Lívia e os guarda-chuvas

A chuva caía forte e todos mantinham seus guarda-chuvas sobre as cabeças.

Lívia contemplava a todos que se protegiam da água debaixo da sacada de um shopping, assim como faziam várias outras pessoas por ali. Com fones de ouvido no volume máximo e vendo a chuva, sua cabeça apenas emulava o barulho da água caindo, das buzinas do carros e dos passos apressados daqueles que ainda tinham algo com o que se preocupar.

Se perdeu em suas observações. A música francesa que ecoava em seus ouvidos de repente se misturava com uma moça de boina que passava por ela, fumando apressadamente seu cigarro. De repente, o rock inglês ganhava a forma de um senhor de idade, com a bengala em uma mão e o guarda-chuva em outra, procurando sentido.

Lívia não se deu conta mas cada vez mais pessoas se aproximavam dela, talvez para se proteger da chuva com a sacada do shopping.

À esquerda, fechava-se um guarda-chuva. Logo ao seu lado, mais um. E mais um, mais um e mais um outro. Logo Lívia se viu cercada de guarda-chuvas. O movimento de fechá-los havia parado na metade. Aquela metade em que ainda não se fechou, mas se mantém aberto, à frente de quem segura o objeto.

Podia, dali, sufocantemente, ver alguns traços, mas não podia identificar quem eram aqueles que estavam ali, paralisados, segurando os guarda-chuvas. Identificou aquele senhor que vira a pouco. A moça, particularmente francesa à visão de Lívia. Pelos sapatos, identificou mais um homem e duas mulheres.

Tentou num primeiro instante passar por entre os guarda-chuvas mas sem sucesso. Pareciam intransponíveis. Quando ameaçou se rastejar por debaixo deles, algo a manteve ali, debaixo da sacada do shopping.

Em meio à barreira de guarda-chuvas que a cercava, Lívia tirou os fones do ouvido para tentar escutar algo. Nada. Nem mesmo a forte chuva emitia qualquer som. Nem mesmo os carros, os passos.

“Pra quê a pressa ? A vida é efêmera, se ficarmos o tempo todo correndo, perderemos até aquilo que passa rápido. Não sejamos mais rápidos do que a vida já é.”

Lívia ouviu aquilo do guarda-chuva vermelho.

“Descarta o que faz mal e vive pro seu próprio bem, meu bem.”

Lívia ouviu aquilo do guarda-chuva marrom, logo à sua direita.

“Acumular material é entupir a alma. Vai faltar espaço pr’aquilo que vai realmente fazer a diferença no final.”

Era o guarda-chuva azul, e Lívia assentiu.

Logo que percebera, Lívia se viu segurando o próprio guarda-chuva, todo preto, acima de sua cabeça. Andou em direção à chuva.

“Que suas certezas nem sempre estejam acima de sua cabeça.”

Lívia ouviu do guarda-chuva preto. Fechou-o e deixou a chuva lhe molhar. A chuva caía forte e quase todos mantinham seus guarda-chuvas sobre as cabeças.