Netflix: O Despertar da Força
Emissoras de TV e produtores de filmes ficarão pra trás se não aprenderem a investir no conteúdo que o consumidor quer
por Gene Hoffman (@hoffmang), CEO da Vindicia
A Netflix vai rir por último: seu sucesso na produção de conteúdo em breve vai superar as emissoras de TV tradicionais e os estúdios de cinema. Estou mais convencido disso do que nunca.
Ironicamente foi a campanha de difamação liderada pela rede NBC pra queimar a Netflix que reforçou essa minha opinião. Alan Wurtzel, o guru de pesquisa da NBC, recentemente vazou dados que indicam que uma das séries mais vistas da Netflix, Jessica Jones, tem em média só 4,8 milhões de espectadores por episódio. Em comparação, as séries de maior audiência nos canais tradicionais de TV, como Empire (da Fox) e Big Bang Theory (da CBS), alcançam 9 milhões e 8,3 milhões de espectadores, respectivamente.
A finalidade desse vazamento é, claro, tentar abalar o modelo de negócio da Netflix. Mas, como aponta este artigo do site BGR, a NBC está “delirando sobre a Netflix e o futuro da TV”. Eu não poderia concordar mais.
Por quê? Porque se compararmos maçãs com maçãs, a Netflix está superando as emissoras de TV tradicionais. Como este post do blog Concurrent Media deixa claro, Wurtzel desvirtua os dados quando esquece de mencionar que a Netflix atinge atualmente 42 milhões de assinantes nos Estados Unidos, enquanto NBC, Fox, CBS e ABC chegam a 116 milhões de lares americanos.
E daí? E daí que isso significa que um programa como Jessica Jones atrai impressionantes 11,4% da base total de assinantes da Netflix nos Estados Unidos, enquanto programas como Empire e Big Bang Theory correspondem a apenas 7,8% e 7,2% da audiência total de suas emissoras, respectivamente.
Agora, considere aumentar a audiência da Netflix pro mesmo patamar de assinantes da NBC e Jessica Jones estaria atingindo 13 milhões de espectadores. Esse número impressionante faria qualquer executivo da NBC (ou outra emissora) cair pra trás. A verdade é que a base de assinantes da Netflix é muito mais engajada do que a da NBC e isso preocupa seriamente Hollywood.
Quando o pessoal da Netflix cria um programa novo, não é na base do chute e da esperança.
Esta é outra razão que deve preocupar Hollywood: a Netflix pode usar o big data pra produzir séries de sucesso quase rotineiramente. Essa é uma façanha que as emissoras nunca foram capazes de realizar. “A Netflix tem criado um banco de dados com as predileções cinematográficas dos americanos”, como explica um artigo esclarecedor da revista The Atlantic. “Os dados não dizem a eles como produzir um programa de TV, mas podem dizer o que deve ser feito. Quando criam uma série como House of Cards, não estão tentando adivinhar o que as pessoas querem ver.”
Como a Netflix está fazendo isso tão bem? Meticulosamente reunindo e analisando dados sobre as preferências de seus assinantes, incluindo não só o que as pessoas assistem, mas o que buscam, o que gostam e até onde pausam, voltam e avançam no vídeo. Além do mais, a Netflix tem catalogado seu conteúdo em aproximadamente 80.000 gêneros e subgêneros específicos — desde Dramas Emocionais Independentes pra Românticos Desanimados até Comédias de Animação de Famílias Disfuncionais Espirituosas. Sim, essas são categorias reais!
Quando o pessoal da Netflix cria um programa novo, não é na base do chute e da esperança. Eles sabem que, se produzirem um programa de um determinado gênero, com certos tipos de direção e certos tipos de atores, eles provavelmente terão um sucesso em mãos. Chame isso de fábrica de dinheiro pra indústria do cinema e da TV.
É incrível que a Netflix tenha conseguido chegar a esse nível de competência, considerando que ela nem queria entrar no jogo de conteúdo em um primeiro momento. Mas a Netflix não teve escolha, uma vez que se tornou evidente que os maiores estúdios a matariam de fome por conteúdo de qualidade. Agora eles criaram um monstro.
“O objetivo é se tornar a HBO mais rápido do que a HBO consegue se tornar a gente.”
— Reed Hastings, CEO da Netflix
Em breve podemos chegar ao ponto em que a Netflix estará criando tantos programas quanto as grandes emissoras. E não é difícil imaginar a Netflix tendo os cinco programas mais vistos na América no ano que vem. O equilíbrio de poder está de fato mudando dramaticamente. Eu também consigo enxergar a Netflix se tornando um produtor de cinema em 2016, enquanto os estúdios continuarem a regular o acesso ao seu conteúdo. E dado que são apenas 42 milhões de assinantes, não é exagero pensar que a Netflix vai dobrar sua audiência até o final desta década.
Na verdade, Reed Hastings, o CEO da Netflix, brincou recentemente que “o objetivo é se tornar a HBO mais rápido do que a HBO consegue se tornar a gente”. Neste momento, minha aposta está na Netflix. Ela tem o dinheiro, os dados e a expertise necessários pra fazer conteúdo de qualidade que os assinantes estarão ansiosos pra assistir.
Na minha opinião, a Netflix já está produzindo séries melhores que as da HBO. E essas séries estão atraindo uma fatia maior do público. Sim, a HBO tem grandes sucessos, como Família Soprano, Entourage e Game of Thrones. Mas na HBO esses sucessos estão separados por vários anos. A Netflix, por sua vez, hoje parece ser capaz de fazer jorrar ouro a cada poucos meses.
No paralelo, a HBO está claramente com inveja do modelo de assinatura da Netflix. É por isso que lançou recentemente a HBO Now — um serviço de streaming pela internet que, por US$ 14,99, permite assistir ao conteúdo da HBO sem uma assinatura de TV a cabo ou por satélite. Mas, na minha opinião, isso pode ser muito pouco e tarde demais, dada a enorme vantagem da Netflix nesse mercado, as grandes pilhas de dinheiro que ela tem em mãos e seu fluxo de caixa no futuro vindo do seu modelo de assinatura, o que lhe permite criar novos conteúdos.
Nada mau pra um serviço que foi inicialmente percebido pelos principais estúdios de Hollywood como um lixão pro conteúdo com que ninguém se importava. Esses grandes estúdios devem certamente estar preocupados agora, pois a Netflix está comendo sua pipoca ao se concentrar no elo mais importante desse negócio — as pessoas que querem assistir TV de ótima qualidade.
Traduzido e publicado com a autorização do proprietário do conteúdo.
Texto revisado em 03/03/2016.
