Silêncio, por amor.

Visitei meu blog há algumas semanas e percebi uma coisa: eu não escrevo mais meus pensamentos voadores, não comento mais as coisas que me emocionam e não crio mais contos; não como antes.

Fiquei pensando e acho que tem a ver com um endurecimento e uma preguiça de se explicar. E isso tem a ver com um certo patrulhamento emocional que acontece na rede: uma forma de repressão que é sutil mesmo quando se manifesta com grosseria e violência.

Você escreve um conto sobre amor, logo tem um monte de gente com pena, mandando mensagem pra saber se cometeu suicídio (e nem adianta explicar que era só um conto ficticio ou uma poesia por uma lembrança antiga). Uma vez uma ex-namorada me fez ligar pra ela de outro país porque leu uma notinha minha sobre confiança e achou que era um recado pra ela.

Você escreve uma crônica sincera, contando o que sentiu em determinado episódio, num momento de sufocamento da esperança ou de frustração; pronto, por meses vai ter que reservar um tempinho em toda festa que for pra explicar que está tudo bem (isso quando não tiver que aguentar chacota sobre o seu sentimento).

Você recomenda o silêncio como método aprendizado ou a solidão como forma de crescimento e vai receber comentários de amparo, palavras de estímulo e inspiração ou um longo estudo chinês sobre a importância da convivência social (como se você fosse um ermitão pregando a fuga para as montanhas).

Recentemente vi um famoso escritor, reconhecido por escrever livros e crônicas sobre saudade, amor e felicidade , dizendo que nas redes sociais as pessoas expõem demais suas emoções, que isso não é bom etc.

Pensei na hora : o cara escreve UM LIVRO com sentimentos e sensações profundas e vem falar que um anônimo não pode escrever o que sente. Mas hoje, repensando, encontrei uma razão pra isso: nós não sabemos como lidar com os nossos próprios sentimentos e menos ainda com os sentimentos dos outros.

Por não sabermos lidar, jogamos logo pra fora, sem um intervalo de maturação; por não saberem lidar, os outro reagem logo querendo expelir o incômodo.

Não aprendemos o que fazer quando alguém nos oferece seu íntimo e compartilha um sentimento: uns fingem que não ouviram, outros fazem uma piada pra “levantar o astral”; uns desatam a dar conselhos lidos em horóscopos de revistas de fofocas, outros se penalizam; mas ninguém sabe o que fazer com aquilo. E os que menos conhecem de sentimentos são os que mais agem pra abafar logo a sua expressão.

De fato, expor emoções virou um perigo para você e para todo mundo. Criamos um acúmulo infinito de sentimentos mal vividos, mal resolvidos e mal acolhidos.

Eu digo — e não importa por qual forma de expressão você se deparou com um sentimento (se foi num grito do namorado ou numa poesia): já que não sabemos como lidar, o melhor que podemos fazer é aprender a apreciar as emoções.

De preferência, em silêncio.