BoJack Horseman e a petulância do cavalo

Rafaela Freitas
Aug 8, 2017 · 4 min read

Ninguém completa ninguém. Isso não existe. Se tiver a sorte de encontrar alguém que te ature, agarre-a com unhas e dentes. Caso contrário, só vai ficar mais velh@, amarg@ e solitári@. Vai fazer o que puder para preencher esse vazio com amigos, carreira, sexo sem sentido, mas o vazio continuará lá. Um dia vai olhar ao redor e perceber que todos te amam, mas que ninguém gosta de você. E esse é o sentimento mais solitário do mundo — BoJack Horseman.

Toda essa cruel e real amargura existencialista dá tom à série animada “BoJack Horseman”, cuja terceira temporada estreou no mês passado na Netflix. A série entra na gigante lista de desenhos politicamente incorretos para o público adulto, mas com um diferencial: ela não é uma comédia que nos faz rir de nossas desgraças, mas sim um drama que evidencia toda a podridão escondida em nosso âmago.

Como o próprio sobrenome sugere, BoJack Horseman é um cavalo com comportamentos humanos. Esse, inclusive, é um importante detalhe da narrativa: o desenho se passa num Planeta Terra onde humanos e animais antropomórficos (de características humanizadas) convivem como pares — trabalham, se relacionam, se casam e têm filhos, independentemente de suas espécies. BoJack é um ator que fez muito sucesso nos anos 1990, quando estrelou “Horsin’ Around”, uma sitcom familiar sobre um cavalo solteirão que criava sozinho três crianças humanas — qualquer semelhança com “Full House”, talvez, não seja mera coincidência.

Após o fim de “Horsin’ Around”, Bojack se vê envolvido apenas com trabalhos menores. Sua missão é se lançar como ator de cinema num pretensioso filme caça-Oscar para eliminar de vez a imagem de ator de um único papel — desafio no qual o cavalo estará envolvido ao longo das (até então) três temporadas.

A série faz uma dura e precisa crítica à indústria de entretenimento e às vidas vazias e sombrias das celebridades — a história se passa numa cidade equivalente a Los Angeles e a indústria de entretenimento local se chama “Hollywoo”. Apesar da carreira confusa, BoJack vive uma vida de rockstar, regada a luxo, sexo, álcool e cocaína. Mas, claro, sente que falta-lhe algo.

Por favor, uma dose cavalar de serotonina

Aqueles que mais se aproximam de amigos na vida de BoJack são a ex-namorada e agente Princess Carolynn (uma gata quarentona que mantém um relacionamento amoroso — porém não físico — com duas crianças que se passam por adultos. Oi?); Mr. Peanutbutter (um cachorro, ator que estrelava uma série concorrente na década de 1990); Diane (esposa humana de Mr. Peanutbutter, social media e biógrafa de BoJack); Todd (um humano que se instalou na mansão de BoJack após uma festa e nunca mais saiu de lá); Sarah Lynn (humana, atriz-mirim e popstar sucumbida às drogas — qualquer semelhança com Lindsay Lohan, talvez, não seja mera coincidência).

Apesar do protagonismo do cavalo, todos os personagens têm alguma história triste para contar. E mesmo que todas essas pessoas/animais desse grande núcleo do elenco se relacionem, a solidão é uma constante.

Num primeiro momento, a gente passa a entender BoJack como um tiozão tristonho e pessimista, passando por uma crise de meia idade. Mas com o passar dos episódios, a crise existencial se transforma num puríssimo conflito existencialista sartreano, chegando ao seu auge na mais recente temporada. Ao longo da série, percebemos que aquela tristeza do cavalo não cessa — e pior, se alia a sentimentos de apatia, falta de esperança e perspectivas. Qualquer profissional da saúde mental diagnosticaria um paciente nas condições emocionais de BoJack com depressão. Ele sofre em silêncio — e sofremos junto, nos restando apenas torcer para que não se torne um cavalo de corrida com a pata quebrada esperando pela eutanásia.

Por mais que a gente diga o contrário e tente rir disso, os sentimentos negativos que permeiam o universo da série dizem muito de nós mesmos. Provavelmente, é por esse motivo que se torna tão fácil se simpatizar com os personagens tristes e introspectivos, sobretudo BoJack. Prepare o balde de pipoca e a serotonina para descobrir um pouco mais sobre você.

Um papo para depois…

O antropomorfismo (dar características humanas aos animais e outros elementos da natureza) é um recurso milenar literário, muito utilizado em fábulas. Os animais, na literatura — e em outras artes — são utilizados como recursos metafóricos para vivenciar experiências morais e éticas que reforçam os mais íntimos dos desejos e caráter dos humanos.

Não é à toa que um punhado de desenhos adultos lança mão desse recurso. É só nos lembrarmos de um dos personagens mais geniais de “Family Guy”, o cachorro alcoólatra Brian Griffin; ou ainda Roger, o alienígena pansexual e embusteiro de “American Dad”. Os dos personagens citados — e todos os animais de BoJack Horseman cumprem a função de representar o exagero da intimidade humana. Afinal, é muito mais fácil rir do outro do que de nós mesmos — ainda mais se ele for um animal.

Rafaela Freitas

Written by

Jornalista, cruzeirense, proletária e entusiasta da cultura pop

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