UM TEXTO SOBRE ATRAVESSAR RUAS

Você tá voltando pra casa depois de um dia cansativo de trabalho, plenas 19h e aquele sol de fim de tarde maldito que atravessa 436 bilhão de km vindo diretamente nos seus olhos (“isso aí é culpa do PT sério meu olha que ideia de girico esse horário de verão, já era pra esse sol aí ter se posto faz tempo”). Você dá aquela acelerada no passo e vai ziguezagueando na calçada pra pegar um pouco da sombra da árvore e depois um pouco da sombra dos prédios. Até que chega na esquina, coloca a mão em cima dos olhos simulando a aba de um boné pra conseguir enxergar melhor e se prepara pra atravessar a rua.

Dá aquele passinho extra - que sua mãe teria repudiado na sua infância - pra ficar com os dois pés apoiados na beirinha da guia, estica um pouco o pescoço pra ver por cima do carro que tá estacionado em cima da faixa de pedestres e vê que tem 2 carros descendo a rua:

— Hm beleza depois do corsinha eu vou — você pensa.

Até aí tranquilo, o primeiro carro é um pálio que vai lá e passa rapidinho vruuuum ok passou cumpriu seu papel na sociedade enquanto automóvel. Mas o corsinha… aah o corsinha não. Esse aí, assim como se o Adam Sandler naquele filme Click tivesse setado o controle remoto para o modo slo-mo e apontado em direção ao veículo, vem dirigindo sem pressa nenhuma.

olha que carinha de mala

Essa hora, já sem paciência, você começa a encarar o motorista vindo lá longe na maior tranquilidade. E ele vai vindo. E você encarando. Ele vindo. Você. Corsinha. Você. Corsinha. Vosinha. Corcê. Vorcêsinha. Vruuuuuuuuuuum. Quase como se o motorista estivesse tentando controlar o pedal do acelerador só com a força do dedinho, o corsinha finalmente passa a 3km/h e vai embora. Você solta aquele desabafo silencioso em forma de bufada, xinga mentalmente 7 gerações do motorista e balança um pouco a cabeça negativamente “deus me dê paciência, porque se der uma bazuca eu mato um eiuheieu essa eu vou postar no face depois”.

VRUUUM VRUUM VRUM VRUUUUM VRUUUM

“¿Uéééé?” o corsitcha demorou tanto tempo pra passar ali, que a rua ficou tomada por um trânsito normal. E passa carro, passa ônibus, passa bicicleta, passa moto, passa negão, passa loirinha, quero ver você passar por debaixo da cordinha. Nesse momento, você começa a lembrar de todas as noites que você gastou com jogos em flash parecidos com o famigerado frogger do atari, e percebe que talvez até dê pra atravessar no meio dos carros, fazendo aquele sinalzinho universal com a mão.

opa licença rapidinho epa tô passando brigado

Com medo de ser atropelado por um sedan rosa choque na faixa central da avenida, você espera pacientemente. De vez em quando, dá uma olhadinha pra ver se não sobra um espacinho, o corpo chega a inclinar pra frente, mas aí você volta e espera. “Eita, agora dá, hein!!! Opa, desculpa amigo, não vi seu carro”. E a cada segundo que passa, você começa a perceber que não dá mais pra essa situação continuar assim, simplesmente não dá pra deixar esses carros controlarem o seu direito de ir e vir. Onde já se viu ser controlado por um monte de metal irracional?! O homem tem mesmo sido cada vez mais e mais controlado pelas máquinas, isso não tá certo! Chegou a hora de mudar e é você quem vai dar o primeiro passo!! Esse dia há de ser lembrado como a nova revolução industrial!!!

Ao longe, a oportunidade perfeita: um corsinha é o último carro da fila. O cosmos conspirou para que esse encontro acontecesse novamente, é o momento da vingança. É na frente deste corsa que você vai reescrever a história, vai atravessar de peito estufado e mostrar que o ser humano pode e DEVE prevalecer.

Tal qual as cruzadas medievais, vocês já se prepara pra fazer a travessia da sua vida. Chegou o momento de honrar seus ancestrais. Fazendo uma pose de dar inveja em qualquer Usain Bolt, você se prepara e pode jurar que ouve um tiro dando a largada. Passo após passo você vai ganhando terreno… hoje é o dia em que será decretado o fim do império das máquinas. Você encara o corsinha e mentalmente chega a gritar

CHUPAAAA TRANSFOOOOORMERS!

Na metade do caminho, por uma fração de segundos você vira a cabeça pro outro lado e de rabo-de-olho™ percebe que o farol está fechado. O corsinha lentamente vai parando antes da faixa de travessia. Você dá aquela segunda olhada, só pra confirmar… é, tá fechado mesmo. E só resta terminar de atravessar a rua dando aquela corridinha feia que só os tios gordos em pelada de fim de ano sabem dar, com os braços meio encolhidos do lado do corpo e um trote desengonçado.

Você chega na calçada e começa a andar normalmente de novo. Você nem está com pressa, meu, porque você foi correr?

Depois de andar 10 passos, você apalpa os bolsos. Esqueceu o celular na mesa do escritório. Olha pra trás, o farol está abrindo. Quer saber? O homem precisa mesmo se sobrepor às máquinas, dane-se o celular.

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