existem vários fatores emocionais que dificultam um exame mais minucioso sobre o nível de afetação que a babaquice alheia pode nos causar. Mas não tenha dúvidas: o comportamento desse amigo é capaz de influenciar diretamente a maneira como você expõe suas ideias ao mundo.

Alguns podem dizer que essa nossa exposição ao mundo depende somente de autoestima bem construída, repertório, vivências e convicção plena de valores. Que uma outra pessoa não tem poder suficiente para castrar os nossos pensamentos e que, portanto, não importa o que diga esse amigo babaca, a nossa autoafirmação nunca precisará passar pelo crivo dele para ter voz no mundo ao redor. Concordo, em partes, que podemos ignorar certas interferências externas e estabelecer um completo domínio sobre o que constitui a nossa essência. Mas também acredito que aquelas pessoas que nos rodeiam, sobretudo as mais próximas, possam sim exercer uma grande influência no desenvolvimento da nossa personalidade ativa, ainda mais quando existe uma fragilidade do nosso psiquismo que dificulta a exteriorização de determinadas convicções.

Pegue o meu caso, por exemplo: desde cedo tive muita dificuldade em enxergar valor em qualquer coisa que eu faça, o que já me levou a experimentar episódios de extrema auto depreciação, cujas saídas pareciam sempre longe demais para o meu alcance. Isso com certeza tem raízes muito profundas. Como adepto da psicanálise, acredito que certos conflitos familiares que venho acumulando desde a infância têm relação direta com as minhas inseguranças de hoje. Venho, inclusive, buscando suprimir essas tendências através de alguns exercícios (como as próprias palavras que aqui deposito) de forma que, mesmo a passos de tartaruga, eu consiga alcançar um nível considerável de segurança para expor as minhas ideias.

Divagações a parte, a questão é que não considero equivocado dizer que talvez aquele meu amigo, o que deu pano para a manga desse texto, tenha sido uma presença realmente negativa na minha vida nesses últimos anos. Depois de uma súbita mudança de valores, que se tornou bem perceptível através de seus novos discursos altamente conservadores, ele acabou me colocando numa posição delicada, na qual me vi obrigado a optar por um caminho: de um lado, eu poderia agir de forma condescendente e continuar levando essa amizade no piloto automático; ou eu deveria simplesmente cortar relações com um dos primeiros amigos que tive na vida, o que soava como uma decisão aparentemente inviável e muito extrema na época.

Ele nunca chegou a me colocar pra baixo deliberadamente — ao menos num primeiro momento — não me humilhou em público ou qualquer coisa assim. Esse cara, na verdade, sempre foi aquele típico gente fina de personalidade muito calma, que se dispunha a dar conselhos que qualquer bom amigo daria. Ele compartilhava abertamente seus próprios conflitos, ouvia atentamente aos meus conselhos e aos de outros amigos, absorvia parte deles e descartava alguns, como toda pessoa o faz; assim como ouvia os meus próprios conflitos e tentava prestar um auxílio, na medida do possível. Para todos os efeitos, ele era um ótimo amigo.

Sempre foi um leitor assíduo. Fascinado pela espiritualidade, pela filosofia por trás das religiões e curioso por uma vasta gama de assuntos, a fissura dele por conhecimento poderia ser comparado à do Samwell Tarly logo depois de se deparar com aqueles milhões de livros na biblioteca da Cidadela (sim, eu queria muito usar uma referencia de Game of Thrones no meu primeiro post, rs). Acontece que, em algum ponto no meio do caminho, ele começou a usar todo o arsenal bibliográfico que acumulou durante todos esses últimos anos para criar uma barreira ideológica repleta de equívocos. Ele se transformou naquela pessoa detestável, como aquele tio-avô pseudointelectual chato, que adora se mostrar maior que a maioria com algum discurso paranoico sobre a ameaça comunista ou coisa que o valha, a qualquer hora e sob qualquer pretexto.

Nos últimos anos, ouvi sair da boca desse amigo frases memoráveis, como espero jamais ter uma filha feminista, e a clássica o papel do homem na sociedade é prover o sustento de sua família; o da mulher, cuidar dos filhos, isso só para citar algumas das mais rasas e impactantes. E tudo seguido de argumentações (às vezes escritas, às vezes faladas) que buscavam embasamento em pensadores de discurso muito duvidoso, como Olavo de Carvalho — sim, aquele mesmo cara que disse que o Jean Wyllys deveria ser examinado depois de cuspir no Bolsonaro, para se certificar de que não havia espalhado vírus HIV através da saliva — e, me desculpem se pareço meio mosca-morta por não ter rebatido de imediato essas afirmações de equívoco tão primário. Mas a verdade é que fiquei realmente assustado ao ver uma pessoa que respeitei durante tantos anos se transformando nesse tipo de caricatura da figura humana, cheia de discursos odiosos e ignorantes camuflados por uma eloquência acadêmica arrogante, o completo oposto do que ele havia mostrado de si até então.

