A melhor banda imaginária que existe é a minha

Rafaela Freitas
Aug 8, 2017 · 3 min read

Quando a música é boa eu me transformo em rockstar. Tenho uma voz potente. Minha extensão vocal invejável é capaz de entoar perfeitamente qualquer tipo de música. Quando o solo de guitarra é bom sou eu quem está tocando, embora o guitarrista da banda tenha uma absurda habilidade com o instrumento. A atual formação conta com uma tecladista, uma versão mais talentosa e não junkie da Nico, musa do Andy Warhol. Mas o ponto alto da banda é a cozinha. O nosso baixista é conhecido como o Les Claypool brasileiro, mas o melhor músico da banda, depois de mim, é o baterista. Um homão da porra. Lindo e talentosíssimo! Pode ser que seja verdade que tivemos algo no passado, mas hoje somos grandes amigos e bons companheiros de banda — ao contrário do que aconteceu com o guitarrista da formação original. Rompemos o relacionamento amoroso e o profissional, mas sem mágoas, ele voltaria para a turnê de despedida da banda. Sim, a banda teve um fim, mas como o pensamento não é linear, o show termina, mas continua e também começa. E o início foi duro, né? Assim como para qualquer banda.

Quando não estou com a banda, me fantasio em outras situações incríveis e absurdas. Jogo vôlei, mas continuo sendo baixinha — o que me transforma numa atleta sobrenatural, segundo o narrador esportivo. Invisto num bistrô, pois graças à minha imaginação cozinho muito bem… Estou louca? A psicologia diz que não.

A fantasia, segundo a psicologia, é um mecanismo de defesa do nosso inconsciente para que nos satisfaçamos com situações ilusórias na impossibilidade de realizarmos nossos desejos. Quando usada com moderação, a fantasia contribui para diminuir ou evitar a angústia, além de nos ajudar a resolver conflitos internos (mas quando ela estiver entrando em conflito com a realidade, procure ajuda!).

Temos como desafio diário encarar a realidade, que nem sempre — ou quase nunca — é do jeito que desejamos. Às vezes, tudo o que a gente precisa é subir num velocípede e viajar pelo Fantástico Mundo de Bobby (lembram-se do desenho animado?) e deixar que nossos desejos nos ceguem e abram nossos olhos. Essas viagens imaginárias têm sido para mim um importante instrumento de autoconhecimento. Quem disse que nunca poderei ser rockstar, nem atleta, nem proprietária de um bistrô metido a besta, além de eu mesma? Quem disse que a minha realidade não pode ser tão interessante quanto à minha fantasia, além de eu mesma?

Agora quero um novo desafio diário: incorporar um pouco da minha fantasia à realidade. Será possível? Vou tentar! Mas por enquanto, a realidade continua chata. Então, coloco meus fones de ouvido, pois quando a música é boa eu me transformo numa rockstar.

Penso como vai minha vida
Alimento todos os desejos
Exorcizo as minhas fantasias
Todo mundo tem um pouco de medo da vida (“Pense e Dance” — Barão Vermelho)

(Crédito da imagem: The False Mirror, Rene Magritte, 1928)

*Publiquei originalmente aqui: http://mosaicando.com.br/melhor-banda-imaginaria-que-existe-e-minha/

Rafaela Freitas

Jornalista, cruzeirense, proletária e entusiasta da cultura pop

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