Gaba

Ouvindo música Queniana no meu Spotify, cozinhei brócolis, cenoura, frango, cebola e molho de tomate para meu brunch. O café tinha aroma de caramelo com mel. Era mais de treze na Austrália e antes de partir, li um artigo em espanhol sobre o Sionismo.

A autopista era simples e estava ligeiramente movimentada. Maykou apressado, estava no comando e não se intimidava em acelerar perto do limite do motor. Na garupa, meus níveis de adrenalina subiam ao mesmo nível da minha euforia.

Voltamos rápido após termos concluido a tarefa. Afinal de contas, era aproximadamente uma hora e meia por trecho se mantivéssemos a completamente ilegal velocidade de giro.

Já de volta e coletada a bala, fomos dar uma espiada nas crianças que brincavam entusiasmadas no pula-pula e num desses brinquedos de parque que mais parecem um obstáculo de treinamento pra guerra.

Pra minha surpresa, Nancy estava escondidinha no canto de um desses passatempos infantis, só supervisionando a arte que a molecada aprontava.

“Incrível a força, habilidade e coordenação motora que aquele loirinho com pele morena tem, não é?” — Perguntei.

Ela me olhou espantada e alegre com aqueles lindos olhos verdes e me respondeu calma e serena, como se tivesse sido ontem nosso último encontro.

“A aptidão dele é bem diferenciada das demais crianças. Se ele continuar envolvido em atividades físicas e de coordenação motora, ele certamente poderá usar essas habilidades para alguma atividade profissional num futuro bem próximo.” — Pontuou Nancy.

“Uma pena algumas pessoas ainda não valorizarem o quão legal é literalmente ser capaz de usar a força e destreza do próprio corpo para fazer dinheiro” — Lamentei.

Ao ver que Maykou fazia caras e bocas para encurtar nossa conversa, Nancy percebeu que estávamos bem ocupados se despediu de mim com um daqueles abraços gostosos, cheio de sorrisos e repleto de boas palavras.

Atitude bem típica e compatível à invejável educação e carinho que só ela tem.

Sem demora, peguei meu capacete vermelho e no meu braço direito, o sobrepus como um bracelete. Saímos em direção a moto quando o meu celular tocou. Não reconheci o número e decidi me afastar dois ou três metros antes de atender.

Eu não pude acreditar no que estava acontecendo e por um minuto, eu achei que estava sonhando.

Era Gaba, dizendo que tinha finalmente chegado à uma conclusão depois de pensar e remoer por mais de quatro anos. Com uma receptiva voz de lamento misto com satisfação, foi logo dizendo que já havia conversado com o pai dela e que daquele ponto em diante, seria apenas uma questão de adequar a logística das mudanças.

“Claro, quero dizer, como assim meu?” — Retruquei pasmo e literalmente boquiaberto.

Maykou estava encostado na moto olhando pra mim com uma cara de muito puto.

O que direi à Catarina e como tudo isso vai acontecer? Pensei.

“Eu queria muito te ligar e acredito que vai ser pra valer agora” — Exclamou Gaba do outro lado.

“Olha, eu achei demais essa ligação, muito mesmo. Mas você deve imaginar que eu não estava esperando por isso. Afinal, são mais de quatro anos e as coisas podem não ser tão fáceis como você imagina. Eu confesso que estou meio perdido e que isso não será uma situação fácil de se equacionar.

Esse número é seu?” — Apenas escutei um sussurro de confirmação que foi o suficiente pra eu escapar daquela posição.

“Eu te ligo mais tarde então pois, eu realmente preciso ir agora.”

Maykou acenou negativamente com a cabeça e com um olhar cabisbaixo, me lançou no guidão da moto.

Nenhuma palavra foi dita a partir daquele momento e em alta velocidade, outra vez partimos estrada a dentro.