Velho de guerra

Qual a distância você já esteve de uma guerra? Guerra, guerra mesmo. Daquelas que a gente só vê pela televisão. Se perguntarem isso pra mim, a resposta está na ponta da língua. Cinco horas de carro.

Quando estive na Jordânia, em setembro de 2016, tirei um dia para conhecer a região no entorno de Amã, a capital daquele país. Rani, um homem de bigode e cabelos brancos, além de taxista, foi meu guia turístico naquela terça-feira.

Deixamos o hostel ainda de madrugada. Apesar do clima desértico, fazia frio. Durante o trajeto, entre uma cidade e outra, conversamos bastante sobre vários assuntos. Futebol. História. E até sobre o preço local da gasolina comparado ao Brasil. Mas, o que mais me interessava, naquele momento, era a guerra no país vizinho, a Síria. Segundo ele, havia, de acordo com o último levantamento do governo, cerca de 2 milhões de refugiados sírios somente na Jordânia.

Natural da Palestina, Rani contava-me tudo aquilo com profunda tristeza. Afinal, muitos parentes e amigos ainda permaneciam próximos a algumas zonas de conflito. “A Síria está devastada e levará muito tempo até ser reconstruída”.

De repente, ele pausou a fala, olhou fixamente para uma placa e ordenou. “Pegue sua câmera”. Fiquei sem entender nada. Porém, logo em seguida, tratou de explicar. “Vamos passar em frente à fronteira com a Síria”. Na hora, eu gelei. Mas, ao mesmo tempo, tomado por um medo sedutor, não pude conter o êxtase. A velocidade do carro foi diminuindo, diminuindo e, então, ele apontou. “Ali, fotografe”. Syrian Border.

A partir daquele ponto, estávamos a poucas horas da guerra. O taxista, em tom de brincadeira, perguntou se podíamos seguir viagem até Alepo. Em bom português, a resposta também estava na ponta da língua. “Céloco”.