Prólogo

A morte no século 22

-Hahahahaha

-Silêncio.

-Nós nunca vamos morrer.

-Vão, e vão lembrar dessa aula.

E não é que aquela tele aula estava correta?

De fato 200 anos são muitos anos, mas definitivamente não é para sempre.

Robotização é cara de corpo e espirito, problemas de superpopulação e toda essa baboseira. O fato é que eventualmente a hora chega.

Eu poderia me sentir como eu quisesse sobre essa situação, existem literalmente botões na minha mente que me permitem escolher enquanto aguardo o inevitável ou decido por adiantá-lo. Prefiro não escolher.

Foram 200 bilhões de predecessores, desses alguns milhões de gigantes, nenhuma cartinha de volta, mas todos passaram pelo mesmo.

Eu nem consigo imaginar quantas formas diferentes o sentimento de despedida, quantos arrependimentos diferentes dominaram esse momentos finais. Talvez todos os possíveis, talvez só a ponta do iceberg.

A essa altura nem vejo muito o ponto desse exercício, a vida foi justa comigo, vivi, me diverti, sofri e agora o fim se aproxima.

Mas não acho certo fugir dele, o peso das suas últimas palavras, do balanço da sua vida a ser anexado no registro permanente da humanidade.

Até sentir pés frios a essa altura tem pouco nexo, o abismo ao lado, claramente olhando de volta mas o limite foi ultrapassado foi meses atrás agora é tudo uma questão de inércia.

Sobre a vida, um pouco mentira, há pouco sentido em não ser sincero aqui. Perto do fim…Perto? Nos últimos 50 anos, tempo de viver duas vidas bem vividas depois de ter vivido outras três, a velhice como decrepites inexistente mas a rabuja como companhia constante, os dejavus frequentes. Os papos de velho que se arrastam, sempre demais,histórias demais, sofrimento demais por tempo demais.

A constante inveja da juventude de 20 anos, observada de binóculos a 10 existências de distância. A prisão na crença rígida que aquilo não vale a pena que você já viveu aquilo dezenas de vezes e que sua companhia são os velhos.

Eu queria… Queria… Ter alguém para se doer que me vou, que algum amigo estivesse vivo para que eu não sentisse saudade da vida sozinho.

É muita pretensão, muito egoísmo, desejar viúvas carpideiras para sofrer por mim quando não estiver mais disponível para esse papel. Desejar sofrimento aqueles que me amavam só para tirar esse fardo dos meus ombros.

Mas a vida é, o que é no fim nada importa, sempre foi assim o grande equalizador reis, homens e deuses.

No fim é só você,a escuridão e a saída.

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