tudo está melhor do que parece;

era um daqueles dias longos e serenos que começaram a aparecer na minha vida. dias solitários, que têm bem mais que 24 horas e que ampliam a capacidade de conversar de igual pra igual com a nossa essência.

o silêncio dessas horas é dos mais bonitos — é como ouvir o som que a lua faz quando ilumina o mar.

tudo parecia estar certo aqui dentro. e assim também era com o lado de fora. deve ser porque as pequenas partículas de mundo que cruzam o meu caminho durante esses dias novos têm uma beleza única: é tudo banhado por uma luz incomum. e não consigo esquecer o silêncio que faz.

não fosse um pequeno descuido involuntário, tudo continuaria em seu curso natural, como brisa leve. descuido este tão tolo, como a maioria dos descuidos de amor. veja só: a gente sabe que o presente nunca poderia ter sido outra coisa. ele é o que é. e mesmo assim a gente insiste em pensar que poderíamos ter feito diferente. vivendo em um tempo que não existe.

foi num desses descuidos que vi meu coração virar uma bomba-relógio e minha mente se perder no abismo entre sonho e realidade. não que isso já não tenha acontecido antes, mas dessa vez eu era outra — pagando o preço por compreender com consciência a complexidade da minha existência, e com a promessa de que não abriria mais as portas para a ilusão.

era isso que vinha acontecendo, verdade seja dita. até eu cair com este pequeno tropeço, bagunçando tudo. de início, me perdi. distração típica daqueles que amam sem planejar.

me perguntei repetidas vezes sobre o que eu devo duvidar quando algo falha aqui dentro e foge do controle. [visão turva].duvidei de tudo de forma miserável; até autopiedosa. que ingênua, era óbvio que tudo poderia acontecer da maneira mais improvável, contrariando todas as expectativas que inundaram minha cabeça. não tinha sido sempre assim? não era isso que, no final das contas, você gostava em todas as suas histórias: ver o improvável ganhar sentido e sincronicidade diante dos seus olhos?

foi aí que compreendi que às vezes a gente se lança pra longe da vida cotidiana com a esperança de que do outro lado do oceano as coisas sejam melhores e possam acontecer em paz. quando, na verdade, os pequenos lampejos que mudam tudo não escolhem nada disso pra acontecer. é no detalhe quase imperceptível que está o segredo do amor.

amar sem querer é uma aventura. em que outra condição a gente tem esse medo sincronizado de perder o compasso, mesmo quando a música já parou de tocar?

[faz tempo que está tudo certo]

Rafaela Natacci Musto

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a witch of trouble in electric blue.