Dualidade emburrecedora
O radicalismo raivoso e a intolerância estão mostrando que já passou da hora de termos um debate sério sobre a polarização da politica.
A campanha eleitoral inflamou o maniqueismo político. As duas campanhas “de sempre” tentaram insistentemente se apresentar como representantes do bem supremo contra o mal abominável, reciprocamente. E é preciso entender que isso interessa a eles.
Após a derrota de Marina e da possibilidade de mediação da dualidade (exceto dos fanáticos dos dois lados) todos os que discordavam de forma razoável do governo foram jogados para o campo de Aecio, onde estavam — também deslocados — golpistas e militaristas. A bem da verdade, estavam eles ali também deslocados: por maiores as divergências com as práticas tucanas, não é razoável associar o partido ao descaso pela democracia nem à direita indiferente às desigualdades. A socialdemocracia que representa é, convenhamos, cada vez mais dificil de diferenciar das adotadas pelo PT do governo.
Ressalto que a crítica à polarização de todo debate (na dualidade BEM x MAL) não propõe negar as diferenças. Ao contrário, propõe que há mais de uma forma de discordar. O maniqueísmo, sim, é que impede de reconhecer e aprender com as diferenças.
Ao admitirmos que toda oposição deve ser rotulada e depositada no baú único das discordâncias, aqueles que se opõem com substância e respeito são colocados no mesmo “polo” do que é motivado pelo ódio e pela torpeza. Rotular sem considerar é uma prática que acirra o ódio porque desumaniza e dispensa o respeito ao outro como agente pensante. Na política, equivale a jogar no mesmo lugar pessoas que tem motivações e princípios antagônicos, permitindo que a pequenez autoritária possa se somar às vozes sensatas para capitalizar.
Nem todo o PSDB é atrasado, nem todo o PT representa avanço. Nem todo PT é corrupto nem todo PSDB é diligente. Mas foi isso que ambos tentaram difundir durante a campanha. E essa é uma garantia de conforto porque não exige mudarem a linguagem por meio da qual puderam monopolizar a política por tanto tempo.
Por isso é tão difícil dialogar com quem está preso a essa lógica. Não deixa de ser um porto seguro que simplifica o que é complexo e resume toda a diversidade a dois lados, indicando quem está “do nosso lado” e quem é “inimigo” e não deve ser escutado (nem respeitado). Assim, mudar de ideia transforma-se em “mudar de lado” ou “traição.” Perde-se, então, a liberdade de pensar, de refletir e mudar de ideia.
E essa pode ser a principal razão da degradação e da odiosidade dos debates eleitorais. Como todo simplismo, vicia porque acomoda (ou acomoda porque vicia) ao dispensar a autocrítica e a escuta compreensiva.
Me pergunto se, ao se impor como baluarte absoluto da igualdade e do progresso, igualando todos os adversários como representantes da decadência — a ponto de escolher Aécio e os inquilinos arcaicos para co-protagonizar segundo turno -, o PT não apenas impediu um debate no campo mais progressista e construtivo , mas privou o país da oportunidade de desalojar de vez os parasitas do anacronismo — e reforçou o telhado que continua abrigando essa irracionalidade raivosa.
A inconsequencia politica tem consequencias.