Sobre o dia em que seremos democráticos

Um dia a gente vai ter que poder conversar seriedade sobre política. Mas uma conversa entre todo mundo mesmo.

Neste dia, a gente vai ter que mostrar nossos projetos políticos, fundamentar as nossas posições e entender as condições para implementá-las. Neste dia, a gente vai ter que provar nossa disposição e capacidade de criar convergências e de aceitar que há inteligência para além de nós, nossos grupos, nossos líderes e nossos intelectuais favoritos.

Em outras palavras: um dia a gente vai ter que começar a fazer política de verdade e parar de achar que democracia é só “falar o que pensa” e promover conflito pelas nossas ideias. Criar conflitos é parte da democracia, mas criar convergências também é (só que dessa parte todo mundo parece ter esquecido).

Por isso, no dia em que a gente for de fato democrático, a conversa não vai começar com declarações de posições nem argumentações, mas ajustando o que entendemos por política: pra que serve, quem faz, como faz. E isso, infelizmente, não há mais quem ensine: Formação Política, quando existe, é sinônimo de doutrinação ideológica.

Primeiro, precisamos definir juntos o que é e o que não é aceitável fazer (individual e coletivamente) e quais limites estamos dispostos de fato a aceitar para que nossa liberdade de pensar e agir não impeça a liberdade alheia de expressar ideias. Tudo o que conflitar com isso não será aceito mesmo que não seja ilegal ou seja feito por aliados.

Em seguida, vamos ter que conversar sobre o que precisa ser garantido para preservar a democracia. Aí, então, vamos notar que é para isso que servem as instituições e as regras democráticas e decidiremos que toda corrupção, todo desvio de finalidade (seja para proveito particular ou para fins partidários) é uma ofensa à democracia, não só à moralidade.

Neste dia (quando seremos de fato democráticos), eu arrisco dizer que vamos refletir sobre os “sujeitos da democracia”: para pensar e defender ideias com credibilidade e responsabilidade, o cidadão precisa de autonomia. E, para isso, precisa ter conhecimento e autoconhecimento, confiança e auto-confiança; precisa ter autoestima e ser capaz de se autorregular (dentro dos limites definidos coletivamente).

Talvez, então, desatemos um grande nó da política: concordaremos que a pobreza e a marginalização afetam a autonomia do indivíduo — e isso prejudica a democracia. Essa conversa terminará depois, mas já teremos um compromisso de encontrar formas de garantir dignidade a todos e acesso a uma rede de bens e serviços públicos. Não haverá mais dúvida de que a exclusão social não é uma questão econômica.

Além disso, vamos reconhecer que antes de sermos cidadãos, somos pessoas; e que pessoas têm muito mais que necessidades econômicas e sociais: têm necessidades emocionais, espirituais, sentem inseguranças e medos e isso as torna menos livres. Pessoas precisam de felicidade e solidariedade para se sentirem seguras, e isso só será possível quando for incorporado como um valor fundamental para “a política” (independente do sistema econômico).

Tendo a acreditar que, deste dia em diante, nenhum discurso ou ação que afronte a autonomia individual será aceito. Nenhuma medida que fragilizar o espírito de comunidade e a solidariedade (que geram segurança) será aceita. Nenhuma política nem discruso que fomente o individualismo serão aceitos. Simples assim.

Além disso, qualquer prática que não tratar os cidadãos com maturidade será repudiada: a demagogia, o populismo, o paternalismo e tudo o mais que infantiliza as pessoas e deprecia a cidadania.

Neste dia, imagino eu, independente de nossas posições políticas, vamos concordar que a mentira na política não pode ser aceita, mas não mais por razões morais (comumente aproveitadas pelo moralismo). A mentira e a manipulação afrontam a autonomia do indivíduo e nós já teremos concordado que isso viola a democracia.

As mentiras dos jornais e dos dirigentes partidários serão vistas igualmente como inaceitáveis. Enganar é uma estratégica de guerra e nós já teremos descoberto que a política não é uma guerra, apesar de sua natureza conflituosa.

Depois de horas nessa primeira conversa vamos perceber que tratamos apenas dos alicerces para a prática política. Faltarão, ainda, várias outras dimensões da democracia para considerarmos antes de começarmos a bradar nossas convicções.

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