TSUNAMI

A primeira onda bateu no meu rosto de supetão, como um despertador desregulado que acorda uma pessoa atrasada pro trabalho. A água me banhou por completo, com centenas de gotas indo diretamente no meu olho e me cegando temporariamente. Senti a espuma invadir minha boca indefesa e sufocar minha respiração despreparada. Cambaleei.

Segunda, terceira e quarta ondas vieram quase indistinguíveis, com um intervalo millisegundal entre elas. O turbilhão aquático me envolveu sem aviso prévio, me fazendo refém de um fluxo agressivo que cobria meu corpo e me atordoava. Estendi os braços como um último socorro, mas as investidas ondulares digladiavam com as minhas palmas. E o meu esforço para conter esses ataques eram tão efetivos quanto ficar inerte.

De roupas encharcadas e com pouquíssima área visual na minha frente, meu destino estava sendo selado por cada muro líquido que crescia ante a mim e despencava na minha cabeça. Pedir ajuda não era uma opção, já que mesmo se alguém me ouvisse, eu teria que torcer para que me entendessem. Balbuciei um tímido “Socorro!” (e por mais que a situação não favorecesse, naquele momento me veio à memória os cursos interrompidos que eu tinha no duolingo. Tivera eu sido mais persistente, e poderia ter aprendido a pedir auxílio em outras línguas, mas a minha procrastinação fez com que eu chegasse apenas até “El perro bebe la leche” e “Le singe mange la pomme rouge”). Minha voz saiu em vão.

A tormenta apertava e a água não parava de atingir meu corpo de forma lancinante. A tensão me rodeava e o fim se aproximava. Foi neste momento que, tal qual no filme “o sexto homem”, eu senti uma força externa agir sobre mim. Repentinamente, uma lacuna abriu-se no meio das ondas e a solução se apresentou explícita. Estabeleci meus pés no chão como uma fundação sólida, enrijeci meu braço e o forcei contra as correntes que continuavam a me golpear, estiquei cada centímetro dos meus dedos fatigados e, com as últimas barrinhas de força que ainda me restavam, consegui tirar a colher debaixo da água da torneira.

Lavar louça é difícil demais.