Foto de divulgação do disco Cenas do Próximo Capítulo, que tive a sorte de achar dentro de um encarte no vinil que comprei; provável registro de um show no estacionamento do Shopping Eldorado em 82 ou 83

A morte ou coisa parecida

No dia em que o perdemos, alguns pontos em homenagem ao grande mestre

“A vida é, mesmo, uma aventura da qual não sairemos vivos!”
 — Belchior

Como grande fã que sou, não dá pra deixar pra depois: sim, certamente vou parar pra escrever mais sobre Belchior em breve, porém, ignorando meu perfeccionismo (que me cobra um texto mais denso e intrincado — “mais à altura do falecido” — , só que pra depois), hoje não conseguiria dormir tranquilo sem parar pra registrar algo aqui, qualquer coisa que seja, mas alguma coisa, como uma simples e rápida homenagem ao meu ídolo…

1.

Belchior não tava de bobeira. Filósofo existencialista sinistro, com um profundo conhecimento humanístico, ele colocava nas letras suas aflições particulares não só pra fazer canções, viver como cantor e ter uma carreira, mas sim pra também expurgar esses demônios. Sua música era muito próxima da sua experiência de vida, não como mera opção estética ou apenas fonte de inspiração: ele escreveu o que escreveu e cantou o que cantou como uma tentativa de descrever e compartilhar sua experiência de mundo.

2.

No ano passado trombei com esta entrevista dele, dada em 82 à Rádio Universitária FM, de Fortaleza, pro programa Caminhos da Cultura:

Nela, ele confronta uma das críticas mais comuns feitas ao seu trabalho, a do poeta do choque de gerações:

“Essa insistência com o novo, com a juventude, não é naturalmente uma coisa biográfica. Nem uma coisa que diga respeito a faixa etária, ou a conflito de gerações, como a crítica mais superficial quis ver.
É porque meu trabalho pretende, ele gostaria de ser, ele quer ser um objeto poético transformador, um objeto poético que tenda para os interesses da história do homem, um objeto útil, enfim: uma arte que sirva, uma arte que não seja ornamental. Mas uma arte que seja uma arma na mão do homem para a conquista de si mesmo, para a conquista do universo, para a conquista dos espaços desconhecidos.
Naturalmente que essa utopia toda aparece como um universo novo, como um universo jovem, como um universo cujo conhecimento só pode ser expresso em palavras novas. Portanto, é uma utopia paradisíaca, uma utopia órfica, uma utopia de transformação pelo que é edênico, pelo que é primitivo no homem.
Não tem nada a ver com uma coisa mais superficial de achar que as pessoas mais jovens estão com tudo e as pessoas maduras não estão com nada, e que o mundo é feito pela juventude e as pessoas maduras já perderam seu lugar ou seu vigor nas coisas, no meio do mundo.
Não tem nada a ver com não confiar em quem tem mais de trinta anos. Tem a ver com uma coisa muito mais profunda, com respeito a toda uma filosofia de texto e a pretensão de um universo transformado, de um universo tendente para aquilo que o homem pretende com a sua profundidade, com a sua alma e com seu espaço espiritual.”

3.

Até desaparecer, Belchior sempre foi um cara acessível. Não pagava de estrela. Há muitas entrevistas com ele no YouTube, e várias pra programas locais, assim também como pequenos shows.

Dessas entrevistas, além da que citei acima (item 2), recomendo bastante estas aqui (uma apareceu recentemente no YouTube, e por coincidência pude ouvir na última sexta, enquanto a outra foi posta hoje, no dia de sua morte):

4.

Já tem um tempo que montei esta playlist, colecionando vários shows/apresentações ao vivo dele:

Passe um tempo ouvindo. É muito foda!

5.

Tem um lance do Belchi bem fácil de perceber, mas também muito curioso: ele nunca cantava ou gravava uma mesma música do mesmo jeito. Ao longo da carreira, ele sempre fez questão de mudar as músicas, gerando dezenas de versões dos grandes sucessos.

Um dos exemplos é o disco Um Show — 10 Anos de Sucesso. Ouça.

Mas talvez o mais radical nesse sentido é o disco Auto-Retrato, de 99, produzido pelo sobrinho do Rogério Duprat, Ruriá Duprat. As músicas ganham todas uns arranjos eletrônicos, mais quebrados, menos melódicos (a sonoridade me lembra um pouco, assim, de revesgueio, o Lobão de Noite e A Vida é Doce — ou seja: Brasil, final dos anos 90, e com bateria eletrônica).

6.

Cenas do Próximo Capítulo, o único disco independente dele, lançado em 84 pela sua própria gravadora, a Paraíso, tem uma música desconhecida do grande público — Rock-romance de um robô goliardo — que é synth-prog de letra distópica, que descreve uma cidade como a São Paulo que ele viveu, mas com 1 bilhão de habitantes — e muito provavelmente é a maior música que ele já fez: 7 minutos.

A longa letra é um primor belchioriano e fala de algumas coisas que ele nunca tratou aberta e diretamente em outras músicas (“como dar bandeira é bom”). Segue a letra, fotografada direto do encarte:

Um exemplo de como sua obra é ampla e vai continuar sendo descoberta e redescoberta daqui pra frente.

7.

Aqui compartilho três boas versões pra músicas dele, o que nem sempre é fácil: é comum versões das músicas do Belchior ficarem muito ruins, como o Oswaldo Montenegro hoje no Faustão e a maior parte de um tributo indie feito uns anos atrás:

(Pra quem, diferente de mim, não gostar dessa última, considere como mais uma curiosidade neste texto.)

8.

E a obra não publicada dele, escrita nos últimos anos de reclusão? Conto que será bem cuidada, preservada, pra eventualmente podermos ter acesso ao último período desse autor fabuloso. Que a esposa e a família possam ter a responsabilidade devida pra cuidar disso, pelo amor de Deus!

9.

Pra fechar, a professora Josy Teixeira fez seu mestrado e doutorado sobre o Belchior, então pra quem quiser se aprofundar numa análise mais acadêmica pra obra dele, os dois trabalhos dela são fundamentais:

Bom, é isso.

Um dia triste, mas…

Belchior vive! É imortal!

Até.

Show your support

Clapping shows how much you appreciated Rafa Spoladore Ψ’s story.