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Amanhã eu completo 30 anos. Trinta anos. A sonoridade e o impacto que essas duas palavrinhas carregam consigo me causam um misto de pavor e orgulho. Na realidade, mais pavor que orgulho. Mas eu acredito que isso seja fruto de pouco álcool no meu sangue neste momento.

Eu quando tinha por volta de meus 6, 7 anos, dizia que seria arqueólogo. Meu passatempo preferido era escavar a terra do quintal pra encontrar relíquias como uma tampinha de garrafa enferrujada, um caco de azulejo ou quem sabe — tesouro incomensurável — uma moedinha antiga. Cinco cruzados de 1986 já era antiga pra mim.

O passado, desde esses tempos, exerce em mim enorme fascínio. Fotos em preto e branco, jornais de outrora, a música, tudo. Guardo meus gibis da Turma da Mônica até hoje. E eu consigo DECORAR DATAS. Mulheres, eu tenho inúmeros defeitos, mas esse não! Mas antes de me escreverem pedindo casamento, continuem lendo até o final.

O problema de gostar tanto do passado é, certamente, negligenciar o presente e o futuro. Quando se tem todo o tempo do mundo, como dizia o Renato Russo naquela música, nada é urgente. E se nada é urgente, nada se faz. Na verdade, se faz o mínimo necessário. O feijão com arroz.

“And then one day you find/ten years have got behind you/no one told you when to run/you missed the starting gun”, já profetizava o velho Floyd naquele disco preto que tem um arco-íris e um triângulo esquisito. Esse dia chega, meu camarada, pra quase todo mundo. Podem não ser dez anos, mas dois, cinco ou vinte. Mas chega. E é nesse momento que bate aquela bad e você começa a se lembrar de todas as vezes que você procrastinou na vida e de todas as oportunidades que você deixou escorrer pelos dedos como se fosse água do chuveiro.

“Hey, Doutor! Me leva pro hi-fi da Juliana em 1997…preciso corrigir uma cagada!”

E sim, você se sente o cocô do cavalo do bandido por ainda morar com seus pais, ou por não ter carro, ou por estar encalhado(a), ou por ter um emprego de merda. Ou por tudo isso junto.

Mas é aí que as coisas melhoram. Sim, porque só o fato de você perceber o valor do tempo já tem um poder de ligar uma faisquinha de luz na sua vida trevosa. Se você tem o mínimo de inteligência pra perceber que só depende de você mudar isso tudo, fica bem mais fácil. Se você tem a coragem de jogar com o tempo a seu favor (e isso significa deixar uma porrada de hábitos de lado) já é meio gol.

“Pois perder tempo desagrada mais a quem mais conhece o seu valor” — Dante Alighieri.

Esse é o Dante Alighieri, de boas

Chegar aos 30 é um marco, um milestone na vida das pessoas hoje em dia. Na época do meu avô, ele já tinha um monte de filhos, uns doze anos de exército, e morado em mais cidades do que eu já visitei. Naquele tempo, aos 21 você já era tão adulto quanto o seu pai. Hoje, vivemos a época da geração-canguru, que traduzido pra português significa “molecada criada a leite com pêra e ovomaltino na geladeira”. E eu faço parte desse clube, de certo modo.

Então quer dizer que fazer 30 é só desgraceira? Claro que não! Hoje mesmo, conversando com um amigo, ele me disse que a grande diferença é que depois dos trinta você não pode mais “ … reivindicar insuficiência em nada e se resignar ao acaso da data de nascimento dos outros”. E eu completei: mas pra que reivindicar insuficiência? Eu sou suficiente e adulto pra fazer a maior parte das coisas. Me senti bem dizendo isso. A real é que somos bem mais fortes do que cogitamos. Quem já passou por momentos extremos, ou viu a morte de perto como eu vi, sabe que é.

Resumo da ópera: a melhor forma de se orgulhar do seu passado e construir o futuro é vivendo o presente. Com inteligência e generosidade. Sair da janela (real e virtual) e meter as caras. Parece conselho de livro de auto-ajuda, mas é a pura verdade. Acredite em mim, eu tenho trinta anos.

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