BRANCO — Capítulo 6

Antoine continuaria sendo aquilo que sempre foi para Jordy e não parecia se incomodar com esse papel. Como se faltasse algo dentro de si mesmo, preferia ajudar outra pessoa para preencher seu próprio vazio.

Sem grandes sobressaltos ou qualquer tipo de proximidade, Antoine deu apenas dois passos para o lado para que Jordy tivesse caminho livre para entrar. A sala, a exemplo da porta, era totalmente ornamentada em madeira. Madeira fria, que passava a mesma ausência de calor de Antoine.

À direita, havia um grande cômodo que parecia servir de sala, com uma televisão posicionada em um dos cantos e, perfeitamente estabelecidas no centro, duas confortáveis poltronas, uma de frente para a outra. O lado contrário à TV acomodava um pequeno bar, de onde Jordy coletou uma garrafa de uísque já pela metade.

Mal pôde se virar e Antoine já lhe estendia a mão com um copo. Jordy completou o recipiente com a bebida e se jogou na poltrona. Um grande gole precedeu a respiração funda, pesada, analisada de longe por Antoine.

- O que aconteceu ? — Antoine quebrou seu próprio silêncio com a pergunta.

Jordy hesitou durante algum tempo em responder a pergunta. Encarou o chão e, com a mão na testa, parecia pensar na melhor resposta.

- Se tiver de explicar, eu não sei. Tive um sonho, ou algo perto disso. Acordei e vi uma carta de alguém, que sabia o que havia acontecido no sonho. Eu devo estar louco.

Antoine não mudou sua expressão. Com movimentos lentos, calçou os chinelos que estavam ao lado da porta e se dirigiu à outra poltrona, calculando cada passo para que se acomodasse perfeitamente na poltrona.

- Com certeza, foi você mesmo quem escreveu essa carta. Sonhos são sonhos, a realidade é a realidade.

Jordy se mostrou extremamente surpreso. Antoine sempre havia sido aquele que mostrou a Jordy que a realidade comporta vários elementos que surpreendem a todo momento. Espiritualizado, o amigo de Jordy jamais falaria aquilo.

- Você não acredita que possa ter algo a mais ? Alguém que possa estar me perseguindo…

- Você tem alguma prova disso ? Além da carta, claro.

- Não, não tenho.

- E você acredita na hipótese de alguém estar te perseguindo ?

- Não tenho certeza, não sei em que acredito.

- Você acredita em sonhos ?

Acuado, Jordy via sua paciência se esgotar. Antoine sempre fora um grande ombro para ele mas, seu velho costume de bombardeá-lo com perguntas não estava ajudando naquele momento. Levantou-se, terminando o copo de uísque, e rumou à porta.

- Eu volto amanhã, talvez. Acho que estarei mais esclarecido.

Fechou a porta e não arriscou nenhum olhar para trás. Não esperava, tampouco, alguma resposta de Antoine, haja visto que conhecia o amigo que tinha. Ou pensava que tinha. As perguntas de Antoine haviam deixado Jordy ainda mais incomodado e levaram Jordy a questionar, até mesmo, se o amigo não tinha nada a ver com o que estava bagunçando a sua cabeça.

Logo as ruas de Nice passaram a distraí-lo destes pensamentos. Andara tanto que havia se esquecido do caminho de vinda. Entrou em ruas que nunca havia entrado antes e, com muito medo, se apressou naquele deserto urbano, ainda que não gostasse da ideia de voltar para sua casa.

Um tropeço em uma garrafa jogada perto de um meio fio atentou Jordy para um portão logo à sua esquerda, do qual já estava quase passando sem perceber. Era a entrada do estacionamento. Era o local do sonho.