MEUS AVÓS, STOP E UM POUCO DE VINHO

Eu não conheci meu avô paterno. Ele morreu muito antes de me ver nascer, mas, mesmo assim, de uma forma meio ilógica, eu sempre me senti muito próximo a ele através do meu pai. Meu avô foi o ponto inicial da veia artística na minha família e se hoje eu vou a exposições de arte, ouço música clássica e jogo xadrez, devo muito a ele. Pintor, violinista, enxadrista e ainda curtia um futebolzinho… às vezes dá um tristeza por não ter conhecido esse hombre.

Minha avó por parte de pai também já não vive mais, mas ela me viu crescer bem. Quando ela morreu, eu tinha 15 anos, o que na época me parecia muita coisa, mas hoje em dia eu percebo que nessa idade a gente ainda não tem a real noção do que é perder alguém tão próximo. Cada ano que passa depois da morte dela, leva junto alguma memória, algum momento que nós passamos juntos. E isso machuca muito mais do que a morte em si. Por sorte, tem certas coisas que tempo nenhum vai tirar da minha cachola. No caso da minha avó, essas coisas são: a bondade que ela exalava, o sorriso leve e o sentimento puro em querer o bem pras pessoas. Isso e o doce de abóbora que ela fazia. Nunca existirá um doce igual aquele. Uma das lembranças mais gostosas que eu tenho com ela, foi em alguma das tardes de sexta-feira que eu e minha irmã passávamos lá jogando stop e quando caiu a letra N, nenhum de nós conseguia pensar em um animal. Depois de uns 5 minutos minha vó gritou stop e falou que tinha pensado em 2 animais com a letra N: namorado (o peixe) e ninja (a tartaruga). HAHAHAHAHA que mujer.

Meu avô materno é um caso a parte. Está pra nascer alguém tão generoso nesse mundo quanto ele. São paulino, noveleiro e ex-bigodudo, ele é um dos meus maiores exemplos de homem de caráter e integridade, se não for o maior. Desde que eu me entendo por gente, eu acho que nunca vi ele fazer absolutamente nada que pudesse prejudicar alguém, ou negar ajuda a alguém que precisasse, independente do que fosse. E só tem 1 coisa que tira ele do sério, que inclusive está no meu top 3 coisas que mas me fazem dar risada, que é quando ele sai pra dirigir. Quando alguém faz alguma burrada no trânsito (ou só demora um pouquinho pra dar partida quando o sinal abre), ele olha pra placa do carro e solta um sonoro “êêêê nó cego, tinha que ser de [insira aqui a cidade de onde a pessoa é]” HAHAHAHA. Menos se a pessoa for de barueri, aí ele perdoa. E como se não bastasse tudo isso, o cara ainda é perdidamente apaixonado pela mulher, olha que coisa linda. Diariamente ele fala que a ama e em contrapartida ela finge que não vê quando ele coloca um pouco de alho extra escondido embaixo do pedaço de pizza, ou quando ele come mais quindins do que a saúde dele permite. Que. Casal.

Por falar nela, minha avó por parte da mãe é outra figura ímpar. Tão benevolente quanto o marido, é uma das mulheres mais cheias de história que existem. Já viajou o mundo inteiro ida e volta e não esquece nenhum detalhe sequer. Sério, ela lembra de TUDO. E ainda por cima fala um tantinho de húngaro. Apaixonada por flores, ela também está se tornando uma fotógrafa de mão cheia. E como ela não quer ficar ultrapassada, agora ela posta no facebook todas as fotos que tira, direto do ipad dela. Calcule o quanto isso é demais. Não bastasse tudo isso, ainda cozinha muito bem e, que me perdoem as outras avós pelo mundo, mas ela faz o melhor arroz doce de todos. Não tem uma vez que a gente se encontre, que ela não fale “rafa, vai lá em casa qualquer dia, mas me avisa com antecedência pra eu preparar um arroz doce pra gente, tá?”. E ela prepara mesmo. Uma panela. Gigante. Mas agora se preparem pra melhor história de todas, eu já tô rindo aqui. Uma vez a família inteira estava reunida e, sabe-se lá porque, todo mundo tinha tomado um pouco a mais de vinho/cerveja, então todos estavam meio alegrinhos. Por algum motivo completamente aleatório, nós começamos a falar partes do corpo com as letras do alfabeto: antebraço, braço, cabeça, dedo, etc. Quando chegou na letra X, ninguém conseguia pensar em nada, mas minha vó começou a cascar a bica no canto da mesa. Aí nós perguntamos o que era e ela disse que sabia 2 repostas: xereca e xavasca. Senhoras e senhores, essa é minha vó. HAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHA foi o dia que eu mais ri na vida.

O texto começou meio sentimental e terminou meio malhuco, peço perdão. É difícil escrever sobres meus avós, mas enfim, a moral da história é: jogar stop com suas avós gera histórias muito boas.

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