Não é nunca só mais um dia de aula.

Depois de trocar o segundo pneu do dia, cheguei para a aula. Um curso sobre educação, gênero e diversidade sexual, voltado a pessoas das licenciaturas, que foi uma luta pessoal minha para que ele virasse realidade para a formação de professoras e professores. Uma turma que tinha 40 vagas, mas que tem 50 e tantas pessoas porque muita gente de outros cursos se matricularam. Avisei na secretaria: vamos caber, quem quiser pode chegar que há sempre vagas! Imagine se eu vou negar a alguém uma vaga para discutir feminismos, interseccionalidade, teoria queer? Em tempos de Escolas amordaçadas? Nem pensar.

Não cabíamos na sala, já estávamos em atraso no horário, é preciso aproveitar cada minuto, afinal o que consegui (mos, porque tive ajuda especial de algumas pessoas colegas e principalmente de estudantes nessa empreitada) foram 30 horas. Então, fui tentar uma sala maior: nossas aulas acontecem no que o Estado da Bahia e a Universidade estão chamando de “Complexo Integrado de Educação”, mas ainda é uma estrutura precária de um colégio estadual. Mesmo que o “olhar” esteja se alterando, o espaço físico é composto por salas pequenas, não há sabonete nos banheiros, o acesso à escola é ruim, o entorno é perigoso.

Nada melhor que discutir relações de poder (SEMPRE GENERIFICADAS, como gosto de repetir a cada minuto!) e tecnologias curriculares sexopolíticas do que desde dentro do espaço escolar. Não conseguimos outra sala, avisei que ninguém teria seu lugar “indeferido” e partimos para um bom início, se fosse preciso combinamos de dividirmos entre nós as mesas, sentando de duas em duas pessoas, pois cadeiras ocupam menos espaço. Mais gente vai chegando, algumas ficam um tempo em pé na porta, um pouco assustadas, buscam cadeiras em outro canto, eu vou me espremendo na parede, as pessoas dividem o café que trouxeram, algumas abrem pacotes de bolacha (biscoito?). O que importa? Muita atenção no ar.

A maior parte, ainda desconhecedora das histórias dos feminismos, das lutas LGBTIQ, começamos desde o simples, o “Sejamos todos feministas”, um manifesto bonito de uma nigeriana, Chimamanda Ngozi Adichie.

Aquela coisa, a gente conta um pouco da nossa vida. Lugares de opressão. Histórias de outras vidas. Um pouco de nossa pesquisa. Pesquisas “clássicas” e outras nem tanto. Escreve um pouco na lousa, títulos de livros, de filmes. Desenha um rizoma muito mal desenhado. Vai “linkando” com os conceitos, afinal era uma aula bem “tradicional”, introduzindo a discussão sobre a ideia de poder em Foucault, entendendo o que significa patriarcado, o que significa luta por igualdade nos feminismos, o conceito de cis e transgeneridade, porque a gente não usa mais o termo “sexo biológico”, porque o correto é A travesti e assim vamos seguindo… Daí as pessoas, pelo modo como eu acabo trabalhando, a partir de histórias minhas, de outras pessoas, de filmes, de poemas, tiram livros da mochila e dizem o que andam lendo, contam como foi difícil fazer uma roda sobre feminismo na escola onde estudou, lembra algumas das histórias narradas pela Chimamanda.

Me impressionou muito positivamente que as pessoas ficaram ali, amontoadas, sem comer, ou tentando comer escondido, a maioria pessoas que estão na terceira jornada (eu inclusive), fazendo inscrição para falar e, em especial, ouvindo. Daí você lembra do conceito de local de fala, alguém pergunta sobre as diversas maneiras de vigiar a fala alheia, você explica que é sobre respeito e que nós, homens, aprendemos que sempre temos o que dizer sobre qualquer coisa, porque aprendemos assim, e que é preciso discutir isso. Que existe diferença entre poder estabelecido para falar, respeito àfala e acúmulo sobre um tema.

Que desconstruir essa nossa história não é fácil, que é trabalho diário. As pessoas parecem entender, afinal ficaram até quando era possível, porque o transporte coletivo é precário, porque estavam com fome e não há cantina, porque a narrativa dos colegas que receberam “baculejo”, como se chama aqui na Bahia, da polícia, mais que surpreende, leva à solidarização. Porque é importante estar ali, porque educação é política sim.

E serviu para que as pessoas elencassem, já na primeira aula, o quanto há tantos outros espaços em que mulheres são silenciadas, LGBTIQs são silenciadas, pessoas não-brancas são silenciadas. Na escola, na Universidade, na vida. Nada, nada mesmo ali naquele espaço podia fazer mais sentido do que aprofundar as ferramentas teóricas e práticas para empreendermos algumas possibilidades para uma cultura do respeito. Porque sim, porque Universidade é lugar para afirmarmos a dissidência, mesmo que a instituição esteja cheia de homogeneizações, que este espaço seja minoritário. Porque sim, porque parece estar fazendo sentido para as pessoas, isso me acalenta.

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