Torça como uma mulher *

Rafaela Freitas
Aug 8, 2017 · 3 min read

Antes de conhecer a origem da expressão “torcedor”, eu costumava invejar os gringos de língua inglesa por poderem chamar de “fans” os seguidores de atletas e equipes esportivas. Etimologicamente não existe melhor definição (vem do latim Fanaticus, uma pessoa submetida quase que cegamente por paixões e sentimentos despertados por um deus). Sempre gostei também de “hinchas”, de nossos vizinhos da América Latina. A origem da palavra é uma simpatia só: vem da antiga prática de inchar (hinchar) os pulmões com ar para encher as bolas das partidas, no início do século 20, num tempo em que ainda não se usava bombas manuais, tampouco elétricas. Por aqui, somos “torcedores”, expressão popularizada na década de 1920, nos primórdios da profissionalização do futebol, e que surgiu a partir do comportamento das mulheres nas arquibancadas, que torciam os seus lenços para aliviar o nervosismo durante as partidas. Pois é… as mulheres!

Jogo de Futebol em São Paulo em 1921 | Arquivo O Globo

Na época, o futebol era um hobby exclusivo das elites brancas. As esposas e filhas dos sócios de clubes de futebol tinham acesso gratuito aos jogos. No entanto, com a popularização do esporte e a rentabilidade com a venda de ingressos, os clubes retiraram a gratuidade. Somado isso à mudança de perfil do público nos estádios — majoritariamente homens de diferentes classes sociais –, as mulheres foram, aos poucos, sendo excluídas do futebol. Além não serem provedoras de seus lares e, consequentemente, não terem como arcar com ingressos, as mulheres não poderiam se atrever a frequentarem um ambiente que se tornara cada vez mais masculino. Para piorar ainda mais a situação da mulher nos estádios, em 1941, um decreto, revogado apenas na década de 1980, proibia a prática do futebol por mulheres por considerar um esporte pouco feminino e violento.

Estar longe dos estádios, mas não necessariamente do futebol. Ao longo da história, as mulheres continuaram torcendo seus lencinhos, roendo suas unhas e acompanhando pelo rádio os jogos dos clubes do coração. O da minha avó foram o Vasco e o Cruzeiro. Conversávamos sobre o Cruzeiro, mas nunca lhe perguntei “por que diabos o Vasco?”. Acho que o motivo era o Tostão. Ela sempre dizia que para Pelé era fácil marcar gol, pois quem fazia o difícil naquela seleção era o Tostão. No interior de Minas, minha mãe ficava atrás de notícias do placar do último jogo do Cruzeiro. No Rio Grande do Norte, minha tia sempre dava um jeitinho de ir escondida com meu pai aos jogos do América-RN.

Felizmente, nasci e me tornei torcedora numa época um pouquinho mais permissiva para nós. Nasci um ano antes da primeira partida oficial da seleção feminina (contra os EUA, em 1986). Lembro-me dos clubes adotando políticas de gratuidade para mulheres ao longo da década de 1990 — políticas hoje questionáveis, mas que em curto prazo, naquele tempo, serviu para nos colocar gradativamente de volta aos estádios. Começávamos a reconquistar aqueles lugares onde, sem querer, batizamos os torcedores. Mas ainda não podíamos ir sozinhas. Nossos pais, tios, irmãos, amigos, maridos e namorados estavam lá para nos proteger daquele mar de testosterona, derramando violência e assédio. De lá para cá, como sabemos, pouca coisa mudou. Basicamente, resolvemos nos arriscar sozinhas ou acompanhadas de outras mulheres nos estádios, começamos a entrar nas conversas sobre os jogos e entender a regra do impedimento.

Cem anos nos separam dos lencinhos torcidos. Parece uma eternidade, mas infelizmente ainda nos vemos numa sociedade emergente quanto à discussão sobre a presença da mulher no futebol. A maioria dos clubes desconversa quando o assunto é time feminino. Não estamos nas diretorias e somos poucas nos departamentos médicos. Poderíamos ser mais no jornalismo esportivo e em blogs de torcidas. Poderíamos ser mais Marias por aqui. Poderíamos ser ainda mais nas arquibancadas. Poderíamos ser mais, mas felizmente já somos o suficiente para começar a problematizar, discutir e nos reunir com outras torcedoras para acabar com qualquer minuto de acréscimo dessa cultura patriarcal que permeia o mundo do futebol. Torcemos e lutemos como mulheres!

Rafaela Freitas

Jornalista, cruzeirense, proletária e entusiasta da cultura pop

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