Chega uma hora em que todos nós entenderemos Belchior

Rafaela Freitas
Aug 8, 2017 · 3 min read

Belchior despareceu de novo, agora, para sempre. Embora tivesse nos garantido que não morreria neste ano, morreu. Não foi às três, como suplicado, mas à noite, na hora do tal compromisso — ou talvez fosse esse o seu compromisso, sei lá. Poético como sempre, o Belchior! E nada foi tão Belchior do que os seus últimos anos de vida. Separou-se da esposa de longa data para viver mundo afora com uma artista plástica. A partir daí, sumiu. Apareceu. Sumiu de novo. Reapareceu. Sumiu. Abandonou a carreira e carros em estacionamentos, não deu mais notícia para amigos, familiares e fãs. Acumulou um punhado de dívidas. Sulamericanamente, foi visto explorando o continente, ou pelo menos o Uruguai, onde foi visto recentemente. Latino-americano vindo do interior do Ceará, escolheu o interior do Rio Grande do Sul para o seu último desaparecimento.

Ouvir e falar sobre Belchior me remete a duas lembranças tragicômicas. A primeira, na faculdade, quando Gabriel (sim, o editor do Mosaicando) e eu fantasiávamos sobre o nosso futuro: cinquentões, nos encontraríamos para tomar um whisky, fumar charuto, ouvir Belchior e reclamar da desgraçada vida de jornalistas. A segunda e mais emblemática lembrança é a de um tio de uma amiga invadindo uma rodinha de violão, acendendo um baseado, arranhando os primeiros versos de “Tudo outra vez” e perguntando: “vocês sabem quem canta isso?”. Ninguém respondia. Fiquei nervosa com o silêncio. A letra falava sobre solidão e trazia o verso “minha fala nordestina, quero esquecer o francês”. Chutei: “Belchior?”. O tio da amiga me pergunta se tenho certeza. Respondo que não. Nunca tinha ouvido a música até então. O tio joga o violão com raiva no chão e grita, lançando o baseado para o espaço: “Vocês são frouxos demais para Belchior”. Ele estava certo.

Fui conhecer mais profundamente a obra de Belchior tardiamente e não lamento nada por isso. Belchior não é para amadores, nem iniciantes. Belchior não é para frouxos, definitivamente. Suas músicas só começam a fazer algum sentindo quando a gente passa a conviver intimamente com a angústia, o desespero, a solidão, a dor, o amor e a decepção. E o medo. Medo. Medo. Medo. Medo. Medo. Não só medo de avião, mas também de Belo Horizonte, Natal, Vitória, Goiânia, Salvador, Belém… Ninguém nunca está preparado para compreender Belchior. Mas a partir do momento em que começamos a entendê-lo, fodeu! É cada soco que ele nos dá… Bem-vindo à vida adulta! Por isso, me lamento quando vejo alguém muito novo se identificando com versos como: “Não quero amar, não! Nunca mais, que esse negócio de amor já não se faz sem punhais. Mister dos mistérios tais… Ah! Eu nasci perdedor. Pra que mentir de fingidor das dores tão reais”. Porra! Belchior deveria ser contraindicado para menores de 18 ou para jovens de 25 anos de sonho e de sangue.

Mas àqueles calejados pela vida ao vivo (“Isso é somente uma canção. A vida realmente é diferente. Quer dizer… ao vivo é muito pior”), Belchior, deixou algumas lições. Logo ele que não estava interessado em nenhuma “tiuria” foi lá falar sobre empirismo…

A minha alucinação

É suportar o dia a dia

E meu delírio

É a experiência

Com coisas reais

Para mim, o grande ensinamento do poeta e filósofo cearense é este: encarar a realidade com a mesma paixão e sangue revolucionário de alguém de 25 anos, afinal “precisamos todos rejuvenescer”. É uma “tiuria” tão complicada quanto o “ao vivo”. Mas podemos tentar, Belchior.

Quero desejar, antes do fim,
pra mim e os meus amigos,
muito amor e tudo mais;
que fiquem sempre jovens
e tenham as mãos limpas
e aprendam o delírio com coisas reais.

Realmente, Belchior nunca será para frouxos.

(publiquei originalmente aqui: http://mosaicando.com.br/chega-uma-hora-em-que-todos-nos-entenderemos-belchior/)

Rafaela Freitas
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