O abutre invertido

Rafael Valera
Nov 4 · 1 min read

Um abutre encontrava-se
perto de mim, no balcão.
Seu olhar imitava meus gestos,
abrindo as asas e um vão
do que parecia um presságio funesto.

[Il divario soffia in Fa e
l’avvoltoio alza le ali cauti.
La sua paura ha il mio volto;
di paesi soffiati da presagi fausti.]

Podridão, morte, são lágrimas
evaporadas no pescoço do fênix mundão,
quem traz o mesmo destino do dilúvio,
perante o qual todo torna-se baldo e espúrio.
Seu bico rebelde inverte a corrente
e pula como arpão e Danúbio
através da ciência e sua empresa,
para falar ao coração batente.
Duas folhas do jardim pegou,
e para o poeta foi suficiente.

O aluvião se detê, vês aqueles olhos?
Vê-os novamente. Enxergas?
A escuridão, a potência, a entrega?
A Fé, a crueza?
A contemplação satisfeita na surpresa.
A escada de pedra por trás da névoa.

Do sarau das almas nostálgicas, brotam as areias das pérolas.

Memento mori. Mori, memento.

    Rafael Valera

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