DANIEL SAN, HOMENS DE PRETO E A AGULHA

Existem pouquíssimas coisas que eu odeio mais do que ficar doente. Entre elas estão: a desigualdade social, o nazismo e as atualizações do twitter. Sério, eu tenho tanta raiva de ficar doente, que fico ignorando os sinais que o meu corpo manda, pra ver se ele esquece que tá ruim:

- ei tá sentindo essa dorzinha de cabeça heuheieh
- tô não meu
- e essa puxadinha aqui no estômago ó sentiu rsrssrrs
- sei de nada não sai fora
- aaaa mas essa ânsiazinha aqui tu sentiu nem vem kkk
- iiih tô bem de boa

Sim, eu fico conversando com meu próprio corpo, pode julgar. Por fora, eu fico com o semblante normal, mas por dentro eu tô me sentindo o próprio daniel larusso, completamente ferrado, tentando dar o golpe da garça no johnny (as dores que eu tô sentindo).

ele se apoiando na perna estraçalhada heuiehiuihe

Mas o problema é que nem sempre eu consigo reverter a situação. E foi isso que aconteceu anteontem (ou ‘onteonte’ se você que está lendo aí for uma senhora de mais de 75 anos). Plena segunda-feira, eu estava só o couro da cuíca™. Ou como os jovens de hoje em dia costumam dizer: querendo estar morto. E como já não tinha mais o que fazer, eu fui pro pronto socorro.

Rapaz, acho que eu não consigo descrever o quanto eu detesto ter que ir no hospital. Não, pera, eu consigo sim.

Eu prefiro ir em um corinthians x são paulo, no itaquerão, no meio da torcida da gaviões, com a camisa do palmeiras e gritar que o melhor jogador da história deles foi o edilson pereira de carvalho

Pronto socorro é um lugar que você entra e logo de cara tem a sensação de ter errado a porta e caído direto na redação do jornal nacional das doenças. Em 10 minutos que eu estava na fila de espera pra ser chamado pra triagem, pelo menos umas 7 idosas vieram me contar as últimas do mosquito da dengue:

“agora ele transmite pela saliva também viu mocinho tem que se cuidar”
“são três tipos ó: é o dengue, o zico e o chique gunha tudo rajadinho”
“onteonte mesmo deu que já tiveram mais 300 mil casos só aqui na cidade mas como isso né se no brasil todo tem 200 mil habitantes isso aí é coisa da tv tô te falando”

Uns 10 minutos depois, eu finalmente fui chamado pra primeira salinha. Lá, a atendente me examinou inteiro em exatos 4.7 segundos. Antes mesmo de eu sentar, ela já apontou um instrumento pra minha têmpora, que é muito parecido com o apagador de memórias do MIB, e mediu minha febre. Male male comecei a dobrar meus joelhos e ela já tava bombeando aquela almofadinha em volta do meu braço pra medir minha pressão. A bunda tava quase encostando no assento, ela falou “sem febre pressão ok preciso de um documento com foto por favor me diz o que você está sentindo”. Calma, moça, pra quê falar tão rápido? Tá se achando o galvão bueno do health & care, é?

tá com febre não

Aí eu contei detalhadamente — talvez até com mais detalhes do que ela gostaria de ouvir — tudo o que eu estava sentindo e ela me deu uma pulseirinha. E, caso você não saiba, no pronto socorro existe 3 tipos de pulseirinha:

  1. quem está passando um pouco mal, ganha uma pulseirinha normal;
  2. se estiver realmente zoado, ganha uma pulseirinha pista premium;
  3. agora, se estiver quase abotoando o paletó de madeira, aí ganha a pulseirinha vip camarote com open de soro.

Já com a identificação no pulso, ela me pediu pra esperar numa outra sala, junto com todas as outras pessoas que estavam aguardando a consulta. Nessa parte, você tem que pegar uma senha pra esperar o atendimento. Eu peguei a de número 13. Quando eu cheguei na sala, quase como se eu estivesse presenciando um milagre hospitalar, o painel eletrônico estava marcando 11. Eu tinha acabado de chegar e já estava há 2 números de ser atendido! Não vou dizer nem que sim, nem que não, mas é possível que eu tenha pensado “sofram, reles mortais moribundos” enquanto eu caminhava pra sentar na cadeira mais próximo da sala do médico.

Abaixei a cabeça pra mexer no celular e PIRULIRULIRU — esse, no caso, é o barulhinho que o painel faz. Olhei todo serelelepe e o marcador da senha estava agora em 674 (???). Outro piruliruliru, 127. Mais piruliruliru, 93882. Os piruliruliru não paravam, A4378$. Eu fiquei uééééé. Rapaz, que ódio desse painéis, é por isso que eles tão lá trabalhando no hospital, nunca vão virar placar de estádio de futebol nessa má vontade.

claramente eu esperando os piruliruliru

Depois de uma espera que daria tempo o suficiente para eu assistir a trilogia do senhor anéis, versão estendida, com comentários do diretor, finalmente a minha senha piscou e eu fui pra sala ao lado. O médico que me consultou tinha um correntão de ouro no pescoço e um cavanhaque de ator pornô dos anos 80 que me incomodava demais. Eu fiquei a consulta inteira esperando o momento que ia começar a tocar um sax e ele ia pedir pra me “examinar” melhor. Deus que me livre, até bati 3x na mesa aqui. O problema é que, mal sabia eu, esse não era ainda o maior momento de tensão do dia. Digamos que o doutor em si era apenas o koopa do primeiro castelo do super mario world e o bowser estava logo do outro lado da porta me esperando.

“Segue esse corredor aqui que lá no final eles vão te aplicar o soro tá”

Olha, veja bem, eu não sou um cara muito medroso não, longe de mim. Mas a gente está em 2016 e ainda não inventaram algo mais seguro do que FAZER UM FURO pra injetar substâncias dentro do meu corpo pra me curar. E a cada ano que passa aquilo parece maior e mais pontiagudo! Quando o médico enfiou a agulha no meu braço, minha mente ficou branca… começou a tocar uma música clássica… no meio de uma fumaça, aparecendo e desaparecendo através de fade-ins e fade-outs, eu vi a cena do filme 127 horas em que o cara corta o próprio braço fora… eu vi o menino vrajamany tendo o braço arrancado pelo tigre… eu vi darth vader tendo a mão decepada pelo Luke. E eu conseguia sentir a dor deles em mim!!!

Mentira, foi só uma pontadinha mesmo que talvez eu tenha reagido com um “ui” e pronto. Mas não faria mal se os cientistas desenvolvessem outros métodos que não envolvessem agulhas. Sério. Por favor. Nunca pedi nada.

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