A startup sob a perspectiva do investidor

Uma startup é uma organização que pretende minimizar riscos e maximizar o valor de seus ativos de negócio em tempo recorde

por Yuri Gitahy* (@LeanVC)

Muito tem sido dito sobre startups, e as palavras de sabedoria de inúmeros especialistas, empreendedores e investidores têm coletivamente criado dogmas que agora são aceitos em todo o mundo.

Na última década, Steve Blank e Eric Ries têm sido dois consistentes colaboradores desse conjunto de conhecimento e sua definição conjunta de startup pode ser colocada desta forma:

Uma startup é uma organização temporária em busca de um modelo de negócio escalável e repetível, projetada para entregar novos produtos e serviços em condições de extrema incerteza.

As palavras de Blank estão antes da vírgula, e as de Ries, depois dela. São belas definições complementares, autoexplicativas e polidas à perfeição. Porém…

Tenho sido abordado por milhares de empreendedores em busca de financiamento e, como resposta, tenho pregado exatamente essa mesma definição. Estranhamente, a réplica típica a esse meu evangelho sempre denota uma falta de entendimento sobre o que exatamente esses termos e definições significam na realidade.

É por isso que sempre senti falta de uma definição que lhes dissesse de que modo se avaliar como uma verdadeira startup ou não, e também que os ajudasse a visualizar se sua startup está no caminho certo pela lente dos investidores.

Não desejo articular um conceito diferente do original, mas apenas virar a moeda e revelar o que poderia ser gravado do outro lado dela. E é isto o que proponho:

Uma startup é uma organização que pretende minimizar riscos e maximizar o valor de seus ativos de negócio em tempo recorde.

Vamos detalhar os conceitos-chave.

ORGANIZAÇÃO

Uma startup não é necessariamente uma empresa formal. Frequentemente encontramos times independentes dentro de grandes companhias trabalhando com estilo de startup. Assim organizações abrangem grupos de amigos, pesquisadores, profissionais, empresas constituídas recentemente ou equipes dentro de grandes companhias que utilizam parte do tempo ou todo o tempo disponível com um objetivo em comum: criar uma startup juntos em torno de um mesmo produto ou serviço, seja dentro da empresa, como um spin-off ou como uma empresa formal.

MINIMIZAR RISCOS

Não importa quão incerta é a aptidão do produto pro mercado ou quão inovador é o modelo de negócio: investidores têm sempre um viés pro baixo risco e contra a incerteza extrema. Por isso, as melhores startups combinam a redução gradual da probabilidade do risco com um aumento consistente do potencial de retorno. Ótimas startups diminuem o risco até o sucesso ao longo do tempo, e o melhor caminho pra fazer isso é crescer, crescer e crescer…

Além disso, muitos fatores de risco podem ser detectados, enfrentados e minimizados com planejamento cuidadoso. Proteção jurídica, pedidos de patente, acordos de parceria comercial, assinatura de acordos de confidencialidade e de não competição com grandes concorrentes, cartas de intenção de potenciais compradores: tudo que ajude a garantir que a startup tenha receita no futuro ou um porto seguro quando for lançada é válido.

MAXIMIZAR O VALOR

Não há propósito na startup que não cuida de aumentar seu valor. Maximizar o valor é o propósito menos enriquecedor e nobre se comparado com a quantidade de coisas que uma startup precisa fazer, mas qualquer trabalho passa a ser desperdício se não estiver aumentando o valor da iniciativa.

Quando se trabalha pra maximizar o valor de algo, isso significa que é preciso alcançar o máximo valor possível — e não aceitar menos que isso. Fundadores que maximizam o valor dos ativos de sua startup precisam ultrapassar seus limites e lutar diariamente pra extrair tudo o que podem do time, da tecnologia, da gestão e dos resultados.

ATIVOS DO NEGÓCIO

Todo ativo pode ser valioso pra uma startup, como uma tecnologia inovadora, uma grande base de usuários, um ótimo time de fundadores ou uma única patente aprovada. Ainda assim, esses ativos são atraentes pros investidores e executivos (como representantes de fundos e empresas) se eles são aplicáveis ao negócio e dão vantagens competitivas pra alguém que trabalha no mercado (hoje ou amanhã).

