Não existe relação sexual?

Há algum tempo eu venho incomodado com um aforismo provocador e enigmático de Lacan que diz:

“A relação sexual não existe”

Isso vinha me fazendo literalmente perder o sono, já que na hora de dormir essa bendita frase me vinha a cabeça. Embora ainda não faça muito sentido, eu consegui esboçar uma explicação que me pareceu coerente. Desculpem o psicanalinês desse texto, mas não faria sentido escrever de outra forma nesse momento.

Então…

O homem vive em função da sexualidade. O princípio do prazer é força motriz que conduz a pessoa durante toda a sua vida.

Nos animais não humanos o sexo é marcado por questões biológicas e em alguns casos sociais. Não existe, ou melhor não se sabe ainda se existe questões subjetivas relacionadas à sexualidade como existe na nossa espécie. Questões subjetivas tais como desejos, fantasias, sentimentos etc. Nos seres humanos a sexualidade é marcada por uma forte carga subjetiva e somos levados culturalmente a entender o sexo como um ato de união de completude com outro, assim como o amor romântico.

No encontro sujeito-objeto-sujeito nada se sabe sobre o outro, mas tudo se espera dele. Na concepção humana, mesmo sem nunca se saber quem é o outro, desloca-se ao outro a possibilidade de completude.

Para a psicanálise não existe amor total ou totalidade. Em ‘Análise terminável e interminável’ (1937), Freud relata que até aquele momento não havia conseguido extinguir nos homens o protesto masculino e nas mulheres a inveja do pênis, ele observara que os homens possuem em si a repulsa da feminilidade e as mulheres uma angústia gerada pelo complexo de castração, que fazia com que homens e mulheres estivessem em posições antagônicas na vida sexual. Adler, como base nisso, vai desenvolver os conceitos de complexo de superioridade e complexo de inferioridade.

As posições de gênero para Lacan são efeitos de linguagem. Embora a psicanálise perceba uma posição de poder desempenhada por cada gênero, em Lacan isso é entendido como um ato de linguagem. O sujeito se reconhece na posição pronominal masculina ou feminina, voltando seu olhar para ele. Dessa forma o gênero é uma posição discursiva construída historicamente.

Porém a questão do gênero avança por um caminho de não binarismo, onde nenhuma das posições podem se concluir substancialmente, pois se tratam de jogos de linguagem.

Butler define o gênero como reiterações performativas que se dão através das dimensões simbólicas da linguagem e da cultura, sendo construídas à medida que esse gênero é praticado.

Ao se falar em relação sexual se fala numa unificação das modalidades de satisfação. Local no qual as identidades de gênero não possuem espaço, mas são substituídos pela modalidade de gozo. Sendo o masculino e feminino diferente na experiência do gozo. Nessa questão existe um binarismo inerente. Masculino e feminino gozam de formas diferentes.

Para Lacan, o gozo pleno do corpo do outro é impossível. Pois o gozo passa necessariamente por um ideal narcísico, onde o objeto de gozo não está inteiro no investimento do sujeito. O amor é o limite do discurso do gozo pleno, o amor encobre a impossibilidade do gozo pleno invertendo a inexistência da relação sexual, afirmando a sua existência. O amor enquanto sintoma possui a função de tornar possível a impossibilidade da completude do gozo, o amor quer estruturar a impossibilidade da unidade, fazendo-a possível, porém isso esse querer de unidade é marcado pela falha, pela impossibilidade de amar sem ser amado.

A sexualidade pode ser definida como havendo três aspectos: identidade de gênero, modalidade de gozo e fantasia.

A fantasia é o determinante da forma como o desejo é expresso. Na fantasia se coloca o outro no lugar de um objeto ao qual ele não corresponde, numa relação reciproca de não correspondências entre sujeito e objeto. O desejo do sujeito é a falta daquilo que ele busca no objeto. O universo erótico das pessoas, mais do que questões comportamentais, está baseado na fantasia, onde o outro é tomado por objeto ficcional e espelho, em posição narcísica, fazendo o desejo do outro ser o desejo do sujeito, e o desejo do sujeito ser o desejo do desejo do outro.

Isso não quer dizer que não exista sexo. A frase dita por Lacan em francês é: “il n’y a pas rapport sexuel” — onde rapport deduz uma questão de ganho. Toda relação denota algum ganho. Logo o que Lacan diz é que no ato sexual não existe ganho para o sujeito, pois no outro não se encontra aquilo que lhe falta; sempre há algo que lhe escapa, sendo justamente essa falta o que desperta o desejo.