Quer dizer, é muito desconcertante ter que admitir que aquele cara com quem você passava a tarde tocando Nirvana no violão, com quem passava noites em claro falando sobre todo tipo de assuntos durante a adolescência, aquele que te indicava filmes como Sete Anos no Tibete, de repente se transformou num cara machista, homofóbico, defensor do fundamentalismo religioso — esqueci de mencionar que hoje ele é um desses adeptos do cristianismo que seguem os ensinamentos da bíblia quase ao pé da letra — e que, ainda por cima, diz de boca cheia que o atual engajamento das pessoas pela desconstrução de conceitos nocivos ao desenvolvimento da nossa sociedade, como o próprio machismo, não passa de um modismo em vigência, que deve ser combatido a qualquer custo e que, eventualmente, cairá por terra para dar espaço àquele tipo de pensamento ultraconservador, que se esforça para diminuir o volume das vozes que lutam pelas causas sociais — ou os esquerdalhas de mesa de boteco, como ele mesmo gosta de categorizar.

Para uma pessoa como eu, de índole ansiosa, cheia de inseguranças e que não raramente já teve medo da própria sombra, é realmente penoso entrar em conflito com um irmão. Por isso remoí durante um bom tempo a repulsa por aquele novo personagem, que difere em absoluto do cara que cresceu ao meu lado. E como doeu. Foram quase dois anos de sorrisos amarelos e silêncios constrangedores por cada opinião grotesca proferida pelo grande estudioso detentor da verdade, cuja presença, hoje, felizmente não faz a menor falta.

E digo com muita alegria e alívio que, mesmo que eu tenha passado um bom tempo fugindo de posicionamentos necessários, o momento derradeiro da nossa amizade chegou, e foi justamente quando decidi me colocar claramente contra tudo o que ele defendia. Aconteceu que, depois de deixar um comentário em um post no Facebook dele, discordando de uma lógica arcaica que enaltecia o velho modelo de família nuclear — era, aliás, o mesmo artigo que dissertava sobre a importância da submissão feminina na constituição de um bom lar — tive uma resposta digna de encadernação. Citando uma torrente de pensadores da extrema direita, juntamente a divagações pessoais sobre seu próprio desenvolvimento espiritual, o amigo exemplar se pôs a refutar veementemente as minhas observações, que nada mais eram do que uma posição a favor da equidade de gênero e da revisão de conceitos anacrônicos defendidos pela igreja. Com apenas algumas linhas contrárias ao conteúdo compartilhado por ele, fui presenteado com um extenso, cansativo e equivocado artigo científico por Facebook (acredite, o negócio era grande mesmo). Depois disso, nunca mais voltamos a nos falar.

O ponto é que, durante dois anos, vi um pensamento extremista crescendo como uma bola de neve a dois palmos do meu rosto e tudo o que fiz foi engolir seco. E tudo por que? Para não perder um amigo de infância? Sei que uma boa parte de mim não estava pronta para esse tipo de confronto na época, mas também acredito que seja exatamente diante desse tipo de situação que devemos bater no peito e defender o nosso ponto de vista, sem ficar pensando muito em como o outro irá responder a uma posição antagônica. Agora me parece muito claro, inclusive, que enquanto de um lado eu tentava calar o meu próprio impulso de discursar contra aquele amigo, ele, por outro lado, não mediu esforços para mostrar quão alto era seu pedestal na primeira chance que teve de fazê-lo.

Mas isso tudo isso é muito edificante, na verdade. Hoje não tenho dúvidas de que eu jamais devo medir palavras para me posicionar contra a perpetuação dessas falácias conservadoras que adoram dar a descarga nos Direitos Humanos, e que uma boa argumentação não deve depender de uma bagagem bibliográfica extensa. Desde então, toda vez que o fantasma da ansiedade começa a ameaçar as minhas convicções, mantenho o foco no que me parece certo, nesse longo caminho de desconstruções e reconstruções que ainda precisamos trilhar para o desenvolvimento de uma sociedade menos intolerante. E em casos como o desse ex-amigo, apenas sigo a lógica de que um babaca de palavras difíceis é, ainda assim, um babaca; e que uma pessoa como ele de fato não deve ter o poder de anular a voz de quem quer que seja.

Então convido a todos os que de alguma forma se identificaram com o texto a refletir sobre os amigos de longa data. Alguns mantém o laço porque de fato houve uma evolução mútua, o companheirismo amadureceu e o respeito também. Outros, por outro lado, acabam vencidos pela conveniência dos velhos tempos. Agora pare pra pensar: o seu melhor amigo de infância cresceu?