POKÉMON, CHURROS E O PESSOAL DO CINEMA

Minha infância foi baseada em 3 coisas: jogar um futebolzinho no quintal de casa, ir na feira comer pastel tomando groselha naquelas pistolinhas de plástico (que hoje renderiam textões quilométricos por apologia às armas) e assistir um pokémon faceiro logo depois do almoço. Esses eram os 3 pilares da minha alegria enquanto criança dos anos 90. Aquilo que os franceses costumam chamar de Bonheur Triad, ou tríade da felicidade (acabei de inventar isso aí, mas ficou show de bola fala tu).

E como no alto dos meus 7 anos eu não tinha muitas responsabilidades, quando pokémon foi lançado aqui no brasil, eu não perdia nenhum episódio. Eu chegava do colégio umas 11h30, lançava um arroz-feijão-salsicha monstruoso e corria pra frente da tv. Na verdade, provavelmente essa era a rotina de uns 97,8% da população infantil brasileira dessa época.

Se você não viveu o ano de 1999, deixa eu tentar explicar mais ou menos o motivo dessa febre quando o desenho foi lançado: você gosta de churros, certo? Se você não gosta, primeiro que você é um mau caráter sem tamanho e segundo que você pode apertar o xis vermelho no canto superior direito da vida. Enfim, imagina que você vive num mundo onde os churros estão cada vez mais raros e o maior mestre cuca do mundo chega pra você e fala:

‘oi toma aqui esse churrão sequinho de 3 metros recheado de doce de leite com cobertura de granulado até dizer chega’

Demais, né? Então…

Pokémon era uma espécie de churros com uns poderzinhos

Sério, não tinha uma criança que não gostasse de assistir. Era uma espécie de vício legalizado, uma cocaína em forma de anime. Por isso, quando o primeiro filme de pokémon foi lançado em 2000, as filas dos cinemas pareciam barraquinha de cachorro quente depois da balada, só que numa versão cheia de crianças na larica por um desenho.

já tô chorando de lembrar do ash virando pedra

Esse filme em questão, foi a minha primeira experiência dentro de um cinema (antes de começar esse texto, eu podia jurar que tinha sido jurassic park 3, mas procurei aqui e ele foi lançado só em 2001). E naquela época não tinha essas facilidades todas de hoje em dia, de comprar ingresso online e escolher lugar pra sentar não, era tudo na raça. Você chegava na bilheteria, comprava e já ía pra fila pensando em qual fileira mais ou menos seria melhor pra sentar.

Atualmente, alguns anos mais velho e assalariado, ir no cinema é uma das coisas que eu mais gosto de fazer quando eu saio de casa (tanto é que estou fazendo maratona dos filmes do oscar). E de tanto frequentar esse lugar, eu comecei a reparar nos tipos de pessoas que vão lá, vê só:

Nas 3 primeiras fileiras, fica a turma que eu costumo chamar de salompeiros. Essa galera é composta basicamente por casais, onde a mulher pediu pro namorado/marido comprar um ingresso praquele filme que ela estava doida pra assistir, mas ele esqueceu e quando foram comprar em cima da hora, só tinha sobrado lugar ruim. Se você fechar os olhos e pensar com bastante força nessa parte da sala do cinema, dá quase pra sentir o cheiro do salompas que eles vão ter que usar no dia seguinte, tamanha a dor no pescoço de ficar olhando pra cima pra enxergar a tela.

Nas 3 últimas fileiras, ficam os djovens baderneiros. Existe toda uma cultura completamente ilógica que faz com que os adolescentes entre 13 e 17 anos acreditem que ir assistir ao filme lá do fundão seja algo divertido. Normalmente, eles passam o filme inteiro tentando mandar uma piadinha fora de hora e atrapalham o resto da sessão. E quando alguma pessoa sensata resolve reclamar com eles, as frases mais usadas são “que xiu o quê ow”, “tô pagando” e “era melhor ter ido ver o filme do pelé rs”. Negra Li que me perdoe, mas não tem como levar os jovens a sério não.

Nas laterais da sala, ficam os pombitchos. Quase tão inconvenientes quanto os djovens, eles pagam ingresso pra ficar o filme inteiro dando umas beijocas. Mas ainda assim, eu prefiro muito mais os casais que não tiram a língua um do outro, do que aqueles em que o cara, tal qual o galvão bueno da 7ª arte fica narrando o filme inteiro pra namorada.

E, finalmente, ali no miolo é onde ficam as pessoas sensatas. E algumas pessoas que comem pipoca fazendo muito barulho. E umas pessoas altas demais que sentam sempre na minha frente. E as pessoas que não sabem que o apoio de copo delas é o da direita e usam o meu pra colocar o refri. E aquelas famílias que levam criança pra filme de adulto e ela fica o tempo todo falando e sendo ranhenta. Basicamente é onde fica o misturê que sobrou e você tem que cruzar bem os dedos pra calhar de ser um pessoal legal.

Pensando bem, tem certas vezes que eu até entendo aquela galera que compra todos os ingressos de uma sessão pra assistir ao filme sozinho.

E acho válido sempre lembrar dessa ideia, ó: