Suplementos de RPG
Suplementos de RPG, onde vivem? Como se reproduzem? O que comem?
Eu já tive uma bela coleção de livros de RPG, eles tomavam a prateleira inteira, era apaixonado por ela, extremamente ciumento. Tentar “completá-la” me consumia e me sentia obrigado a comprar os novos e os antigos livros. Eu me desfiz dela, o motivo não é relevante, e hoje digo que isso me fez bem.
Mas desde já adianto, sei bem que poucas coisas no mundo são melhores que o cheiro de livro novo.

Um pouco sobre “O Consumismo”
O livro Why People Buy Things They Don’t Need (Por Que as Pessoas Compram Coisas Que Não Precisam) diz: “Ao planejar uma compra, um consumidor geralmente cria fantasias detalhadas e se imagina procurando, encontrando e levando um produto para casa.” Alguns especialistas suspeitam que as pessoas ficam tão eufóricas ao fazer compras que seu corpo chega a liberar mais adrenalina. Jim Pooler, especialista em marketing, explica: “Se um lojista percebe esse estado emocional, ele pode explorar a empolgação e a vulnerabilidade do cliente”.
Um pouco sobre “Ganhe status e prestígio”
Poucas pessoas admitem, mas Jim Pooler, um pesquisador americano comenta: “Uma das razões principais de as pessoas comprarem é competir com amigos, vizinhos, colegas de trabalho e parentes.” É por isso que as propagandas costumam mostrar seus produtos sendo usados por pessoas bem-sucedidas e ricas. A mensagem transmitida para os consumidores é: “Você também pode ser assim!”. Vejo que no mundo do RPG, ter mais e mais suplementos, possuir guias de todas as edições, edições comemorativas, adereços e tudo sobre um jogo lhe tará algum status, principalmente se ele for bem desconhecido e antigo.
Muitos que compram dizem que estão de boa, parecido com um viciado “Não, só compro o que quero”, mas até a Bíblia já dizia “O mero amante da prata não se fartará de prata.” — Eclesiastes 5:10.
Um pouco sobre “A Real Necessidade”
Comecei a jogar RPG na virada do ano 2000, uma época onde AD&D, Vampiro: A Máscara e GURPS reinavam quase que sozinhos. Nesta época, ainda sem muito acesso à internet, qualquer suplemento parecia um oásis. Bastava alguém conseguir encontrar um livro em um sebo, pegar emprestado com um amigo ou mesmo achar seu link no extinto Kazaa que ficávamos loucos pra ler suas páginas, ou ao menos olhar suas figuras. Era uma época de livros muito ruins. Com centenas de páginas, muitos deles aprenderam a encher linguiça e enrolar o leitor, textos possivelmente escritos com um gerador de lero-lero (Alguém falou Clanbook Ventrue 2ªed?)
Neste tempo os livros de RPG assumiam a tarefa de ser um jogo e enciclopédia ao mesmo tempo. Livros de GURPS ou de Vampiro sobre cidades eram absurdamente detalhados, hoje eles seriam totalmente inúteis, já que qualquer um pode ter quanta informação quiser sobre outra cidade ao redor do mundo. Além disso, os livros te enrolavam, demoravam a lhe trazer informações diretas, tornando a tarefa de “ler tudo” ser bem cansativa (Alguém falou Clanbook Brujah 3ed?).
Um pouco sobre “Caça Níqueis”
Só pra dar uma leve noção sobre essa campanha caça níquel: A linha Mundo das Trevas (Classic e New) possuem mais de 600 livros juntos. D&D por sua vez, em suas 5 edições deve ultrapassar essa marca. Nem vou falar do GURPS, pois aí seria apelar. A pergunta que fico é: Será que realmente tínhamos/temos necessidade de tudo isso? Possuem real qualidade? Acho que não. Essa campanha mercenária foi um dos motores que impulsionaram o cenário do RPG independente, criando jogos mais sucintos, interessantes e menos comerciais. O mesmo está acontecendo com a indústria de games virtuais.

Quando mais se tem, mais se quer!
Um pouco sobre “Novo Tempo”
Vejo que estamos vivendo um novo tempo. Assim como o mp3 mudou a indústria da música, o crescimento dos rpg’s independentes mudou o cenário atual do hobbie. Após algumas décadas de reinado isolado dos grandes jogos mainstream, tivemos uma meia década de criação extrema e produção dos mais diversos e inusitados RPG’s. Hoje acredito que encontramos um bom equilíbrio. Vejo os concorrentes do Ennie deste ano e isso me faz crer ainda mais que estou certo. Jogos de produtoras grandes enxugaram seus lançamentos, repensaram sobre sua qualidade e estão lançando jogos mais completos, mais diretos, mais sucintos e com mais qualidade.
Com seus quarenta anos, amadurecido, cheio de erros e acertos, acredita que estamos no melhor momento desde a criação deste incrível hobbie.