Memórias de uma criança marxista

Uma perna mecânica. O cara só queria uma perna mecânica. A que usava era desconfortável. Ele precisava tirá-la algumas vezes ao longo do dia para que a pele não ferisse. No mercado apareceram modelos mais anatômicos de próteses, porém custavam alguns milhões de cruzeiros. Ele não tinha esses milhões de cruzeiros, então mandou a carta para o programa Porta da Esperança. Sílvio Santos mandou abrir a Porta. Atrás dela, o vazio. Nenhum representante de empresa de próteses apareceu para doar esperança. O cara chorou. E saiu do palco, provavelmente, sentindo desconfortos no coração e no que restava de sua perna.
No mesmo programa, uma menininha de uns 7 anos com esperanças de ganhar toda a coleção da Barbie apareceu por lá. Era estudiosa, morava numa casa bonitinha — nada chique — com os pais. A porta se abriu com alguém da Estrela trazendo uma prateleira com mais de 20 bonecas. Eu chorei. Chorei por também querer 20 bonecas. Mas uma parte do choro era pelo cara que só queria uma perna mecânica. Passei a me esconder na hora em que a família se reunia na sala para tomar café com bolo e assistir Porta da Esperança. “Ela deve ter medo do Jesus que aparece ao final do programa”, algum adulto deduziu. Deixei que pensassem assim Eu não saberia como explicar que meu medo era o de ver pessoas pobres chorando por não realizarem seus sonhos.
Eu tinha 5 anos. Foi a primeira vez que me vi no meio da desigualdade, claro, sem entender porra nenhuma daquilo. Situações como aquelas se repetiram. Não gostava, por exemplo, de ver a Xuxa comendo pão com geleia, suco natural e uvas bem bonitas no café da manhã. Não que eu gostasse de geleia e uvas, mas aquilo, ao meu ver, era uma afronta ao meu biscoito de maisena molhado no leite. Um dia, cheguei para os meus pais e disse: “Não quero ser rica quando crescer”. Eles riram e me perguntaram por quê. “Porque ricos são pessoas ruins”, respondi.
Essas memórias estavam escondidas, mas vieram à tona com os eventos mais recentes da política brasileira — e fizeram com que minha cabeça entrasse em colapso. Lidar com essas lembranças e analisá-las têm sido um exercício doloroso e ao mesmo tempo prazeroso para entender mais sobre mim. Eu sou aquela criança marxista, crescida, inquieta… E inconformada. E como é bom para a alma ser uma pessoa inconformada!
Em uma das visitas cruéis do pretérito imperfeito me lembrei da Mônica, uma colega do “prezinho” na E.E. Ondina Amaral Brandão. Lá, todo mundo era meio fodido. Mas uns eram mais fodidos do que os outros. Na hora da merenda a pequena discrepância entre nós gritava. Enquanto meu pai procurava até a última moedinha do bolso para conseguir comprar um Mirabel para colocar na minha lancheira, Mônica comia arroz doce da cantina da escola — e nada era mais humilhante do comer “merenda do governo”. Um dia Mônica estava toda feliz, porque trouxe merenda. Era algo velho e duro dentro de saquinho de pão, mas que a deixava orgulhosa. Mônica foi foco transmissor de uma infestação de piolhos na nossa sala. Mônica não tinha lápis de cor. Mônica nunca aprendeu a escrever nome de cór. Mônica sempre se esquivava quando perguntávamos sobre sua mãe — algo me diz que ela estava morta, literalmente ou não. No final do ano, a única preocupação de Mônica era conseguir um vestido emprestado para dançar na festinha formatura. Mas não foi necessário: Mônica não aprendeu a ler e recomendaram que ela repetisse o pré-primário.
No ano seguinte, eu era a única da antiga sala do prezinho que acenava para a Mônica na troca dos recreios — que eram separados por séries. Por algum tempo, me peguei perguntando se eu poderia ter feito alguma coisa para a Mônica aprender a ler ou ter dinheiro para comprar Mirabel. Não, não poderia. Mas fiz algo maior: não deixei de me sentar perto dela por causa dos piolhos.
Depois, sumiu da escola. Ninguém mais teve notícias de Mônica — e por que é que alguém teria?
As pequenas grandes conquistas do proletariado ao longo do governo Lula — com a consolidação dos programas sociais e aumento do poder aquisitivo das classes mais baixas — só evidenciaram que a Casa Grande jamais será conivente com a festa da Senzala. Quando muitos de nós, neste momento político, verbaliza o “vai ter luta”, não estamos nos referindo restritamente à posição contrária ao impedimento da presidenta. É algo maior: é sobre luta de classes que estamos falando. Nessa luta praticamente perdida, a gente apanha pra caralho. Mas fazemos barulho. E é desse barulho que surge uma esperança que nenhuma porta do Sílvio Santos pode nos proporcionar.
Lutemos por nós e por todas as Mônicas deste mundo!
(Publiquei originalmente aqui: http://mosaicando.com.br/memorias-de-uma-crianca-marxista/)
