Existe um cérebro lógico e um cérebro criativo?

A neurociência, como uma área ainda pouco conhecida, tem sido atingida por inúmeros mitos desde que começou a se popularizar na mídia. Inúmeros “experts” em cérebro e comportamento humano tem vindo a público disseminar inúmeras informações distorcidas sobre o funcionamento cerebral e cognitivo. Entre as informações mais disseminadas, seja por “experts” vendendo treinamentos que vão do neuromarketing ao neurocoaching, seja por profissionais impactados pelas informações pouco científicas que bombardeiam os meios de comunicação, está a diferença de função dos hemisférios cerebrais.
Hemisfério lógico versus hemisfério criativo
Muito difuso por todos os meios de comunicação está o mito de que o hemisfério esquerdo do cérebro é responsável pelas habilidades lógicas e o hemisfério direito pelas criativas. Na realidade isso é tão incompleto quanto o fato de que utilizamos somente 10% da nossa capacidade cerebral.
A ideia de separação das funções dos hemisférios cerebrais nasce na década de 60, quando Roger Sperry, ao estudar e tratar pacientes possuidores de epilepsia realiza cirurgicamente a separação dos hemisférios através do corpo caloso, quebrando assim a comunicação entre eles. A partir disso, com os recursos ainda precários da época, Sperry mapeou as áreas do cérebro responsáveis pelas funções cognitivas. A partir da pesquisa de Sperry a cultura popular assumiu que cada função é realizada numa determinada área do cérebro.
Outra pesquisa também desenvolvida por Sperry que corroborou para o crescimento desse mito dizia respeito ao tratamento da síndrome de down e da esquizofrenia, pois nela se concluiu que os portadores dessas patologias possuíam funcionamentos atípicos dos hemisférios cerebrais.
Isso bastou para que os “experts” em autoajuda, desenvolvimento humano e vendas tomassem como verdade absoluta a máxima de “cérebro lógico” e “cérebro criativo”, e contrariando o maior princípio da ciência, a refutação, vendessem soluções “mágicas” para desenvolver cada um dos hemisférios conforme a sua necessidade.
Embora realmente algumas funções, como a linguagem, a matemática, a música, por exemplo, sejam processadas em áreas determinadas do cérebro, essas funções não ocorrem sem um conjunto de atuação do sistema nervoso como um todo.
Essa explicação sobre um hemisfério cerebral mais forte do que outro é extremamente sedutora devido a sua simplicidade e leva as pessoas a quererem fortalecer seu lado fraco ou explorar seu lado forte, levando-as a consumirem “treinamentos”, abrindo caminhos para técnicas de vendas baseadas nas deficiências cerebrais dos consumidores ou inventando técnicas de entendimento das pessoas com base nessa neurociência rasa.
Sobre esse tema o Dr Christian Jarret escreveu:
“É complicado combater essa crença dizendo que a verdade é bem mais complicada. Mas vale a pena tentar, porque seria uma vergonha se um mito simplista abafasse a história fascinante de como o nosso cérebro realmente funciona”.

Embora existam algumas diferenças funcionais entre os dois hemisférios, temos que levar em consideração o papel do corpo caloso (um sistema de fibras nervosas pertencentes em sua maior parte à substância branca telencefálica, que executa a função de conectar os dois hemisférios fazendo com que eles trabalhem harmonicamente). Essas fibras nervosas que ligam os dois hemisférios tornar possível a integração das suas atividades. Assim trabalham em sinergia um com o outro e com outras estruturas subcorticais: considerar as suas atividades separadas e dar-lhes diferentes papéis fornece uma representação distorcida e reduzida da nossas habilidades mentais.
Outra razão pela qual não se pode dar uma habilidade específica a um dos dois hemisférios é a neuroplasticidade. O cérebro é capaz de readequar sua organização neural e recuperar as funções comprometidas por algum trauma. Em pessoas que sofrem danos nas áreas da linguagem, por exemplo, pode ocorrer uma reorganização funcional, sendo observado o deslocamento da função para áreas vizinhas ou, surpreendendo aqueles que defendem funções determinadas em cada hemisfério, para áreas homólogas do outro hemisfério, em lugar das danificadas. Assim, no caso de danos na base neural de uma função psíquica hipotética localizada em um hemisfério, não podemos excluir que tal função possa ser reorganizada na direção oposta.
Atribuir certas funções somente a um hemisfério cerebral seria extremamente reducionista. Os dois hemisférios cerebrais juntos encontram unidade e dão origem a nossa identidade pessoal. Trabalhando em sinergia um com o outro e com as outras estruturas presentes no crânio, recolhem os estímulos de todo o corpo a partir do sistema nervoso periférico e em conjunto com o cerebelo e outras estruturas subcorticais regulam todas as funções.
Portanto, há áreas do cérebro mais especializados para determinadas tarefas, mas a complexidade de nossas ações é dada pela interação entre todas as estruturas do sistema nervoso.