Afinal, se o modelo de negócio da startup não se provar escalável e repetível, ou os gestores botarem tudo a perder, você pode ao menos liquidar os ativos e ter um bom valor em troca…

Esse é um aspecto fundamental que os exércitos de empreendedores esquecem ou subestimam. Os investidores só terão seu patrimônio avaliado em 10 vezes se os fundadores trabalharem duro pra transformar ativos em ativos do negócio. Executivos só vão endossar a startup que apresenta atributos estratégicos, tecnologias, base de usuários ou times que podem ser úteis de um jeito ou de outro — ou o mais próximo disso. Se uma startup 1 tem ativos menos valiosos que uma startup 2, mas esses ativos são mais orientados e prontos pro negócio, ela pode ganhar a corrida.

Nunca deixe de considerar um plano B, mas ele precisa ser tão importante quanto o plano A — ou você nunca terá um plano. Maximizar o valor dos ativos do negócio é obrigatório pra ambos os cenários.

TEMPO RECORDE

Não há muito o que explicar aqui. Uma startup tem que realizar e crescer o mais rápido possível e muito mais rápido do que os concorrentes. Seja natação, corrida ou qualquer empreendimento humano que pretenda ser grandioso, é difícil quebrar o recorde de tempo (embora algumas pessoas dediquem sua vida inteira a quebrá-los).

Isso funciona igual pra uma startup: crescer em tempo recorde significa ser mais rápido do que todos os outros.

USE ISTO COMO UMA BÚSSOLA

Quantos empreendedores são capazes de abandonar completamente suas ideias preconcebidas, crenças pessoais e preconceitos pra criar a melhor startup que podem? Mesmo que a maioria das startups sejam apresentadas como modelos potencialmente escaláveis e repetíveis, isso são apenas premissas e não uma validação.

Em outras palavras, empreendedores muitas vezes martelam a visão de sua startup em qualquer coisa que vejam, pois creem que estão perseguindo um modelo escalável — e não porque ele realmente o é ou será. Infelizmente as definições de Black e Ries induzem a esse erro e não encaminham o problema (a menos que você olhe para todas as metodologias e práticas que eles descrevem exaustivamente em livros e blogs).

A definição que propus serve como um norte pros fundadores e times corporativos que desejam compreender o seu potencial de retorno sobre o investimento. Mas o mais importante — tendo financiamento ou não, sendo formal ou informal — é eles poderem olhar pra essa bússola, atestarem se estão fora do curso e entender o quanto de startup eles realmente são e têm.

Então, se você estiver tocando uma startup, passe ocasionalmente por esta lista derivada da definição:

Você está trabalhando ativamente para minimizar os riscos da sua startup?

Você está maximizando o valor dos seus ativos?

Esses ativos são orientados pro negócio?

Você está fazendo tudo o mais rápido possível?

Você está fazendo tudo mais rápido do que outras startups similares?

Todas as suas ações são planejadas para responder “Sim” diariamente a todas as questões acima?

Cada resposta negativa é um alerta de que você talvez não esteja tocando a startup como deveria.

Mas se você acha que está dando seu melhor e mesmo assim tiver um ou outro “Não” na lista acima, então siga esta receita:

  1. Para cada negativa, pergunte ao time: “Por que não?”
  2. Anote os reais motivos.
  3. Conceba soluções simples pra atacar cada motivo.
  4. Faça funcionar!

Vou te dizer uma coisa: sempre que seu motivo for “não temos dinheiro suficiente”, pense em outro motivo. Toda startup precisa de dinheiro, mas as melhores encontram alternativas pra transpor esses obstáculos, mesmo sem dinheiro.

E nunca esqueça: eventualmente o universo das startups pode não ser a sua praia.

Fazer tudo certo é como construir uma estratégia Scrum no quadro. Acredite em mim; vale a pena e vai fazer de você um empreendedor melhor todos os dias.


*Yuri Gitahy é investidor e escreve regularmente no seu blog LeanVC.


Traduzido e publicado com a autorização do proprietário do conteúdo.

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