Porque é tão difícil achar um sócio CTO?
Atualmente a quantidade de pessoas interessadas em empreender, montar seu próprio negócio digital ou empresa de prestação de serviços digitais tem aumentado exponencialmente.
As pessoas estão largando seus empregos tradicionais e se aventurando num mundo onde a internet é o palco das negociações, transações e entrega de valor. Mas a grande maioria dessas pessoas nunca escreveu uma linha de código na vida. Se o fez em algum momento, não está disposta a colocar a mão na massa para desenvolver ou arquitetar a sua solução digital.
Logo essas pessoas só tem duas opções:
- Pagar alguém ou uma empresa para fazê-lo
- Convencer pessoas com esse know-how a embarcar como sócio nessa aventura
A opção 1, eu pessoalmente, acho desaconselhável. Se você está começando um negócio digital do zero, terceirizar o desenvolvimento do seu core-business é muito arriscado. E se você não tem o mínimo de conhecimento técnico na área, não vai conseguir avaliar a qualidade do código entregue, nem fazer uma especificação assertiva do que o sistema desenvolvido deve fazer, portanto várias lacunas de funcionalidade vão surgir e você só vai descobrir quando já tiver gasto uma baita grana e perdido muito tempo.
Nesse momento você pode estar pensando: “Tudo bem, mas eu preciso apenas de um MVP! Se eu conseguir um bom programador pra fazer meu MVP e colocar ele no ar, resolvo meu problema.”
Hoje uma das maiores dificuldades das empresas de tecnologia é encontrar bons profissionais com conhecimento na área de programação, arquitetura de sistemas, engenharia de software e gestão de projetos digitais. Um bom profissional com esse conhecimento e experiência de mercado recebe dezenas de ofertas para ir para o exterior, onde vai ter uma qualidade de vida muito melhor, trabalhar para empresas do exterior mas recebendo em euro ou em dólar ou trabalhar em empresas grandes e consolidadas no Brasil recebendo um salário absurdo e vários benefícios como horário flexível, possibilidade de home-office entre outros.
Agora eu te pergunto: porque esse cara, que já tem uma puta oportunidade de carreira, salário, benefícios, ofertas o tempo todo, deveria trabalhar de graça pra você?
Muitos empreendedores acreditam ter encontrado a oportunidade dos sonhos, o próximo unicórnio, que vai revolucionar o mercado fazendo o próximo uber para vendedores ambulantes, ou o próximo airbnb para cachorros ou o próximo tinder para pessoas tímidas e introvertidas, as idéias são infinitas.
Agora que garantia o seu potencial candidato a CTO tem de que você é a pessoa certa que vai, de fato, conseguir tirar essa idéia do papel? Que garantia ele tem que você não é só mais um aventureiro, que ficou deslumbrado com as histórias fantasiosas que a mídia conta para conseguir cliques, de empreendedores que criaram um aplicativo em uma semana na garagem de casa e ficaram bilionários, acreditando que só é preciso encontrar um programador pra fazer todo o trabalho e colocar o sistema no ar e automaticamente os clientes, fama e investidores vão vir correndo pra você?
É surreal a quantidade de aspirantes a empreendedor com essa mentalidade. E não são só jovens inexperientes deslumbrados que caem nesse conto. Existem empresários de carreira em empresas multinacionais tradicionais, advogados, contadores, engenheiros, com anos de experiência no mercado que acreditam nesse conto de fadas e saem por aí a procura do programador que vai torná-lo um bilionário da noite para o dia.
Antes de chegar com uma proposta para um potencial sócio CTO, o mínimo que se espera, é que a pessoa que está fazendo a proposta tenha bom-senso e tenha feito seu dever de casa.
Qual a experiência do aspirante a CEO no mercado que ele quer atacar? Qual o tamanho desse mercado? Os objetivos a curto, médio e longo prazo são realistas? Existe, de fato, uma demanda para esse produto, e como ela foi validada? E a habilidade com gestão de projetos? E as expectativas, são realistas?
São muito comuns os casos de pessoas que tentam convencer programadores a trabalhar de graça em projetos em troca de participação nos lucros. É isso mesmo. O programador vai trabalhar de graça, não vai ser nem sócio do negócio, ninguém sabe se ele vai dar lucro um dia, ou se vai, quanto vai dar de lucro. E tem programadores, bem inocentes, pra não dizer outra coisa, que caem na lábia desse pessoal. E trabalham de graça, a parada não vai pra frente, e se vai, não dá 1 centavo de lucro, o programador é pressionado a entregar cada vez mais até ele se cansar e sair fora do projeto. Ele jogou horas de trabalho duro pra nada.
Sem contar também que existem os contratos de vesting abusivos, que a maioria das pessoas com background em tecnologia não tem o conhecimento jurídico necessário para julgar, e acabam aceitando. Novamente o programador faz todo um trabalho duro por nada.
Tem muita pessoa no mercado mal caráter, que muitas vezes já veio de uma carreira consolidada, tem bons antecedentes profissionais, mas na hora de conseguir um sócio, joga tudo isso pro alto e só quer saber de conseguir alguém mais inocente pra trabalhar de graça.
Não estou dizendo que todo mundo que procura um sócio CTO é assim. Mas é absurdo a quantidade de gente com esse perfil. Portanto, os profissionais com esse conhecimento de tecnologia ficam cada vez mais relutantes em assinar um contrato de vesting, em aceitar uma proposta ou arriscar sua carreira em uma aventura empreendedora com um estranho.
Meu conselho para as pessoas honestas que buscam um sócio CTO é:
- Você tem que provar que você é um especialista no mercado e problema que quer resolver
- Você tem que provar que existe mercado para o produto que você está propondo
- Não ter um sócio CTO não é desculpa pra não ter nada. Muita gente fala que não tem ao menos um MVP porque não tem um programador. Você não precisa de um programador pra fazer um MVP. E se sua idéia fosse tão boa assim, você aprenderia o básico de programação pra colocar um MVP no ar.
- Chegar para um potencial sócio oferecendo uma participação ridícula com cláusulas não realistas num contrato, sendo que você não tem nem receita, nem product-market fit, nem investimento, só mostra um profundo despreparo da sua parte. Ás vezes até malícia.
- O quanto você tem arriscado pela sua idéia? Você está pedindo para uma pessoa trabalhar de graça pra você. Uma pessoa que recebe um preço astronômico por hora trabalhada e vai deixar de lado várias oportunidades para fazê-lo. E você? O que você está entregando para o projeto para justificar o risco do seu pontencial sócio CTO?
Meu objetivo com esse texto é tentar expor um pouco do lado das pessoas que recebem esse tipo de oferta, o que elas sentem, o que acontece na maioria das vezes. Eu sei que tem muita gente boa precisando de CTO e eu até me esforço ocasiolamente para ajudá-los. Minha proposta é apenas uma reflexão do outro lado, o da pessoa que recebe essa proposta. Espero que esse texto ajude bons empreendedores na sua busca pela pessoa certa para ajudar a tirar a idéia do papel.
