O sabático e as amarras da rotina.

Ao longo de quase uma década, reforcei minha distância entre carreira e paixão.

Sete anos é o tempo para que todas as células do corpo sejam substituidas. Em sete anos somos biologicamente uma pessoa inteiramente nova, exceto pela permanência da identidade. A questão é: essa permanência é necessária?

Me perguntava justamente isso. Havia acabado de encerrar uma reunião de projeto. Trabalhei nele por um ano inteiro. Apostei todas as minhas fichas, sacrifiquei minha vida pessoal tentando concretizar o que seria um grande passo profissional. Era como eu me via. Era a próxima etapa do ciclo. E falhei.

Agora bebia uma caneca exageradamente grande de cafeína. Sentia um misto de orgulho ferido, incapacidade de realização, birra. Ruminava essa mistura indigesta, pulando entre links sem prestar muita atenção. Na minha tela, Stefan Sagmeister explicava que durante um ano sabático — afastado da atividade — surgem idéias para sustentar e renovar os negócios por outros sete.

Quebre com tudo.

Aquilo tomou conta da minha atenção pelos próximos dias. É difícil se encontrar anseando por mudança, ainda mais tão radical como o período sabático. O ciclo da produtividade não me permitia parar e repensar o propósito das coisas. Acabava sempre míope com a situação atual ou aspirações otimistas e pouco práticas. Ligava os pontos entre empregos e projetos, mas na prática andava em círculos.

E para piorar, “as coisas que eu comprava acabam donas de mim.”

Nada mais sintomático do que citar o Clube da Luta, mas se aplicava muito bem aqui. Costumava achar que o aspecto financeiro era o grande limitador de mobilidade, mas tentando viabilizar um microsabático percebi que o problema era ter prioridades desalinhadas. Me movia quase que automaticamente entre projetos, buscando compensação financeira para criar dívidas que não precisava, amenizar a frustração de me mover automaticamente entre projetos. A conclusão foi o empurrão que faltava para decidir sacudir de vez as fundações.

O desejo por mudança é parte do ser humano, assim como a impermanência e a mobilidade. Somos tão adaptáveis quanto nos permitimos ser. Muito culpei a vida moderna, o panteão dos deuses e o mundo, pela saturação que me permiti chegar. Mas eu é que precisava deixar a Síndrome de Estocolmo para trás e parar de simpatizar com as amarras que criei. Não fazia mais sentido comparar um dia com o anterior, sem cultivar novas possibilidades. Era hora de incendiar a roda e parar da maneira que pudesse.

Estava pronto para meu minisabático.


Este texto é parte da minha coluna semanal no Movi+,
plataforma de conteúdo do Grupo Sinos.